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Antropologia Ética Filosóficos

A heurística do medo: o anticlímax do jogo da vida

Introdução

Este artigo tem por objetivo central[1] analisar a incoerência conceitual da Heurística do Medo, de Hans Jonas.

Portanto, primeiro, há aqui uma busca da conceituação do que seja um jogo e um possível paralelo para analisar a vida tal qual fosse um, com objetivos, regras e um espírito lúdico na qual os componentes podem ser analisados sob nova abordagem, mais funcional e pragmática.


Parte 1 | A vida como jogo

O resultado final da vida é, talvez, a única[2] certeza que consensualmente existe: a morte.

Os mais ricos e privilegiados podem até terem expectativas de uma vida mais longeva, mas o final será sempre o mesmo, pois a morte sempre acabará por vir, cedo ou tarde. Assumir a vida como um jogo seria, necessariamente, assumir ser indesejável e desagradável chegar ao fim do jogo. E é assim que diversas culturas, a quase totalidade, se comporta: a ignorar a morte, como um ponto bloqueado de não-referência cotidiana. E a vida seria uma espécie de jogo em que todos apenas desejam se manter nele, embora alguns desistam e optem por sair, por vontade própria, e ainda outros que não consigam jogar, excluídos por razões próprias ou alheias a si, e que estejam apenas a verem os outros jogarem, distantes. Jogadores existem em todos os jogos, obrigatoriamente, bem como existem os expectadores em alguns dos jogos. Mas ser jogador ou expectador nem sempre se dá de forma voluntariosa. No jogo da vida não estão todos a jogarem o mesmo jogo, portanto, e apenas participar é o fim último para a maioria. Um meio como fim.

Mas, mesmo sem existirem vencedores que superem o fatídico final da morte, ainda existem rankings neste estranho jogo que, no final, ninguém sobrevive. Pois o valor já não está no final, pelo contrário, foi transferido para processo de se jogar, pelas possibilidades que existem, enquanto seja possível jogar. O jogo da vida tem como foco[3], portanto, um meio, e não um fim.

Jogos fazem isto, exatamente: a subversão dos fins pelos meios. O jogo de futebol, por exemplo, não é meramente fazer golos[4]. Portanto, a partir das teorias filosóficas de Bernard Suits, e também do que é atualmente considerada como Filosofia dos Jogos, a progredir consistentemente em um mundo cada vez mais “gamificado”, é necessário perceber sobre o que consiste ser jogos e as diversas formas que nos envolvemos neles, por vezes mesmo sem se ter a perceção de que se está a jogar algo, consciente ou inconsciente[5], de alcançar possibilidades prometidas ou imaginadas no jogar. Nunca há uma vitória definitiva nestes jogos, pois nunca se atinge a saciedade humana, de todo. E esta observação antecipa a conclusão deste trabalho, em que será abordado o capitalismo[6], enquanto um dos jogos principais, e suas derivações ou reproduções. Mas, antes, é preciso perceber o que é mesmo um jogo, conceitualmente.


Parte 2 | Os Jogos, em conceito

Para Suits, um jogo é composto, suficientemente e necessariamente, por três partes. A primeira parte é um objetivo trivial, pré-lúdico, sempre alcançável, independente do jogo. Fazer um golo ao chutar uma bola para dentro das traves é algo trivial, que pode ser feito sempre que se tenha uma bola e uma trave. É um golo, mas ainda não é um jogo, pois não há o espírito lúdico do jogar e do competir dentro de determinadas condições estabelecidas. É preciso atingir este objetivo trivial dentro de determinadas regras, pois se não fosse assim, alguém poderia estar a fazer golos com as mãos. As regras são, portanto, a segunda parte que compõe os jogos.

Mas, com as regras, alguém pode sempre optar por fazer batotas para atingir o objetivo através de um jeito mais direto, ou ainda para impedir que o oponente exerça suas opções de jogo. As brechas sempre existem nas regras, como no caso das leis dos impostos, e podem levar ao uso de meios mais ou menos eficientes, em prol ou prejuízo da igualdade que todos os jogadores deveriam possuir, ao jogar. Por isso vem a terceira parte, que é a atitude lúdica, ou o espírito esportivo de um jogo, em que consiste na aceitação total e voluntária às regras constitutivas e se estabeleça a condição de aceitação do jogador no jogo, como um ritual de que este percebe e aceita tudo o que é preciso para ser um jogador. Não basta aceitar as regras, é preciso estar aderente a elas, ficar dentro dos limites estabelecidos a defender e a eliminar as vulnerabilidades, com um guardião do jogo, das regras e das possibilidades, ativamente.

Isto é o jogo, no aspeto lúdico de ser e de existir, com um ethos e um telos. O final da vida, literalmente, é a morte, que será sempre alcançada, por quem está a jogar ou não. Todavia, a vida como jogo, com posições de jogador e expectador, pode ser negada por alguns que desejam não subverter os fins pelos meios, ao se negarem a participar em quaisquer das formas possíveis, por exemplo, pelo suicídio ou pela exclusão social voluntária. Isto, portanto, não tem valor para o resto das pessoas que desejam estar a jogar, e estabelece-se uma espécie de tabu sobre o tema.

As regras do jogo da vida são o que chamamos de leis e códigos formais de condutas ou procedimentos. Tais normativas sempre possuem brechas, que são utilizadas por aqueles que querem atingir os objetivos do jogo, com menos esforços, sem trilharem os caminhos da técnica e do convencional. Mas, estes, não estão a jogar o mesmo jogo que a maioria, pois ainda que consigam o que consideram como vitória, não terá o mesmo valor daqueles que os fazem pelos modos convencionados. Os processos são importantes nos jogos, e valorizados socialmente. Quem constrói um império tem muito mais valor do que aquele que simplesmente o herda[7], sem o ter “merecido” (pela prova dos processos) tal como quem deixou a herança.

O espírito esportivo do jogo da vida, na Filosofia, é composto pelo que alguns chamam de Ética, mais na sua superfície e, mais profundamente, com a ideologia, que consiste em crenças, desejos e vontades compartilhadas e em função de um meio, em si, e não de um fim, especificamente. A ideologia[8] é o verdadeiro espírito esportivo, no sentido lato, do jogo da vida, portanto, em sua máxima expressão, na qual todas as pessoas não estão apenas sujeitas e são afetadas por ela, mas também são as responsáveis pelas formas de manutenção e reprodução, com um ente externo que emerge de dentro para fora, de baixo para cima, a ultrapassar o sujeito enquanto o domina, inconscientemente, tal qual um poderoso algoritmo que provoca e leva a ações necessárias. A ideologia funciona como um ímã, a atrair quem lhe for interessante e a repelir quem não for, tal qual polaridades que, por vezes, podem variar de intensidade.

É preciso entender que esta ideologia leva à formação de regras informais e profundamente obedecidas que são compartilhadas por todos aqueles que estão no jogo e que defendem[9] o sistema estabelecido contra os outros que querem, por exemplo, as mesmas possibilidades sem se comprometerem com esta ideologia. Ela está sempre direcionada para os meios, para que estes sejam mesmo os fins. Nega, essencialmente a realidade do único final possível: a morte. “Nega a negação” da continuidade, e se direciona para os processos, sempre, inexoravelmente.

Há, contudo, nesta contraditória natureza ou condição humana, algo que pode ser percebido como um objetivo externo ao jogo da vida, que busca transcender ao tempo em que se existe, e isto pode ser percebido como a já citada herança, aqui no sentido mais lato, que é o legado que se deixa para além de si. Legados são as descendências, empreendimentos, ideias, causas, títulos, fama e tudo o que pode transcender à própria existência e que possui um valor superior na escala das conquistas humanas. O legado é o resultante da acumulação, do excedente, do ter mais do que se pode consumir no tempo que se possui. É mesmo algo que excede não só ao tempo, mas a si, ao sujeito, enquanto mortal, e que adquire uma possibilidade de eternidade[10] pelo legado, tal qual o humano passasse, na teoria criacionista-teísta, de criatura a criador. Há aí alguma fumaça filosófica (ôntica), e pode haver algum fogo (o ontológico, a busca de Jonas).


Parte 3 | A falha no crivo da Escala Aristotélica de Valor

Eis que quase sempre se pode recorrer à Filosofia Clássica, como recurso quase infinito de possibilidades, e assim faremos, aqui no que tange à escala aristotélica de valor, que contrapõe dois conceitos bem distintos, a energeia e a kinesis. Urge procurar este fogo, se possível for.

Por energeia, conceitualmente atinge-se o telos, como o fez Aristóteles, pois pressupõe sempre atingir um objetivo último e interno a si mesmo, como no caso da contemplação[11], no aspeto teleológico da felicidade, alcançável através da virtude aristotélica, enquanto exercida, como fim em si mesma. Este objetivo interno é reproduzível, e torna-se um estado que, sempre que se deseja atingi-lo, pode-se fazê-lo, enquanto as condições necessárias e suficientes forem válidas e satisfeitas, recorrentemente.

Mas, contrariamente, onde existirem fins mais desejáveis para além das ações empreendidas, já não está mais nos atributos conceituais da energeia, mas sim do simples movimento do agir, do produzir, que leva a um produto, um resultado, e que consiste na kinesis, que contempla uma atividade para algum atributo para além das ações empreendidas, por exemplo, com dito, na produção de algum bem, produto ou resultado esperado ao se extinguir a ação, em si. Há a finitude do agir ao se obter o resultado, pois as acções levadas a cabo para ter produzido algo significa que não mais se está a produzir o que se produziu. Ato finito, limitado. Apenas houve o movimento, o mero trabalho, e que é muito inferior conceitualmente, em valor, à energeia.

Todo jogo, portanto, extrapola (e contraria) os conceitos[12] aristotélicos de valor, e seria algo que emerge de um cruzamento entre o que é energeia e kinesis. Pois, existe no jogo[13] a forma lógica da kinesis, em que o valor do jogo passa para além de si, do mero jogar, e pode expressar a busca por se atingir alguma das possibilidades disponíveis, para além do simples jogar: conquistas diversas, cargos e titulações, acumulações de capital ou produção de legados, dentre tantas possibilidades que se direcionam para além do jogo, em si.

E também existe, nos jogos em geral, a energeia, em que o ato de jogar tem apenas valor em si mesmo, enquanto se está a jogar, e não só como mera diversão, mas também como uma fuga da dor[14], a produzir um estado contemplativo e também uma transcendência enquanto o jogo permite aceder às possibilidades não existentes fora deste, mas apenas no momento.

O jogar, então, para Suits, é um fim último que chega mesmo a ser o propósito da vida, a partir de uma consideração em que ele estabelece uma utopia que, se dispensasse o trabalho e todos os esforços obrigatórios, todas as ações humanas seriam destinadas apenas ao jogo, pois o jogo não busca eliminar a si mesmo, como faz o trabalho, e nem busca eliminar a vida, pelo contrário, busca se perpetuar como ente, a transcender da finitude certeira à uma dimensão ontológica.

Suits, também, considera que há um erro na escala de valor aristotélica, ao considerar que o jogo foge à condição de exclusividade estabelecida para a energeia e a kinesis, pela impossibilidade considerada de estarem a ocorrer conjuntamente. No jogo, lá estão as duas, a ocorrerem simultaneamente. Mas, afinal, o que é este jogo?


Parte 4 | O Jogo da Vida

Se a vida pode ser analisada tal como um jogo, a partir dos conceitos expostos, então é preciso identificar os componentes conceituais com o que encontramos na vida, em especial ao que se refere aos objetivos, às regras e às ideologias, em todas as suas dimensões, e ao que se refere às questões morais e éticas, o foco desta jornada filosófica. É preciso perceber também sobre jogadores, candidatos a jogadores, expectadores e os que se negam a jogar, os excluídos.

Como em todos os jogos, não há uma obrigatoriedade para que todos[15] os joguem, mas é quase isso. O jogador, afinal, já nasce em um jogo, inserido em uma família ou outro meio de subsistência responsável por ele, seja lá o que for, e começa por ser inserido aos jogos infantis, para se aprender a jogar, ou sociabilizar, e nos demais jogos que lhe são apresentados, com uma linguagem, regras de comportamento, programas educacionais, culturais, sociais, políticos, cívicos, econômicos, financeiros, etc. Até ser supostamente autônomo, sempre estará em algum jogo, e mesmo depois. Em algum momento da vida, poderá optar, dentro do que lhe for possível, por um ou outro jogo, mas sempre estará dentro de pelo menos um jogo, o da sobrevivência, o último que se pode desistir se desejar continuar a viver, ou melhor, a sobreviver com o mínimo.

Todo jogo sempre é sustentado pela ideologia que rege sobre este, como visto, a partir das regras e dos jogadores, e que fará de tudo para que um jogador não abandone, quando seus pares assim contribuem para que haja a continuidade, a estabilidade, o cumprimento das regras e das composições existentes, como equipes, estratégias e mais e mais possibilidades, sempre.

Todavia, parece não haver jogos que consigam comportar um número ilimitado de jogadores, pois sempre há um limite estabelecido pelas regras, ou pelas condições de recursos, e que Jonas elegeu como ponto fundamental para limitar eticamente as ações, pelo temor da finitude ou dos extremos indesejáveis, o que veremos ser inviável ocorrer. O jogo da vida, talvez, não seja um único[16] jogo que é jogado, visto que existem diferentes formas e versões para se jogar, a considerar culturas, regiões, tempos e muito mais, pois a ideologia também não é única, e nem poderia ser. Os jogadores[17], afinal, tanto promovem suas ideologias dentro dos jogos que estão a jogar, como exaltam que seus jogos sejam melhores do que outros estejam a jogar. Gostam não só de defender seus jogos, mas também de elevá-los ao topo, como se o próprio jogo fosse o fim último – e é, afinal, pelo que percebemos de energeia! Ah, Aristóteles, sempre preciso.

Mas, afinal, qual seria um destes jogos principais desejados e defendidos pela maioria como os mais importantes? Podemos recorrer ao que fundamenta as nossas sociedades atuais ocidentais, prioritariamente, como algo em comum à maioria das nações, como o capitalismo. O atual e dominante capitalismo, mais exuberante do que nunca, se reproduziu pelas crises e tem, em seu ethos, a busca em tanto ampliar sua capacidade produtiva como também os mercados consumidores, além da propriedade privada e da acumulação[18] de capital em si, como meio e fim da própria reprodução.

Há, portanto, uma ideologia capitalista em que ser um consumidor é o ato que faz o capitalismo continuar a existir. O consumidor é, necessariamente, o jogador que está bem posicionado. Consumir, portanto, é algo como a energeia, em que o ato assume, em si, um fim em si mesmo. Produzir, portanto, é o que leva à possibilidade de se consumir, e a movimentar o sistema – manter o jogo ativo, e a formar e a acumular o capital. O mero agente de produção aristotélico (escravo) passou, a certo tempo, a ser um jogador, tanto para estar no jogo, como consumidor, como para contribuir para reproduzir a continuidade do jogo. A produção é o trabalho, ou a kinesis, um movimento de recursos capaz de levar à valoração da mão-de-obra e, portanto, ao consumo, mesmo longe do crivo aristotélico da escala de valores, mas completamente funcional e operante nestes últimos dois séculos, ou mais. O escravo de antes, desde Aristóteles, que estava apenas a assistir, transformou-se em jogador. Não houve, exatamente, um erro de Aristóteles, como argumenta Thomas Hurka[19], apenas faltaram-lhe recursos para pensar na evolução e quase obrigatoriedade dos jogos, dois milênios depois, como no caso do capitalismo.


Parte 5 | A Ideologia

A questão funcional da ideologia, portanto, é o que faz os jogos serem aderentes. A competição não é a causa, mas o efeito. A causa, ou melhor, as causas são as redes de crenças, desejos e vontades compartilhadas que faz com que tudo seja aderente[20]. Tudo, afinal, é jogo.

Há que se perceber que a aderência é um ponto fulcral para definir um jogador. Um igual nunca é deixado sair, tal como na Cosa Nostra[21], a temida Máfia italiana, em que a única saída honrosa era a morte. E isto se dá em todas as organizações extremistas, fundamentalistas ou criminosas.

A ideologia é como o trem, retratado em Ómnibus, de Sam Karmann, quando um passageiro se percebe dentro de um trem expresso, já em movimento, e que não parará onde ele deseja e precisa estar. Daí, esta personagem – ou jogador – busca desesperadamente soluções para se livrar desta determinação fatídica que lhe foi imposta[22] pelo acaso, e, ao final, ocorre o que ocorre, e mostra claramente como a ideologia opera, através de seus agentes sempre presentes: todos aqueles que estão a viajar nela. E, de alguma forma, sempre foi e sempre será assim[23].

Portanto, as ideologias são sempre baseadas nas possibilidades das ideologias superiores, em seu ethos, por exemplo, consumista, capitalista, a um nível de aderência cada vez mais profundo quando se reproduz em ideologias menores, mais coesas e com dimensões mais precisas. As possibilidades, portanto, do capitalismo é o que se pode consumir e acumular, consolidar e configurar como um legado, algo que transcenderá a própria finitude, a própria morte. O pessimismo do fim já está incorporado profundamente nas ideologias, pois ela nasce daí, desta subversão lúdica dos fins pelos meios. Eis que, agora, é possível perceber a incoerência conceitual no que Hans Jonas denominou como a heurística do medo, ou do temor.


Parte 6 | Conclusões

Pelo exposto, conjeturar sobre a primazia da responsabilidade moral, proposta por Hans Jonas, que buscou transcender a todo o tipo de princípio moral de uma ação pressupõe ignorar totalmente o poder e a funcionalidade de ideologia, que vai, no caso do capitalismo, na contramão do que está a ser proposto.

O vislumbrar do futuro é, em si, o que a ideologia capitalista evita, para dar importância aos meios, e sem pensar nos fins que, no caso da vida, é sempre o pior possível: o da morte. Há um vazio entre a proposta altruísta de Jonas em que se bate frontalmente com o jogo que está instituído, em que as mudanças apenas ocorrem em prol do próprio jogo e sempre baseada nos interesses egoístas dos jogadores e, também, da ideologia[24].

A projeção da Ética para se direcionar para o futuro, que Jonas busca fazer, é mesmo o que a ideologia busca eliminar, ao ignorar as consequências e a incentivar o gozo em todas as possibilidades que o presente já oferece, aos que podem consumir. Portanto, é bem mais prazeroso e atraente focar-se no agora, no meio, nos processos. A guerra, portanto, nunca foi ética, mas sim ideológica, e poucos se aperceberam disso, até o momento.

O temor[25], ou o medo, na assunção ontológica que Jonas pressupõe ser suficiente para demover o homem, dotado da técnica mais avançada, de agir contra um bem projetado no futuro, a caminho de um mal, torna-se fraco, insuficiente para enfrentar a ideologia, assim como o véu da ignorância, de forma distinta, mas igualmente ingênua e nada pragmático.

A utopia, por exemplo, contestada por Jonas, seja a capitalista ou a marxista, não é, de todo, verdadeira, visto que o capitalismo, essencialmente, não é utópico, em nada, mas sim alienante, que insiste em fugir da realidade e das apropriações excessivas dos recursos naturais através de uma versão ideológica atualmente gamificada. O que resta é o poder político, e este, como se percebe, está a ficar subordinado ao poder do capital, exceto em alguns países em que ainda se encontra algum tipo de Capitalismo de Estado, o tipo de sistema em que países como Rússia e China, por exemplo, passam a migrar, para além dos ideais comunistas, atualmente provados inexequíveis. Possível, mas será que provável? A causa jonasiana é nobre, lícita e necessária, e resta-nos a obrigação de perceber como evitar o que parece ser inevitável. Eis a importância de seu pensamento, que não resolve, mas abre portas ao que todos buscamos: possibilidades.


Bibliografia

Anderson, R. T. From Mafia to Cosa Nostra. AJS.; 71(3):302-10. doi: 10.1086/224089. 1965.

Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.

Jonas, Hans. O Princípio Responsabilidade: ensaios de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio, 2006.

Nguyen, C. Thi

Philosophy of games. Philosophy Compass 12 (8):e12426. 2017.

Games: Agency as Art. New York: Oxford University Press. 2020.

Roberto de Oliveira, J. Por que uma ética do futuro precisa de uma fundamentação ontológica segundo Hans Jonas. Revista de Filosofia Aurora, 24(35), 387-416. 2012. DOI: https://doi.org/10.7213/revistadefilosofiaaurora.7510

da Silva, Emanuel Isaque Cordeiro. O Conceito do Trabalho: da antiguidade ao século XVI. 2019. Recife, Pernambuco, Brasil.  PhilArchive: https://philarchive.org/archive/DASOCDv1

Suits, Bernard

What Is a Game? Philosophy of Science, 34(2), 148–156. 1967. http://www.jstor.org/stable/186102

The grasshopper: games, life and utopia – with a new introduction by Thomas Hurka. 2005. Original ed. published 1978. Broadview Press Ltd. Peterborough, Ontario, Canada. ISBN 1-55111-772-X


Videografia Referencial

Ómnibus, de Sam Karmann. França, 1992. Curta-metragem acedido em 16/01/2022, no link https://vimeo.com/666380610/7b4b8ee225.


Notas


[1] Há, também, a continuidade do pensamento desenvolvido para a primeira parte desta mesma UC, dada pela Profª Lídia Pires, na qual foi defendida a análise lúdica da vida, como um jogo em que a ideologia se mostra sempre atuante e, também inclusa, a defesa da impossibilidade de uma consideração válida de justiça a partir de um suposto véu da ignorância dado a um hipotético observador neutro, a partir das leituras de John Rawls.

[2] Os impostos, que dividiam o protagonismo destas certezas, já estão a serem superados gradativamente, ao menos pelas grandes corporações e pelos mais ricos, através das offshores, holdings, cripto-moedas e outras formas “legais” de evasões fiscais, pelas brechas legislativas do sistema. Para os pobres, inclusos os filósofos, os impostos ainda continuam a dividir com a morte as únicas certezas da vida, como popularmente dito, compartilhado e aceito.

[3] O primeiro grande movimento ativo é poder estar no jogo, por aqueles que querem passar de expectadores para jogadores ativos, ou aqueles que, em vias de uma possível eliminação, resistem para não passarem de jogadores a expectadores. Ambos os movimentos nem sempre possíveis de se evitar.

[4] Marcar golos não é um fim complexo, por si só. Se fosse isto um feito almejado por todos, fazer golos, veríamos todos a estarem em um campo de futebol, com bolas, a chutarem para que a bola entrasse pelas traves e estivessem, assim, a marcarem golos e a se realizarem na felicidade. Tecnicamente, é um golo, mas não é um jogo, e nem dá nenhum prazer recorrente enquanto se joga uma bola para dentro das traves, desta maneira.

[5] Os processos inconscientes de participar de jogos podem assumir diversas facetas, como por exemplo em se estabelecer níveis ou segmentações em que alguém, ao invés de ser um jogador, passa a ser uma peça ou objeto. Isto se mostra claro ao perceber os algoritmos a trabalharem ocultamente para prender o expectador ao conteúdo, que é dotado de mecanismos publicitários e incentivo ao consumo, quando não se percebe que, na internet, “quando o sujeito não paga por algo, e pensa ser gratuito, é porque este é o produto que está a ser vendido”. A empresa vende o expectador aos publicitantes, simples e cristalino de se perceber um jogo inconscientemente jogado, de se consumir conteúdo, passar fases, navegar por onde se deseja, condicionado.

[6] É importante ressaltar que há a defesa de que não existe uma regra ou comando central para os jogos existentes, em relação à vida, tal como um gênio maligno cartesiano que manipula a tudo e a todos, mas sim defende-se que há uma propensão característica humana de querer estar em um jogo, sempre, a jogar, tal qual um propósito inconsciente e compulsivo, em que o sistema, se assim o chamarmos, ou parte deste, será apenas algo que se aproveitará destas peculiaridades humanas para buscar tirar seus proveitos, ou estabelecer seus próprios jogos, derivados e que se reproduzem a partir de uma ideologia central, como o jogo do consumo.

[7] Assim também como os reservas dos times de futebol nunca se sentem vitoriosos quando seus times vencem um jogo. E nunca lhe atribuem vitória. Não jogaram, mas “herdaram” uma vitória por alguma situação privilegiada e, portanto, não fizeram parte do processo objetivo. Uma “vitória” menor.

[8] A ideologia não pode, portanto, ser única, dada a multiplicidade de (jogos) condições e individualidades, e se dividem, e se pluralizam, em alguma forma hierárquica e com algumas similaridades. A ideologia de um jogo de futebol não é a mesmo do que um jogo de vólei, mas fundem-se ambas em um jogo de futevólei. Regras e ideologias, sempre juntas, a se retroalimentarem. Entre elas, uma ética que serve como interface. Eis por que a Ética emerge desta ideologia profunda, divida, atinge a superfície como algo fragmentado, mas menos do que na profundeza, se busca o preenchimento dos espaços vazios e, quando se supõe sólida, é chamada de deontologia e busca sair rumo às regras, com a pretensão de ser uma delas, mas raramente com sucesso.

[9] Os jogadores podem, até mesmo, estarem a impedir outros jogadores de ingressarem no jogo se estes não estão de acordo com o “espírito esportivo” do jogo. Quem quiser atingir os benefícios sem o espírito esportivo, são impedidos por aqueles que estão a jogar, totalmente imbuídos deste nível de comprometimento ideológico. O não-jogador será, portanto, um marginal, assim como alguém que deseja furtar algo, se apropriar do que não é merecido. Por isso, por proteção, manutenção e continuidade, é quando emerge a deontologia de dentro da ideologia e da Ética, mesmo que nem sempre instituída, pois não há um único jogo, nem um único pensamento. Eis um filosófico campo fértil para se adentrar, afinal, a explorar novas perspetivas.

[10] Isto se configura como algo tão sutil, e válido, quando se permite uma análise sob a perspetiva de tudo, afinal, ser um jogo, inclusive o legado a configurar-se como produto e transcendência, que passou despercebido, ao menos na Filosofia, em linhas gerais. Qual, afinal, é a imensa importância daqueles que estão em boa posição no “ranking”, a desejar insistentemente produzir seus legados? Não seria, enfim, racionalmente, um objetivo que pudesse ser desfrutado, pois seria concretizado para além da própria morte, para além do próprio fim, como uma forma de se fazer presente a se estar ausente, depois da desintegração do dasein, como temem os existencialistas. Seria um meio de a entidade ser um ente, afinal, e passar da dimensão ôntica à dimensão ontológica?

[11] Os fins, desta forma, são as próprias ações: o processo, o método, os meios. O máximo do contemplar é o próprio contemplar, mesmo em sua extrema asserção, e nada mais há de melhor para além destes atos e processos contemplativos.

[12] “… e o prazer também parece ser dessa natureza. Porque ele é um todo, e jamais se encontra um prazer cuja forma seja completada pelo seu prolongamento. Pela mesma razão, não é ele um movimento, pois todo movimento (o de construir, por exemplo) requer tempo, faz-se com vistas num fim, e fica completo quando realizou a coisa visada. Só fica completo, por conseguinte, quando se encara o tempo na sua totalidade ou no momento final. Em suas partes e durante o tempo que estas ocupam, todos os movimentos são incompletos e diferem em espécie do movimento inteiro e uns dos outros.” (Aristóteles, 2005, Livro X, Tomo 4)

[13] Jogos de progressão permitem perceber isso claramente, assim como o jogo da vida, em que o próprio conceito de se construir um legado, como citado, tem como objetivo essencial algo que perdurará para além da própria existência do jogador, ou apenas enquanto este esteve a participar de determinado jogo.

[14] “O homem temperante evita os prazeres, O homem dotado de sabedoria prática busca o que é isento de dor e não o que é agradável. Os prazeres são um obstáculo ao pensamento, e quanto mais o são, mais nos deleitamos neles…” (Aristóteles, 2005, Livro VII, Tomo 11)

[15] As pessoas jogam por prazer, por algum estímulo ou desafio a que se propõe, no sentido da energeia aristotélica. Na vida, também não há esta obrigatoriedade de se jogar todos os jogos, a partir de certo ponto em que o indivíduo passe a se configurar como uma suposta “unidade autônoma de deliberação”, se conseguir se desenvolver a tal ponto, o que não se pode afirmar que exista um estado possível de máxima e completa autonomia e deliberação do indivíduo, com previsto por Rawls com seu véu da ignorância.

[16] Um jogador cristão em um país pobre não joga o mesmo jogo de um jogador muçulmano afegão, tampouco um jogador ateu, em um país escandinavo, jogaria o mesmo jogo de um norte-coreano. A vida, por mais absurdo pode parecer, é diferente conforme o jogo que se está a jogar. Não há apenas um jogo, assim como não há apenas uma ideologia, nem apenas uma regra e muito menos apenas um objetivo. Por isso, abordar a vida como instrumento lúdico pode tornar possível o entendimento claro sobre questões centrais, o ethos dos jogos, como a ética, a ideologia, a real motivação da ação, da mente e dos campos políticos em que urgem uma ação efetiva, como nas preservações ambientais, políticas e econômicas.

[17] O jogo da vida pode ser renegado, como visto, e algumas pessoas desistem mesmo de jogá-lo ao antecipar suas mortes, lamentavelmente. Mas, mesmo quem não joga ativamente, ou apenas deseja se manter na sobrevivência, por não optar pela morte, estará também a participar como expectador. Da mesma forma estão outros a serem apenas expectadores, por estarem na massa sem privilégios que tenta jogar os jogos principais, mas que não conseguem, todavia, participar. De todas as formas, sempre, enquanto se está vivo, se está conectado a algum jogo, mesmo que apenas a observar, ou apenas ao nível da sobrevivência.

[18] A acumulação, aqui, configura-se como o legado o é para o jogador, embora o capitalismo possa ser considerado tanto jogo como jogador, mas não pode ser considerado como eterno, pois teve, afinal, um início não muito distante e possui suas fragilidades. Existirá enquanto for possível, ou conveniente. Simples assim.

[19] Suits, 2005, Introdução.

[20] Quem está no jogo, deseja continuar e defende, mais do que tudo, o jogo que está a ser jogado, não menos o cuidado de não deixar ninguém abalar as ideologias de que o fim, afinal, não são os meios propostos. O azedume se dá quando alguém estraga o “clima” do espírito esportivo, ao sugerir que ninguém sairá vivo do jogo, pois a morte é o verdadeiro fim. Isso justifica o tabu sobre suicídios e outros temas niilistas, a marginalização dos expectadores e dos desistentes dos jogos, dos indiferentes, da xenofobia, do racismo, misoginia e tudo o que leva à diferença.

[21] Cosa Nostra, aliás, significa “coisa nossa” e foi analisada por diversos pesquisadores, em especial pelos sociólogos, em que puderam fazer paralelos entre a ideologia da máfia e a transformação que tiveram, ao expandir das pequenas cidades sicilianas, em que havia uma identidade cultural e social local, para os Estados Unidos, em grandes cidades como Nova York, e até mesmo a impulsionar o nascimento de outra grande cidade, Las Vegas, pela exploração dos primeiros grandes cassinos, assim como também em Atlantic City. Isto foi possível pois, aliás, a ideologia da Máfia, embora local, e genuinamente italiana, estivesse sob a mesma égide da ideologia do Capitalismo. Eis o ponto característico da ideologia: se reproduz, se divide, mas sempre com algum grau hierárquico. Mas, sempre, também, extremamente aderente.

[22] E, sempre, o que não se conseguiu tratar aqui, pela limitação dos espaços, há a transposição da responsabilidade dos atos do sistema para o indivíduo, como visto nas intervenções da personagem idosa, que viaja a seu lado, e o culpa pelo fato de lá estar, implacavelmente sem lhe dar opção nem compaixão pela situação. A ideologia faz acreditar, mesmo, que há um “agente autônomo deliberativo” e, assim, a responsabilidade é sempre deste.

[23] Em 2020, noticiou-se que uma mulher de 47 anos optou por largar a vida na “civilização” e partir para viver nas isoladas montanhas de Utah/EUA, apenas em contato com a linda natureza de lá. Portanto, cinco meses depois, “descobriram” seu paradeiro e foram “resgatá-la”: encontraram-na viva! Logo foi encaminhada ao Hospital, que nada encontrou de anormal em sua saúde, mas lá existe uma observação médica que o que ocasionou a decisão dela, para justificar a anormalidade suposta deste ato de viver fora da sociedade e ainda, por cima, permanecer viva (impensável para quem esteja fora da ideologia vigente), foi algum tipo de enfermidade mental, que não souberam precisar, todavia. Simplesmente a ideologia não permite fugas de iguais, pois isso é deixá-la menos aderente e abrir espaço para se perceber sobre a inconsistência do que realmente está a ser promovido: a ilusão do american way of life.

Sítio da internet acedido em 16/01/2022 em: https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/mulher-esteve-desaparecida-em-utah-durante-cinco-meses-foi-encontrada-viva-numa-tenda-num-desfiladeiro

[24] A Ética, portanto, é um substrato da ideologia, e nada mais do que a interface entre esta e as regras, em algo compartilhado, que resulta como efeito e não como causa.

[25] O temor, ou o medo, já é o motivo de se estar a jogar para se contruir um legado, esteja o mundo a existir ou não, isto não é considerado. Sim, a ideologia não precisa ser, necessariamente, racional, como se pode perceber, lamentavelmente.

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