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Ação-Mente-Linguagem Filosóficos Medieval

A anomalia entre o determinismo e o compatibilismo a partir de Agostinho de Hipona e Boécio

Abstract

A partir da leitura da ação humana a partir dos autores medievais Santo Agostinho e Boécio procurarei mostrar os componentes essenciais da ação humana e demonstrar um hiato entre o determinismo e o compatibilismo, que denomino anomalia da ação humana, a buscar uma análise contemporânea destes autores, identificados como grandes contribuidores dos modernos conceitos da Filosofia da Ação.

Palavras-chaves

livre arbítrio; deus; presciência; determinismo; compatibilismo; ação; evolução

 

Introdução

Seria possível defender que o compatibilismo, como a possibilidade de acontecer em simultaneidade o tipo de determinismo caracterizado pela presciência e o livre arbítrio caracterizado pelas ações que quebram uma determinada cadeia prévia de acontecimentos afins à presciência divina, tenha tomado expressão significativa a partir do advento do cristianismo, da consideração da figura de um determinado conceito divino, denominado deus.

Inúmeras questões foram colocadas até que houvesse um grande embate – se a presciência divina realmente existe, anularia a liberdade humana, que seria determinada pelo saber prévio de fatos que ainda não teriam acontecido? Pelo inverso, a liberdade humana seria capaz de romper tais fatos previamente conhecidos por deus? Então, se fosse possível, as características deste deus seriam inferiores, como a onisciência, por exemplo?

Afinal, perceberemos que entre a presciência e a liberdade existem outros fatores que permitirão analisar a questão de forma a clarificar o argumento compatibilista. A definição sobre o conhecimento será o ponto de partida, assim também como a ponderação sobre o que é a liberdade em si, como essência e potência.

Tanto Santo Agostinho como Severino Boécio foram capazes de responder, e até resolver, sob as ópticas teológica e filosófica, tais questões[1] que foram propostas em seus tempos, mas sem impedir de surgirem outras novas questões derivadas destas, no progresso do pensamento filosófico, que até o momento se fazem presentes, mas que não seriam concebíveis sem estes dois pensadores.

E este ensaio tem a pretensão, dentro de seus limites impostos, de abordar tais questionamentos e até mesmo possibilidades, a partir destes filósofos, propondo que poderia haver uma anomalia do determinismo que permitiria uma capacidade de o compatibilismo ser o meio, e não o fim, das ações humanas. Por isso a denominação de anomalia, ao invés de puramente fim do compatibilismo.

 

Algumas argumentações filosóficas de Agostinho e Boécio sobre deus e a liberdade

Sobre o determinismo dado pela presciência divina, Agostinho defende a questão da crença inicial em deus como ponto de partida para alcançar a sabedoria. Para Boécio, a questão é a mesma, mas preocupa-se, dada sua situação, em ir além da sabedoria para a felicidade. Em última instância, seriam equivalentes, pois ambas precisam basear-se em deus, pela sua Providência e Misericórdia.

Agostinho questiona uma razão sem deus seria impossível de atingir a sabedoria. Seria impossível conhecer a realidade extrema da coisa em si, da essência, pois esta é íntima de deus.

Boécio, através da figura personalizada da Filosofia, conclui a impossibilidade de a felicidade acontecer sem deus, pois seria ao máximo os prazeres momentâneos dados pela fortuna, que tal qual um jogo, está uma roda, de altos e baixos, e nunca alcançaria a situação da eternidade.

Percebe-se que, para ambos, a questão divina é primordial para a conclusão de seus argumentos. Mas não se limitam a dogmas, mas sim a uma racionalidade com base na fé da existência de deus. Não há, em ambos, nenhum argumento em uma fé incondicional, mas sim na busca por um caminho dedutivo a partir de uma questão inicial proposta sobre o conhecimento, que se mostrará impossível sem um fim em si, e sem que este fim seja o fim último das coisas – a essência divina.

A impossibilidade de o conhecimento ocorrer é, de fato, a alcançar o conhecimento pleno de deus. Pois Boécio argumenta que o erro até então praticado pelos pensadores é a crença que tem o cognoscente de ser possível o conhecimento basear-se na potência do objeto. Como se o sujeito pudesse analisar o objeto como um todo, sem conhecê-lo. Como seria possível conhecer algo ser nunca o ter conhecido? Eis o grande equívoco que começa a se desfazer.

Pois, para Boécio, só é possível conhecer algo a partir do que o sujeito tem como potência. Não mais do que isto, pois existe neste sujeito limitações para atingir o pleno conhecimento daquilo que lhe é superior. Em última instância, deus. Não seria possível conhecer plenamente deus, pois o humano possui tanto faculdades, capacidades e potências limitadas e inferiores a deus. Portanto, o determinismo, enquanto conceito, ficaria também ilimitado de conhecer-se, visto que é atribuído à presciência divina. Isto abre novos ângulos para o entendimento da questão.

Uma questão importante surgirá daí, que é a limitação que o homem, enquanto alma, enquanto corpo, possui em relação ao tempo. Mesmo nas quatro considerações possíveis sobre a origem da alma que Agostinho considerou, embora admitisse que escolheria a que a alma tivesse origem na criação divina, o fator tempo é limitador para todas as possibilidades, ainda que as almas pudessem ser eternas, tais quais o criador. Pode mesmo parecer equivocado e ambíguo, mas como considerou Boécio, a capacidade humana para o conhecimento está aquém destes conceitos superiores.

Portanto, não poderíamos considerar deus inserido na linha temporal a que estamos limitados quanto ao conhecimento. Não é possível chegar a alguma conclusão sobre deus rebaixando-o à nossa limitação – e condição. É preciso, para perceber plenamente deus, ou no mínimo ampliar nossa capacidade de percepção ou descobrirmos novas potências ainda ocultas na criação divina.

 

O movimento do homem – a livre ação como necessária à sabedoria e à felicidade

A ação humana é a resposta para atingir o bem. deus é este bem maior. A inação nada produz, nada oferece. A própria inação é desconsiderada, mesmo se considerarmos as influências neoplatônicas sobre o Uno que levaram à Trindade. O homem age em direção a deus, em busca de seu fim último. E a liberdade da ação é essencial, ainda que gere o pecado, o mal, que resulta do afastamento de deus, e promove a privação da liberdade, da sabedoria e da felicidade.

A anomalia do compatibilismo vem mesmo desta necessidade de ação. Como que a ação precisasse ser um meio para alcançar deus. Seria, portanto, a liberdade da ação uma conquista do homem, tal como a sabedoria de Agostinho, tal como a felicidade de Boécio. O homem não é de todo livre, é limitado, mas tem potencial de liberdade. A alma busca a luz do saber e resiste à escuridão da ignorância, em que é infeliz e aprisionada.

O livre arbítrio, portanto, seria uma capacidade a ser desenvolvida pelo homem, fruto de uma evolução transcendental e mental de suas próprias capacidades, da ampliação de seus potenciais, e quanto mais desenvolvidos, mais se percebe deus. Isto, sem contrariar o disposto por Agostinho e Boécio, oferece-nos uma nova leva de questões, sob uma nova óptica filosófica.

 

Fontes Bibliográficas

O livre-arbítrio / Santo Agostinho; [tradução, organização, introdução e notas Nair de Assis Oliveira; revisão Honório Dalbosco]. — São Paulo: Paulus, 1995— (Patrística)

Barbosa, Diogo e Mendonça, Marta / «É possível compatibilizar a liberdade humana e a presciência divina? A resposta de Agostinho no De libero arbitrio», 2012. Civitas Augustiniana 1 pp. 59-78.

A Consolação da Filosofia / Boécio; ISBN: 85-336-0961-2

 


[1] “Com efeito, quem disser que alguma coisa pode acontecer de modo diferente daquele que deus conhece de antemão, empenha-se, por meio de uma impiedade absolutamente tresloucada, em destruir a presciência de deus. Portanto, se deus conheceu de antemão que o ser humano, sendo bom, havia de pecar – o que necessariamente me há de conceder todo aquele que professe comigo que deus conhece de antemão todos os futuros; se, portanto, isto é assim […] direi que, dado que conhecia de antemão que ele haveria de pecar, era necessário que, tal como deus tinha previsto, isso viesse a acontecer. Por conseguinte, de que modo se pode dizer que a vontade humana é livre, quando se evidencia uma tão irrecusável necessidade?” (Agostinho em Barbosa e Mendonça, p. 3)

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