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Cinema Dual: Fausto e a Realidade

A objetivo da consciência da própria dualidade é levar à existência plena. Se há esta necessidade, é por que se parte de um pressuposto de que a vida não é plena.

Mas muitas das pessoas rejeitariam esta afirmação, por ainda terem forte comprometimento com as estruturas em que estão a participar. Vamos entender melhor como isto se dá.

Para tais pessoas, não me preocupo nem me dirijo a elas, pois ainda estão no processo de inconsciência voluntária – quando desejam ficar assim, mesmo que desconfiem, lá no fundo, que haja algo de muito estranho na vida que estão a viver, mas optam pela cegueira fingida nas zonas de conforto e segurança, enquanto estas ainda lhe são possíveis habitar.

Mas é preciso perceber isto como algo natural do espírito humano, que faz parte da sua evolução, do progresso essencial, que se transmuta e se aperfeiçoa sempre.

Mas estas pessoas consomem insumos que lhes permitem ficar assim. São mecanismos que a própria estrutura fornece para que haja maior aderência a elas, que traduzam as aplicações práticas de suas ideologias, de suas formas de organização, para que a ordem seja mantida, sem distúrbios.

Alguns destes insumos parecem inocentes, pois se aperfeiçoaram ao longo da existência humana. É bem certo dizer que as estruturas não partem de um ente externo da humanidade.

Algumas, mesmo anteriores à existência humana, como a própria natureza, hoje está sob forte intervenção humana, que busca dominá-la a todo o custo, assim como busca explorar e ocupar o espaço, em missões que começam a existir de forma comercial, como estamos a ver.

A fome e a sede humana estão muito além de suas necessidades existenciais, pois estão voltadas para as necessidades da estrutura, da evolução da multiplicidade e pela morte da unidade do ser, da essência humana.

E muitos se perdem nesta ordem estabelecida, ou desistem e se encolhem, se escondem, ou vivem de forma autômata, como uma máquina, sem forças para mais nada, em uma existência mais do que vazia, ou pior, ainda atentam contra a própria vida, o que justifica que a cada ano mais e mais pessoas optam por esta lamentável, ainda que compreensível, opção.

Uma dor para quem fica ainda maior, pois é uma dor que confronta com o próprio sentido que sua vida se dá, das impossibilidades que estão a cometer contra si mesmos. Só quem perde alguém importante para o suicídio é quem sabe o que isto significa.

Mas quais são estes insumos que levam a algum grau de alienação? São muitos. Mas é sempre bom ressaltar que não há crítica pejorativa. Há algo de positivo em todos estes exemplos que vou citar, mas que ainda assim cumprem sempre uma função importante de provocar aderência à estrutura, sem dúvida.

Anestesias

Podemos falar da autoajuda que se intensificou nos tempos recentes, tanto quanto a vida se tornou menos suportável, inversamente á quantidade crescente de fórmulas e segredos para o bem viver, mesmo que alguns dos líderes e nomes deste grande mercado não consigam nada do que prometem existir.

Podemos falar das muitas das terapias que existem atualmente, sejam psicológicas, analíticas, profissionais ou holísticas, pois o próprio conceito de holismo traz muitos equívocos que levam ao erro, justamente por pensar que o todo é a meta, que o ser precisa ser integrado ao todo, pois lá está a felicidade, o paraíso ou nirvana… e o todo proposto pelo holismo é a própria estrutura, percebe?

Muitos discordam, como disse, mas não é para estes que me dirijo.

Existem outras formas de insumos que abordaremos em breve, mas as mais poderosas de todas as formas, de longe, são a religião e a política, ainda mais porque uma não anda sem a outra, desde sempre.

E são poderosas pois estão no dia-a-dia da sociedade, da cultura, das formas de organização da ordem vigente, das normas comportamentais, da servidão voluntária e do pensamento massificado.

Qual religião liberta? Qual religião diz que o lugar do crente não é ali, necessariamente? As mais perigosas religiões, e que mais possuem fiéis, pregam a unidade, a consolidação fundamentalista, busca a destruição dos que estão fora delas, seja por combate de ideias, repressão ou mesmo pela morte. Todas dizem que a razão está com elas, e apenas com elas, que são supostamente as intermédias entre o divino e o mundano. O mal está fora da religião, como pregam, fora do templo.

As forças políticas se legitimam desta massa dominadora e dominada. Aproveitam-se das crenças e mesclam-se, confundem-se, tal como faziam os antigos regimes monárquicos, que se diziam escolhidos pelos deuses ou mesmo apenas por um deus. Mudam os tempos, mas não muda a obscenidade do controle estrutural.

Sim, isto mesmo: obscenidade. Obsceno, aqui, não é algo sem pudor, pelo contrário. É algo que possui tanto pudor que passa a ser obsceno, por estar fortemente inserido nas formas de existir da estrutura, que apenas quem está com um ângulo de visão mais distante consegue perceber o desvirtuamento de tudo o que há, o absurdo compartilhado e aceito como normal, e por isso sim, obsceno, em um jogo de palavras em que se mostram necessárias para definir o existente desvirtuado.

Não é por acaso que muitos políticos se projetam como messias, salvadores, superiores à raça humana. E o mais impressionante é que se legitimam pelos seguidores que não só dão esta legitimidade, mas também o defendem como se fosse a causa mais importante de suas vidas.

As causas dos partidos políticos supremacistas acabam por se tornarem a causa da maioria, e fazem tudo, até matar a minoria discordante ou vista como maléfica. Ainda hoje, é assim.

Sim, as formas de dominação são todas, em última instância, obscenas. E logo você perceberá melhor isto, se ainda lhe parece estranho neste momento. Tudo a seu tempo.

Fausto

Goethe escreveu uma versão sensacional sobre uma lenda alemã, Fausto, que tem origem na vida de um mago alemão nascido no século XV.

Na vida real, o místico possuía alegados poderes extrassensoriais, uma capacidade intelectual superior e o que fazia com que fosse visto como diferente, como alguém fora da estrutura, ao ponto de religiosos alegarem seus poderem ao demônio, como o fez o próprio Martinho Lutero.

Mas da vida real para a literatura é um pequeno passo. E assim, Fausto foi retratado por diversos escritores como o ser dual, entre duas instâncias distintas, como a religiosidade medieval, em que Deus ocupa o papel central, e o humanismo renascentista, em que o homem assume o papel central da existência.

Mas Goethe captou perfeitamente a estrutura do arquétipo da alma humana, da estrutura íntima da dualidade do ser, e foi muito mais além do que todos os que escreveram sobre Fausto, o que ocorre até os dias atuais, em um tema que tanto intriga quanto desafia a intelectualidade dos possíveis.

Mas o que busca Fausto? O conhecimento, que não percebe que está fora da estrutura, que é religiosa e castradora, pois ele está insatisfeito com as limitações impostas pela estrutura a que está inserido, e quer transcender não a ela, por desconhecer esta possibilidade, mas ao próprio tempo que possui de vida, e supostamente deseja a eternidade, como se pensasse que algum dia este conhecimento seria possível obter de dentro da estrutura.

A versão literária, inserida na estrutura, e, portanto, de acordo com a religião vigente, retrata isto através de um pacto com Mefistófeles, uma espécie de demônio, cujo significado de seu nome é “ausente de luz”.

Assim, o pacto se dá e Fausto ganha tempo. Mas, um certo dia, se apaixona, e deste amor que surge, vive pela primeira vez, no presente, conectado a si e a sua amada, e assim tenta anular o pacto realizado com Mefistófeles, sem sucesso.

Obviamente que todas as versões darão diversas formas de se interpretar. Mas o liga todas estas versões é a luta íntima que existe na dualidade de Fausto, que representa a dualidade humana, que tanto divide-o quanto comprova que o amor puro, o sentimento de se estar no seu tempo, na sua própria vida, em sua existência plena é o que dá ao ser a sua completude.

A sua história tanto nos mostra isso, como expõe os interesses religiosos e políticos de desencorajar a quem busque o verdadeiro conhecimento, a fonte do saber, para além dos seus limites estabelecidos, dentro da ordem simbólica estabelecida.

Afinal, estamos todos presos, em algum grau maior ou menor, mas presos. E a maioria esmagadora sem a menor consciência sobre isto, como se estivesse a dormir, ou sobre forte efeito de drogas.

Por isso, há um pouco de Fausto em mim, e em você, e na minoria que despertou em busca de sua verdadeira essência. E é por isso que você precisa continuar nesta jornada, precisa estabelecer um plano para progredir, no tempo que possui, no ritmo que desejar, e da forma que quiser, seja aqui, connosco, ou fora daqui, mas é preciso prosseguir.

O mapeamento é uma possibilidade, é verdade. Mas eu seria mentiroso se dissesse que é a única. Existem muitas outras formas, algumas excelentes, que mesmo que durem mais tempo e consuma mais energia, também dará para você o que está a buscar.

É preciso perceber o que servirá para você, o que deixará consciente, ampliará seus horizontes e fará de você alguém que exista plenamente. Forças!

Comente, deixe suas questões, críticas, sugestões ou dúvidas.

Saiba mais sobre o filme...

Fausto (ver IMDb)

Original title: Faust
2011 – não classificado – 2h 20min

Um renomado estudioso, desesperado pela vida que leva e pela insaciedade que possui, vende sua alma a Mefistófeles em troca da saciedade que lhe falta, a incluir uma noite com uma bela jovem.

Diretor/Realizador: Aleksandr Sokurov
Autores: Yuriy Arabov (livro), Aleksandr Sokurov (roteiro), Marina Koreneva (roteiro)
Elenco: Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk

Leandro Ortolan

Leandro Ortolan

"Toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas." (Agostinho da Silva)

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