fbpx

Cinema Dual: O Sabor da Cereja

Existem algumas poucas certezas e, uma delas, é que não há como fugir de se viver na estrutura – isto é certo. Não conseguimos viver de forma isolada, sem depender de recursos do mundo, dos meios de produção, das relações que temos com outras pessoas, e tudo o mais que faz parte da estrutura existencial.

Aliás, a própria sensação de existência acontece dentro da estrutura, da materialidade que se relaciona entre si – tudo o que é material está inserido em alguma estrutura – a estrutura não é apenas a materialidade, é muito mais do que isso, mas toda materialidade é estrutural.

Sair da estrutura, portanto, não está em causa, pois também não é esse o verdadeiro problema que você enfrenta, ainda que possa parecer que é o mundo que está contra você – não é bem isso o que acontece, e você logo perceberá. Contarei aqui uma história impressionante sobre isto, mas antes de falar sobre a história, escute um outro ponto de vista.

Se você não pode fugir da estrutura, também é verdade que não pode fugir da sua própria essência de ser. O que você é quase nunca pode ser trazido por inteiro para a estrutura, pois nela você exerce papéis que não são de sua livre escolha, e precisa se ajustar a eles, por vezes a ocupar algo que não está em você, por vezes por abandonar algo seu.

E assim, obedece a diversas necessidades que exigem de você algo que não combina com a sua essência, ou até mesmo rejeita, em casos mais graves, com total aversão ao convívio humano e à própria vida.

Seria como se duas feras poderosas estivessem a brigar entre elas, dentro de você, mas sem que você consiga ver a luta, saber quem é quem, apenas sente os golpes que são realizados em ambas, e isto causa grande dor e sofrimento, mas não percebe qual parte de você foi ferida.

Na estrutura, o que você expressa de si acontece em um sistema consciente, ou semiconsciente em que tudo pode ser sentido, percebido, interpretado, sempre depois do acontecido. Mas a sua essência não se dá apenas no campo consciente, pois a maior parte desta essência está manifesta no campo inconsciente, no âmbito intuitivo, transcendental, que ocorre no presente, no instante em que você exerce suas intenções no agir.

É por isso que muitas das pessoas estão vivas sem estar vivas, de facto, pois agem sem conteúdo, sem intenção, como máquinas. Sempre pensam que não possuem tempo para si, que possuem outras prioridades mais urgentes, mais importantes do que sua própria existência.

Isto já é um grave sinal. A maioria das pessoas não está nem viva, nem morta, mas entre estes dois estados, são morta-viva, ou zumbi, ou zombie, como se fala cá em Portugal.

Há um filme bastante ilustrativo desta situação. Trata-se de um filme que exige grande sensibilidade e discernimento para se perceber realmente o que se está em causa. Badii é um homem, do oriente médio, com boa situação financeira, uma vida aparentemente bem estabelecida e que decide, por ter um vazio interior profundo dentro de si, dar fim à própria vida.

Seu plano é tomar remédios tranquilizantes em excesso em uma cova que foi cavada embaixo de uma cerejeira, no alto de uma bela montanha semiárida do deserto iraniano, nos arredores de Teerã. Ali ele escolheu seu túmulo.

Mas ele apenas quer desaparecer do mundo, sem deixar para trás nada seu, nem mesmo seu corpo – não quer depender mais da estrutura para nada. Por isso, sai com seu carro a procura de alguém para contratar, para que apareça na manhã seguinte, bem cedo, e jogue terra por cima de seu corpo, pois pretende cometer o ato de morte durante a noite, na escuridão, tal qual o escuro que está em si.

Pode parecer um filme mórbido e esquisito sobre suicídio, à primeira vista, mas não é. É um filme que oferece uma diferente interpretação sobre a vida moderna, sobre as estruturas em que todos estão presos a viver como se fosse livre, mas sem nunca ter a liberdade que pensa ter. É um filme que dá muitos elementos para pensarmos sobre as possibilidades, sobre o eterno, o infinito, os desdobramentos que levam à beleza, à quentura e à necessidade de existirmos plenamente.

Quem não busca a vida plena, acaba por perder-se na atual existência, e só possuirá apenas aquilo que lhe dão, mas quem dá, sempre exige algo em troca, e eis a equação da miséria mais profunda da alma humana, vender a si mesmo, entregar sua essência, perder-se na escuridão. Por isso, vamos perceber o que esta história pode ensinar, ou alertar.

Badii, a rodar com seu carro pelas redondezas de Teerã, encontra algumas pessoas, durante o único dia em que o filme se passa, e ele conversa com estas pessoas, entrevista elas durante uma carona, ou boleia, que oferece, sem que percebam, mas sua intenção é contratar alguém e descobrir se é capaz de fazer o que lhe pedirá e se cumprirá com o compromisso feito, ele é cauteloso e oferece uma boa quantia de dinheiro para que se cumpra com a tarefa de jogar a terra sobre sua cova, sepultando-o definitivamente. E todas estas pessoas são pobres, e que precisam mesmo de dinheiro. Mas daí vem as surpresas.

A primeira pessoa com que conversa é um jovem militar, que diante da cova que lhe é mostrada, nega-se a vê-la e foge, por medo, a correr insanamente pelas montanhas, com desespero.

O sentido da conversa é perceber que alguém, como o jovem militar, perfeitamente encaixado dentro da estrutura, a mostrar a disciplina militar e a adesão completa às ordens superiores, apenas, expõe que, para o ser plenamente inserido na estrutura, desumanizado, tudo aquilo que está fora da estrutura, como a proposta de Badii, não só é rejeitada, como também proporciona medo e distanciamento, em uma grande aversão que poderia ferir suas crenças no sistema.

O que contraria é como se fosse um demônio a tentar a suposta normalidade. Aposto que você conhece pessoas assim, que não conseguem olhar para além dos seus narizes, não conseguem perceber todas as possibilidades sem demonstrar um nível considerável de aversão.

Pessoas mais limitadas, dominadas, agem assim, e tendem ao fundamentalismo, às ações automatizadas, como se fossem máquinas completamente programadas para serem uma peça da estrutura, e nada mais.

Tudo bem que o “serviço” é bem estranho, mas é justamente isto que o filme propõe, uma nova abordagem de uma realidade distorcida, extremada. E funciona muito bem, para quem consegue perceber a sutileza dos factos que se desenrolam.

A conversa seguinte se dá com outro jovem, agora religioso, que estuda para ser um sacerdote em sua religião, e também rejeita a proposta, por evocar questões éticas de sua religião sobre a morte, mesmo que Badii diga que ele não matará ninguém, apenas sepultará alguém morto, como um ato de misericórdia e compaixão.

Ele se nega, fecha-se, e não fala mais no assunto, não abrindo sequer a possibilidade de discutir os motivos de cada um, e percebe-se que assume que a sua verdade é absoluta, única e igualmente fundamentalista.

Não há verdadeira compaixão pela morte a partir do jovem religioso, pelo ser que sofre, pela alma em busca de uma solução para sua dor, mas apenas a determinação de cumprir uma lei atribuída a um código que não está a funcionar para badii, naquela situação em que se encontra, pois não está mais plenamente inserido na estrutura, mas sim dividido, inconsciente.

Há outra pessoa com quem ele conversa e que também se nega, um trabalhador de serviços pesados. Mas o último que encontra, um taxidermista do museu de história natural, afinal, aceita fazer o serviço, sem julgamento ético ou moral sobre o que lhe é pedido, e acompanha Badii de forma completa, como se estivesse no mesmo tempo e espaço com ele, não conectado a estrutura, mas conectado um ao outro, em completa comunicação.

Este Sr. fornece os mais belos momentos do filme, a trazer a esperança, a empatia e as possibilidades existenciais que faltam à Badii.

Ele aceita o serviço pois precisa do dinheiro para um tratamento para o filho, e busca conversar com Baddi, como disse, sem julgar o que ele pretende, mas diz que pode ajudar-lhe se ele disser a causa que o levou a tal radical decisão, e discursa, dentro do seu universo, com a sabedoria que lhe é possível, mas sempre sem julgamentos, sem diferenças, em um grau de humanidade em que o outro é visto como livre, como senhor de suas ações, em uma verdadeira lição sobre amizade, compreensão e respeito.

O silêncio de Baddi é como um grito, seu olhar vazio e obscuro, o que podemos sentir ao ver e presenciar nestes momentos é que ele sente a dor, mas não sabe defini-la, não consegue expressar este vazio dentro de si, suas razões, seus motivos. Sabe que precisa matar algo, mas não possui a certeza de que seja mesmo isso a solução, talvez por já ter tentado de tudo, sem sucesso, e apenas isto lhe resta como opção.

O Sr. então, no trajeto de carro, depois de já ter aceitado o serviço, conta uma linda história, um momento de sua vida em que ele mesmo, quando jovem, pensou suicidar-se. 

Após badii deixar o Sr. no museu já com tudo combinado para o dia seguinte, pensa um pouco e logo volta para pedir que o Sr. tenha a certeza de que ele estará mesmo morto, antes de enterrá-lo, para que não esteja apenas inconsciente.

O problema de Badii é a dor, ele não quer mais sentir dor. Pois se deseja morrer, existem muitas formas, mas ele não quer ter mais dor. E tudo fica acertado entre eles, com um pesar não expresso no Sr., pela decisão de badii, mas apalavrado que irá cumprir com sua tarefa.

Entre estes dois momentos, entre o deixar o Sr. no museu e depois voltar para o procurar, a feição de badii muda, e quem assiste ao filme, ao menos eu senti, um frio na barriga, naqueles momentos em que temos completa conexão com o tempo, a aguardar o que está por vir, com a mesma sensação quando estamos em uma montanha russa ou prestes a algum grande acontecimento… o frio na barriga é percebido quando estamos integralmente no momento presente, em plena conexão com o devir, com todas as possibilidades do presente em que percebemos que algo impactante irá ocorrer, e nada mais.

Badii sente-se, desta forma, vivo, com possibilidades, e quem assiste o filme também percebe a vida em sua forma mais linda, a partir da própria superação das limitações que parecem uma prisão.

Badii vai para casa, retorna tarde da noite à montanha, deita-se no túmulo e apenas olha para o luar, para o céu escuro e nublado.

E o final do suicídio? Pois é, não há final… o que acontece é que, na cena seguinte, quem aparece é o ator com a equipe de filmagem, a andar pela montanha, a conversar, a interagir.

Novamente, o que representa isto? Sai de cena a personagem cujo nome é badii e entra em cena o ator, aquele que é o agente, que dá a vida, que possui a essência da personagem, mas é mais do que ela, é alguém que sabe que representa papéis, mas estes papéis não são sua essência, não é o seu ser, pois tem consciência disso.

A morte não ocorreu, então, pois é apenas simbólica, e o foco é perceber o valor precioso da vida, e quantas pessoas vivem de forma insuficiente, sem nenhuma autenticidade, sem nada que conduza à sua própria essência.

A vida plena acontece apenas para quem é o ator consciente, para quem possui conexão com o tempo e suas possibilidades infinitas, o devir, e por isso é extremamente importante o conhecimento da própria dualidade, da forma como deve haver o máximo de vida.

A tarefa é descobrir o que está oculto na sua existência, portanto.

Deixe seus comentários. Diga-nos o que pensa sobre isto!

Saiba mais sobre o filme...

Gosto de Cereja (ver IMDb)

Original title: Ta’m e guilass
1997 – 12 anos – 1h 35min

Um homem iraniano dirige seu carro a procura de alguém para enterrá-lo, silenciosamente, embaixo de uma cerejeira, depois que ele cometer o suicídio.

Diretor/Realizador: Abbas Kiarostami
Autor: Abbas Kiarostami
Elenco: Homayoun Ershadi, Abdolrahman Bagheri, Afshin Khorshid Bakhtiari

Leandro Ortolan

Leandro Ortolan

"Toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas." (Agostinho da Silva)

Seus comentários são muito importantes...

Faça seu comentário (é sempre bom interagir)

Siga-nos

Nuvem de TAGs

Últimos Artigos

20
fev
Quais são as atuais perguntas da sua existência?

E pode ser bom, o sexo casual? Sim! Pode atingir sua função objetiva? Sim! E isto não se está em causa. O que está em causa é que, ela, como ser humano, não ficava bem quando era meramente objetiva nos relacionamentos. Mas há quem consiga ser. Por isso, o tal sexo casual que ela tinha nunca adentrava ao campo subjetivo, nunca a nutria como deveria ser, tal uma completa e profunda experiência sexual. E ela se sentia incompleta, triste e frustrada consigo mesma, e com a vida. Mesmo quando ela encontrava um bom companheiro, em que a “química” acontecia, nunca prosseguia em frente, pois o “acordo” entre eles era apenas o sexo, e nada além disso.

Publicado em: Dualidade Prática,
Tags: dualidade, mapeamento, perguntas certas,
18
fev
Inadequação: “Não encontro lugar para mim”

E a vida, segue, com base nas mentiras e ilusões, nas culpas e nos medos, nas mágoas e apegos, nas vergonhas que se aprofundam a cada dia que se passa. Mas em um destes dias, como descritos, a pessoa acorda e percebe que o mundo não lhe oferece mesmo um lugar verdadeiro, mas apenas sedução para continuar a acreditar que algo virá, em algum dia, a solucionar a inadequação.

Publicado em: Dualidade Prática,
Tags: inadequação, mapeamento, realidade,
meu aniversário
18
out
Hoje, meu último e primeiro aniversário

Aqueles que transam com meias nunca se entregam por inteiro, perceba. Há sempre uma parte de si que estão a proteger, a guardar. Se há uma peça de roupa vestida na hora da transa, ou é por vergonha ou por autopreservação, ou ambas. Um ou outro é estar ausente, não estar integralmente no presente. Estar desnudo é requisito para a vida plena, seja metaforicamente ou literalmente, conforme a situação. Eis o motivo de que a ilusão do autoconhecimento ocorre. Enfim.

Publicado em: Confissões,
Tags: confissões, realidade,
15
out
Cinema Dual: Fausto e a Realidade

Fausto foi retratado por diversos escritores como o ser dual, entre duas instâncias distintas, como a religiosidade medieval, em que Deus ocupa o papel central, e o humanismo renascentista, em que o homem assume o papel central da existência.
Mas Goethe captou perfeitamente a estrutura do arquétipo da alma humana, da estrutura íntima da dualidade do ser, e foi muito mais além do que todos os que escreveram sobre Fausto, o que ocorre até os dias atuais, em um tema que tanto intriga quanto desafia a intelectualidade dos possíveis.

Publicado em: Cinema Dual,
Tags: cinema, devir, estrutura, literatura, realidade,
Cerejas e o suicídio - uma análise do filme "O sabor da cereja"
11
out
Cinema Dual: O Sabor da Cereja

Há um filme bastante ilustrativo desta situação. Trata-se de um filme que exige grande sensibilidade e discernimento para se perceber realmente o que se está em causa. Badii é um homem, do oriente médio, com boa situação financeira, uma vida aparentemente bem estabelecida e que decide, por ter um vazio interior profundo dentro de si, dar fim à própria vida.

Publicado em: Cinema Dual,
Tags: cinema, estrutura, suicídio,

Últimos Comentários

Receba nossas notificações

Não praticamos SPAM! Enviaremos exclusivamente informações sobre nosssas atividades. Você poderá optar por cancelar quando desejar, com apenas um click.

Layer 1