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Hoje, meu último e primeiro aniversário

Estou em Vila Nova de Gaia, Portugal, às 07:52h da manhã, em frente ao computador, com a tela branca que tenta imitar uma folha de papel, com uma vontade de escrever algo, de dizer coisas que não imagino o que seja, mas que precisa ser um testemunho, uma prova de que estive sempre certo. Afinal, hoje, meu último e primeiro aniversário acontece.

Mas, o que é real para mim, neste momento, é a gata que mora connosco (sim, o termo “meu” pet não é agradável), estar aqui à frente, agora, a pedir carícias, entre mim e a folha digital em branco. Satisfaço-a com algumas breves carícias e me volto a este testemunho, sem ainda saber o que sairá daqui. Afinal, hoje eu completo 49 anos, ou sete ciclos de sete anos, e que já deveria ser um dia diferente, em que deverei morrer e renascer, mas, ao menos até agora, 07:59h, nada mudou.

O dia iniciou estranho. Acordei cedo, por volta das 06:45h levantei-me da cama, fui ao banheiro, fiz minhas necessidades, escovei os dentes, lavei o rosto e tudo parecia confuso, impreciso, embaçado, e ainda não tinha lembrado que hoje era o meu aniversário, nem fui dormir pensando nisso, apenas presenciei o hoje, um mundo embaçado, desfocado. Muito estranho mesmo.

Afinal, deveria ser isso o término dos sete ciclos? O fim da clareza e o início da confusão? Não era, ou ao menos ainda não é. Eu apenas havia esquecido de colocar meus óculos, e apenas isso. Ao buscá-lo, na cabeceira da cama, e recolocá-lo, tudo voltou ao suposto normal. O mundo voltou a ser como antes.

Saí do quarto pronto para o mundo, seguro de tudo o que encontraria pela frente. E isso significa que estava vestido, e nada mais do que isso. Não podemos estar prontos, em nossas mentes, quando estamos despidos. Que imensa ilusão. Deveria ser ao contrário, pois estamos prontos para o desafio apenas quando desnudos, sem nada que nos proteja e isole do mundo exterior. Só assim vivemos as mais intensas experiências.

Aqueles que transam com meias nunca se entregam por inteiro, perceba. Há sempre uma parte de si que estão a proteger, a guardar. Se há uma peça de roupa vestida na hora da transa, ou é por vergonha ou por autopreservação, ou ambas. Um ou outro é estar ausente, não estar integralmente no presente. Estar desnudo é requisito para a vida plena, seja metaforicamente ou literalmente, conforme a situação. Eis o motivo de que a ilusão do autoconhecimento ocorre. Enfim.

Estavam à espera minha esposa e filha, pois as levaria para suas aulas. Em tempos de pandemia, ainda que quase superada por aqui, nestas terras, ainda evitamos os transportes públicos. Cuidar é amar, também. Me receberam com presentes, o que me fez lembrar de que era o meu aniversário, e da necessidade de perceber o que mudaria nestes setes ciclos finalmente completados.

Presentes simples, singelos, mas profundamente correlacionados com o essencial, com aquilo que devemos nos preocupar, com a saciedade do outro. Nosso estilo de vida, depois de sair do Brasil, é este: simples, minimalista, intenso. Vivemos, nós os três, nestes últimos anos uma intensa descoberta e introspeção. E isto simultaneamente. Não foi fácil, e ainda não é. E, sinceramente, nunca será. Vida fácil e feliz é só para os gurus, influencers e coaches quânticos.

Sair do Brasil e ir para a Tailândia, sem mais nada material que nos prendesse à nossa terra, em termos de posses, com apenas toda uma vida em duas malas, foi algo libertador e aterrorizante, também simultaneamente. Lembro dos dois ou três meses que antecederam minha partida, das emoções opostas que ocorriam ao longo do dia. Lembro das despedidas, dos momentos em que pude olhar nos olhos das pessoas que tanto amava, ainda que com as diferenças que a vida havia trazido.

Lembro de tudo, como se fosse hoje, pois mesmo ao deixar tudo para trás, trago comigo todas estas lembranças, todas as memórias que me fazem ser o que sou, mesmo sem nada ter de material, ainda sou minhas histórias, minhas experiências e minhas aspirações. Precisei de um estômago forte para digerir todas estas emoções, ao me desconstruir.

Quem desembarcou em Bangkok não foi o mesmo Leandro que embarcou em Guarulhos, horas antes. Quem chegou à Roma em busca de sua nova cidadania foi um, quem saiu de lá rumo à Amã, na Jordânia foi outro. Quem chegou ao Porto não foi o mesmo que chegou a Madrid, antes de passar pelo Cairo. Mas, ironicamente, quem acordou hoje foi exatamente o mesmo que foi dormir ontem.

E por que isto ocorreu? O que está a se passar com esta inusitada permanência do tempo em mim, nestas últimas horas? Como posso sentir que os ciclos existem, que a mudança chegou, que minha vez está a ocorrer? Pois é, não sabemos, não podemos e, talvez, não queiramos.

Vejo e sinto o peso das pessoas que chegam até mim, por algum motivo, a considerarem que suas vidas podem mudar, da noite para o dia. Assim como muitas vezes ocorreu comigo, supostamente, elas desejam o mesmo. Mas isto não ocorreu assim, facilmente, como contei. Foi uma ilusão quase delirante que tive. E posso explicar.

O Leandro que desembarcou em Bangkok começou a ser construído meses antes. O Leandro que embarcou, em Guarulhos, desintegrou-se ao pisar no avião, mas foi um projeto para que fosse mesmo assim, iniciado também meses antes. Nada é contínuo, nada é linear. Apenas a ilusão permite que assim se percebam as coisas, o mundo. A desintegração surgiu primeiro. Tinha uma vida que não queria mais. Apenas não sabia qual era a que eu desejava. Não descobri, apenas fui formando, juntando os fragmentos que interessava.

O Leandro de ontem a noite não tem nenhum projeto novo. O de hoje de manhã, também não. São Leandros que habitam o caos, que são aceitos como são, que resultam de viver o presente, de estar conectado com as latinhas de Malzebier que ganhou hoje, vindas diretamente do Brasil. Malzebier? Sim, e da Brahma! Não é qualquer uma. Já estão todas na geladeira, a se exibirem, ao lado das Superbocks portuguesas. Mas não por muito tempo, visto que provavelmente serão as primeiras a serem consumidas.

Este Leandro que vos escreve está ajustado com o tempo, não possui grandes expectativas, nem aspira mais do que precisa ter ou ser. Concorda plenamente com o meme de que todos os corpos mortos de alpinistas que estão no topo do Everest, soterrados no gelo, e já são mais de duzentos, eram pessoas altamente motivadas, obstinadas e convencidas de que iriam vencer. Sim, muitos ou eram gurus, influencers ou coaches quânticos ou, ainda pior, acreditavam nestes. Não venceram, ninguém vence. A morte nos espera a todos, logo ali. Estavam no futuro, quando a morte veio. Estavam a imaginar o topo, que nunca chegaram a ver.

A vitória acontece quando não desejamos mais vencer. Mas isto é muito vazio, Leandro! Sim, é um abismo que eu optei por pular. Um niilismo reflexivo, em que estou a dialogar com o nada. Por o nada ser nada, fico a dialogar comigo mesmo, um nada, e por vezes acredito que o nada é que responde. E tem funcionado.

Creio que é exatamente isto que Nietzsche quis dizer que, ao olharmos para o abismo, este olhará para você. O abismo é o nada. E o nada somos nós mesmos. O abismo é aquilo que nos habita, que construímos e nutrimos com as esperanças de vitória que nunca ocorrerão, pois, a vida leva a morte, um facto que é preciso perceber. Quando se percebe isso, percebe-se a finitude, a raridade do momento. O que sobra, então, é o instante. Que por ser raro, é precioso e que precisa ser vivido.

E, não, não consumo drogas alucinógenas nem psicodélicas. Exceto, obviamente, a Filosofia.

Os tolos gostam do futuro, acreditam que lá está a felicidade, pensam que a vida se resume ao plantio e à colheita. Verdades parciais, se isto fosse possível de existir. Tudo o que aprendi, de mais valioso, foi sobre o tempo, afinal.

Ontem e hoje, sou o mesmo. O mesmo não é forma, aparência. O mesmo é essência, modo de ser, modo de existir. O mesmo é ter consciência, ter completude, ter seu abismo por perto, visitá-lo, por vezes. O mesmo é ser livre, embora nunca sejamos, de facto. O mesmo é aceitar a realidade, e insistir para ficar conectada a ela, não a deixar mais escapar. Quantas definições, quantas complexidades para a simplicidade.

O Leandro de antes olharia este Leandro com perplexidade! “Como pude me transformar nisso?”

O Leandro de hoje olha o Leandro de antes com perplexidade! “Como pude ser assim? Como desperdicei tanto tempo sem viver plenamente?”

O Leandro de antes pensava ser imortal. O Leandro de hoje sabe que a morte é o seu destino. Aceita-a. Esta não mais o assusta, não o incomoda. Sofre com a morte daqueles que nunca viveram, dos desperdícios dos que são jovens, que não tiveram a oportunidade de sentir a vida plenamente e a deixam sem nunca terem tido vida. Ou dos adultos, ou idosos, igualmente tolhidos de viverem plenamente, pois nunca estiveram no presente, despertos e lúcidos. São muitos assim, a maioria, que resistem às mudanças.

O Leandro de hoje está aqui, a escrever despretensiosamente, a se abrir, a dizer para todos que, às vezes, mente um pouco. E diz isto para que não tomem suas palavras como “verdades verdadeiras”, mesmo que, às vezes, possam vir a ser. Diz isto para que duvidem proativamente, sempre, de tudo, até dele. Diz isso para que seja feito o esforço de discernir o que é realmente conhecimento do que seja mera opinião, neste atual mundo “terraplanista” de verdades absolutas que originam do Whatsapp.

O Leandro de hoje quer educar, ensinar, dar exemplo, criar polêmica, destruir crenças tolas, colocar em questão suas próprias convicções, usar da irreverência para atingir a verdade. O Leandro de hoje ama o surrealismo, viaja e gargalha com os filmes franceses de Buñuel, observa a distorção da realidade que o sistema nos faz engolir, sistematicamente, como se fossem verdades inquestionáveis. O Leandro de hoje pede desculpas, quando percebe errar!

O Leandro de hoje tem um alarme sempre ativo e constante com a ideologia do capitalismo, do comunismo, dos “ismos” todos, das religiões, das políticas, de tudo mais. O Leandro de hoje vê, enxerga o que verdadeiramente lhe interessa. Para o que não interessa, um par de óculos lhe é suficiente para voltar a enxergar claramente. E isto é evolução.

O projeto, afinal, do Leandro de hoje, talvez exista. Talvez não seja dele, talvez seja determinado por algum tipo de evolução espiritual preexistente, seja lá o que for. Talvez estejam mesmo certos os gurus, influencers ou coaches quânticos! Sério? Não, não estão… e se gostou desta possibilidade, é sinal de que você precisa de mesmo ajuda terapêutica, urgentemente. A ironia é algo sensacional que descobri nestes últimos anos.

E o que quero dizer com este meu relato, com este texto? Nada! Mas, ao reler o que escrevi, para dar uma conclusão, percebi que já escrevi mais do que deveria. A conclusão, não existe. Aliás, existe sim, mas ainda não ocorreu. O destino é a morte, como disse. A conclusão é esta, e também que nunca estive certo, e talvez não esteja agora. Todos querem certezas, mas não as tenho. Tenho alguma alegria, alguma força, mas não a felicidade. Vivo feliz, por momentos, que aprecio intensamente. Raros momentos, preciosos. Estes, levo-os sempre comigo.

O momento é o precioso bem que temos. Portanto, aprenda a viver o seu momento, o seu presente. Nunca saberemos quanto tempo ainda teremos. A conclusão, portanto, não há, felizmente. Ou, infelizmente. Você é quem deve decidir o que deseja para si, pois, como disse, algumas vezes eu minto um pouco.

Feliz aniversário para mim!

Leandro Ortolan

Leandro Ortolan

"Toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas." (Agostinho da Silva)

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