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Inadequação: “Não encontro lugar para mim”

A inadequação não acontece de um dia para outro. Não se vai dormir bem, à noite, e se acorda com a sensação de que tiraram seu lugar, ao acordar, pela manhã. É um processo que pouco a pouco progride até que se perceba a gravidade da situação e os estragos feitos. Mas não é algo que simplesmente acontece, pelo contrário. É justamente algo em que as coisas não acontecem. E, um certo dia, você percebe que está fora do “jogo” da vida, apenas a assistir, no máximo, mas sem jogar mais. E você se percebe invisível, sem lugar, por mais que tente: isso é a inadequação.

A inadequação é uma das muitas razões pelas quais várias pessoas chegam ao mapeamento: saber o que está “errado” com elas, pois acreditam que tudo o que ocorreu é apenas por responsabilidade delas mesmas: querem se “corrigir”. Nunca desconfiam as verdadeiras causas de estarem como estão, pois, fizeram “tudo” o que lhe disseram pra fazer, mas nada resultou como deveria.

E a verdade que descobrirão – e não será nem tão evidente como parece ser – é que não é apenas delas a responsabilidade pelos acontecimentos em que estão a viver. Nunca foi e não será assim, jamais. Há sempre dois lados: o lado do indivíduo, enquanto agente livre no mundo, e o lado da estrutura, enquanto oferece posições determinadas para pessoas determinadas, que irão cumprirem tarefas determinadas – “existir” para o mundo é como se fosse uma vaga de “emprego”, meramente funcional. Tudo funciona, na estrutura, em semelhança, como se o mundo fosse como diversas grandes corporações ou conglomerados (e é!).

Não se pode simplesmente acreditar que o mundo tenha lugar para todos, assim como uma grande corporação, por mais que empregue multidões, possui ela mesma um teto para suas vagas – há limites, sempre, mesmo que sejam muito grandes, mas lá estão. Não há, no mundo, lugar para todos – e esta é a verdade. O mundo está “saturado”, pois todas as suas “corporações” estão saturadas, ou a se saturarem – e todas as dinâmicas sociais são afetadas, nada é como antes, já algum tempo, e o amanhã não será como hoje. E isto não é nem bom, nem mau, é apenas o que é: a realidade. A inadequação é um dos sintomas.

Seja no campo econômico e financeiros, já existem recordes de excluídos, dos que não conseguem empregos nem trabalhos, mesmo mal remunerados. E isto mesmo nos países e regiões mais capitalizados, como na Europa, onde vivo há cerca de cinco anos e recebo pessoas com as mesmas queixas que as que vivem no Brasil.

Mas daí têm os que digam que é preguiça, carência de força de vontade, vitimismo ou falta de vergonha na cara. É justamente por terem vergonha na cara que sabem seu valor e que querem fazer o seu melhor – e querem mais! Querem receber muito mais pelo que estão a fazer! Querem fugir da inadequação e terem seus lugares. Querem manter a “vergonha” na cara e também um grau considerável de dignidade. Estão a procurar ago para que possam se sentirem úteis e produtivas. Mas, coisas como a tecnologia, que está a tirar empregos em muitas áreas, não estão a permitir ou a mostrar um otimismo possível. E as novas áreas criadas exigem novas e especializadas qualificações, novos profissionais que estão em falta no mercado profissional, mas que devem ser em números menores, a deixar um saldo de trabalhadores sem boa posição no mercado.

Daí, muitas destas pessoas aceitam posições abaixo do que poderiam ocupar, por necessidades, por ter que ganhar dinheiro ao nível da continuidade, para cumprirem seus compromissos financeiros e também para continuar no “jogo”, até que novas oportunidades apareçam. E, assim, com frustração e medo, ficam a lidar com esta angústia, e tudo se reflete no desempenho, no processo que pouco a pouco se tornará invisível para todos os que ainda acreditam nas possibilidades infinitas do mundo dos gurus e influenciadores, sempre com soluções “perfeitas” que prometem acabar com a inadequação e resolver todos os males da vida. O que resta?

Empreender! É o que virou a nova seita do milênio, em que gurus e mais gurus, que em sua maioria raramente trabalharam ou tiveram sucesso a sério, anunciam todos os benefícios do empreendedorismo, das possibilidades de liberdade, sucesso, reconhecimento e um padrão de vida superior. Só para quem não conhece a complexidade do que é gerir uma empresa, os riscos envolvidos, as incertezas inerentes de um negócio de verdade, acredita e vai na onda, e muitos se frustram, quebram e ainda pioram suas vidas.

Não é fácil empreender, mas nada é fácil: é preciso sair da positividade forçada, tóxica e radioativa que está abundante nas redes sociais e perceber o verdadeiro problema que se está a enfrentar na contemporaneidade do terceiro milênio. Antes de tomar qualquer decisão precipitada ou assumir uma culpa absoluta sobre o estado deplorável do próprio ânimo de continuar, há que se conhecer a verdade sobre as coisas. E, neste caso, a verdade também libertará! O que é preciso descobrir, primeiro, é se deseja mesmo a liberdade. Pois bem.

O que descrevi, até agora, é apenas uma síntese de uma das inúmeras facetas do que percebo como crise dos que chegam ao mapeamento, a partir de um sentimento de inadequação. As histórias nem sempre são muito parecidas, mas apresentam alguns pontos em comum, e estes são apenas alguns poucos, pois há muito mais. E os aspetos que descrevi aqui são apenas os que fazem referência ao dinheiro, à sobrevivência pelo trabalho: e estas pessoas já não conseguem se encaixar produtivamente no mundo. Mas, para além do dinheiro, há outras dimensões, como os relacionamentos e as influências, por exemplo. E nenhuma delas estão separadas, pois tudo se interrelaciona.

As pessoas que chegam por problemas nos relacionamentos sofrem porque se sentem invisíveis para as outras. Se sentem emudecidas, pois por mais que falem, gritem, esperneiem, não lhes escutam. Não conseguem dizer o que sentem e, quando conseguem, não há quem as consiga escutar. Ou ainda, se há quem as consiga escutar, não há a compreensão do que estão a dizer. Sentem-se solitárias, incompreendidas e sem razão de existir, pois se percebem como invisíveis e deslocadas do convívio que desejam para si. Há também aquelas que não conseguem se relacionar, por mais que queiram se enquadrar em determinado modelo de estar numa relação de “sucesso”. Tudo, afinal, e o tão fadado “sucesso”.

Não se sentem apenas estranhas a si mesmas, mas também a todas as outras pessoas. Parecem que não pertencem ao mesmo planeta, que pertencem a uma espécie alienígena a tentarem exaustivamente se comunicarem e estabelecerem uma comunicação mínima de cumplicidade, verdade e afetos.

O que resta, muitas das vezes, é pedir para um robô, conhecido por “algoritmo”, de procurar em uma base de dados alguém que este julgue ser capaz de saciar os afetos mais íntimos da alma humana. O robô não consegue perceber nada da intimidade de cada um, nem de seus sonhos, desejos e necessidade, nunca perceberia sobre o vazio que todos carregam consigo, uns mais, outros menos, mas consegue comparar questões objetivas e chega a uma conclusão de possibilidade nos relacionamentos, pois o robô observa os seres apenas pelo que fazem na internet. O robô materializa um desejo de sair da inadequação ao supor que pode haver, em algum lugar, mesmo distante, um lugar ou pessoa em que a vida, ali, fará sentido.

Mas o que as pessoas fazem, não é o que querem fazer, de verdade, pois fazem apenas o que lhes são possível fazerem, o que é suposto fazerem, e não fariam muitas destas coisas, se fossem mesmo livres e tivessem opções a mais. Daí os robôs trabalham apenas com uma parte ínfima destas pessoas e deliberam o que pode ser sugerido a elas, inclusive os relacionamentos.

Há o encontro que emerge da compatibilidade de alguns aplicativos de relacionamentos, graças ao robô, e há o sexo que cumpre sua função objetiva, prevista pelo algoritmo, por momentos em que dura a relação, tão rápida quanto a velocidade de conexão à internet permitir, mas depois o vazio se amplifica, pois, o humano não é apenas objetivo, mas é essencialmente subjetivo. E a pessoa passa a mentir para si mesma a dizer que o que importa é mesmo o sexo, o gozo, a tal “liberdade” objetiva e o que há para se curtir no mundo. Esquece de si, e começa a morrer por dentro. Sim, há o sexo objetivo, que pode ser bom e eficiente, mas há também o sexo subjetivo, que é sempre excelente, profundo, sublime e inesquecível. Pois são coisas completamente distintas.

E a vida, segue, com base nas mentiras e ilusões, nas culpas e nos medos, nas mágoas e apegos, nas vergonhas que se aprofundam a cada dia que se passa. Mas em um destes dias, como descritos, a pessoa acorda e percebe que o mundo não lhe oferece mesmo um lugar verdadeiro, mas apenas sedução para continuar a acreditar que algo virá, em algum dia, a solucionar a inadequação. Deixou de jogar e passou apenas a assistir aos outros jogarem. Virou um objeto, no seu próprio jogo, em que os outros se aproveitam, se beneficiam, enquanto os dias passam e nada do que foi prometido veio como recompensa por tanto esforço e dedicação.

Algumas destas pessoas optam por não acordar, pois formam mentiras e ilusões mesmo poderosas e eficientes, e se acovardam nelas enquanto ainda for possível. E vivem a vida, como podem, até que a velhice, a iminência da morte ou a realidade destrua tudo o que há.

Esse é um retrato de uma pequena parcela das pessoas que tenho atendido nos processos de mapeamento, que estão a tentar solucionar a inadequação em que estão a viver. E há questões objetivas e subjetivas em cada caso, que nunca são iguais, ainda que possuam, por vezes, certas similaridades que poderiam dar a impressão de que são a mesma coisa e que exista uma solução única para tudo, o que é mais uma ilusão.

Mas o maior dos problemas é atribuírem a si, exclusivamente, a culpa pela situação que estão a viver. Não percebem que esta força que leva todos a serem a mesma coisa objetiva que os robôs identificam é justamente a raiz de todos os problemas, que afasta a pessoa dela mesma, que a faz ser o que não é e que, por isso, surge um abismo entre o que o seu modo de ser e o seu modo de existir.

Depois, procura soluções objetivas ilusórias: acredita que é vítima de mau-olhado, macumba, que sofre de alguma neurose, que possui uma doença mental ou ainda algum desvio social e nada resolverá o que está a sentir e a sofrer. Busca pelo transcendental, por deus, por Deus, por isso, por aquilo, pelos santos, pelo capeta, bruxas, anjos e tudo o que encontrar pela frente. Anestesias, afinal, que não resolvem, mas tornam a vida menos insuportável. Adiam o encontro com a libertação, também. Será preciso fazer uma escolha entre a verdade e a mentira.

Por isso que o papel do mapeamento não é dar respostas, mas sim dar as perguntas certas, provocar o questionamento do que é real e do que não é. Não há cura, pois não se está doente. Não há certo, não há errado. Não há bom, não há mau. Nem bem, nem mal. Não há padrões, apenas o essencial de cada um, que não consegue emergir. As perguntas certas levam à verdade e, depois, à realidade. A liberdade acontece na consciência, na mente que consegue perceber que é e o que é, nem sempre a mesma coisa.
Eis a feliz decisão dos que optam pelo mapeamento: tentam chegar à libertação, a identificar onde estão, atualmente, a existir e como podem atingir a trilha que leva à realidade. Nesta trilha, nos caminhos que cada um possui para trilhar, é que a inadequação deixa de existir. Pois os caminhos são os propósitos evolutivos e as razões para tudo o que há que justifique a existência.

Sem promessas mirabolantes, sem valores predefinidos ou prêmios materiais estabelecidos – tudo se dá na dimensão do espírito, da mente para além da própria existência mundana. Só saberá o que lhe está a aguardar quem lá chegar. Só se sabe, por exclusão, que lá está o sentido da vida, da existência, da plenitude. Enquanto não se chegar lá, restará a angústia e a dor: a inadequação. A libertação é a tal plenitude, a saciedade espiritual e as respostas todas. Mas o que é, em si, cabe apenas a cada um, a cada indivíduo. E tudo começa com um primeiro passo: o conhecimento. Esta é a missão dos mapeamentos existenciais, o conhecimento.

Leandro Ortolan

Leandro Ortolan

"Toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas." (Agostinho da Silva)

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