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Filosóficos Medieval

A felicidade está em deus?

Abstract

A partir da leitura de Boécio[1], procurarei correlacionar a felicidade e deus. A felicidade considerada a partir da saciedade plena do homem – espiritual, material e mental. E deus a ser considerar a visão religiosa vigente à época do escrito. A intenção é correlacionar a felicidade com as questões divinas, a buscar demonstrar uma dependência total ou parcial, ou ainda uma independência de deus na felicidade humana, a partir de uma análise da ação e seus componentes, como as paixões, desejos e vontade.

Palavras-chave

Felicidade; deus; religião; ação.

 

Introdução

O mal do homem acontece quando este esquece qual o seu verdadeiro fim.

Esta última frase sintetiza as ideias centrais da obra[2] trazidas pela razão, retratada como a personificação consoladora da Filosofia, a Boécio, aquele que é consolado.

Eis que Boécio assume seu relevante papel[3] na Filosofia Medieval e nos abre diversos pensamentos comuns que permeiam o cotidiano de todos os mortais: o distanciamento da fortuna pela pobreza dos recursos materiais, a lida com a injustiça, as questões transcendentais conflituosas, as mazelas da vida e tantas outras questões que sempre levam a pensar a condição humana como sofrimento constante.

Boécio se vê preso, a perder não só sua liberdade, mas também desprovido de seus anteriores prestígios e bens, sem acesso à justiça de que tanto defendia e ineditamente em uma situação oposta. Boécio, portanto, desorientado, humilhado, mental e fisicamente torturado e aquém de qualquer condição mínima de dignidade. Como seu ainda não lhe bastasse, ainda se vê em seus últimos dias, no cárcere, a última paragem até a execução da pena capital que brevemente lhe ceifaria a vida.

E sob tal óptica, Boécio abre ponderações relevantes sobre a justiça quando toma para si duas questões que permeiam o íntimo humano – a busca da felicidade e/ou de deus.

Seria a felicidade possível, tangível? Quais seriam, caso existam, os papéis – ou mesmo o papel – de deus na vida humana? Há liberdade no homem capaz de trilhar um caminho plenamente feliz? E, afinal, qual seria este caminho? Para que serve a vida?

Os pensamentos de Boécio são confusos e perdidos no início, reflexos do seu estado deplorável, embora lícitos e comuns à humanidade. Levam o leitor a se identificar com muitas das questões propostas e que justifica a grande popularidade que esta obra obteve na Idade Média, e ainda hoje. Por tal concisão, o livro é enxuto, direto, estruturado com base na argumentação lógica[4] e constrói um conhecimento coerente com a essência da humanidade que sofre em busca da luz do saber.

Por tais razões, não se pode relevar a importância de nenhum de seus capítulos, em face de tal estruturação argumentativa lógica. Eis que organizei este trabalho com base em tais capítulos, mas não restritos aos mesmos, a inserir em cada um deles o essencial do escrito original e a minha contribuição interpretativa, com base recursiva aos comentários especializados de Marenbon[5].

 

Sobre o Boécio consolado e a ambientação contextual

O início do livro, de forma poética, revela um Boécio melancólico a ser confortado até então pelas Musas, que podem ser interpretadas metaforicamente como as expressões poéticas artísticas, que excluem, como veremos a seguir, a Filosofia, que propõe que tais musas não conseguiriam aplacar a dor e ainda poderiam piorá-las. A Filosofia afasta-as do “enfermo” e assume seu papel de curadora através de doses de sabedoria.

Já no primeiro verso Boécio pressente, ao final, que seu desvio da felicidade é por não estar no caminho certo. E esta felicidade ainda é um sentido pueril que Boécio possui como referência – de uma felicidade inconstante e volátil dada pela Fortuna.

O tempo é referido na condição da velhice surpreendente e precoce em que se encontra, não atingida ao longo de uma vida vivida, mas de forma intensa na brevidade de uma morte iminente, a consumir toda a sua vitalidade.

Sua desgraça, afinal, para si, estava a ser atribuída à Fortuna, que lhe permitiu acessar, ou lhe deu, a suposta felicidade a partir de bens perecíveis e que agora estava a lhe privar de tudo, até mesmo da morte imediata que seria suposto lhe livrar de toda aquela situação indesejada em que se encontrava. Até mesmo sobre sua morte não lhe era dado poder de decisão. Estava preso, de corpo e alma. Um homem decaído à sua ínfima expressão.

Este é o Boécio antes de o embate consciente com a Filosofia ocorrer; em sua amargura e lamento, privado da vida e da morte, e de tudo o mais que poderia lhe dar algum alento. Eis que surge a Filosofia, personificada em uma bela mulher, a lhe rememorar o caminho que lhe fora esquecido, ou evitado, e a busca da verdadeira consolação para a situação em que se encontrava. E assim começa a jornada da razão.

A Filosofia, ao contrário das Musas poéticas, se anuncia como bloqueadora ao costume da dor. Portanto, a dor da alma não deve ser um estado permanente, como será demonstrado por ela, e sim um afastamento voluntário da felicidade, um afastamento dos propósitos humanos, tal como previsto no primeiro verso de lamento. Boécio se apequena frente à Filosofia. Coloca-se na condição de aprendiz, envergonhado pelo próprio afastamento da razão. Mais do que envergonhado, completamente abatido pelo afastamento da sua própria racionalidade, do caminho acusado pela Filosofia.

A fidelidade é uma qualidade autoatribuída a si pela Filosofia, que se declara desde os tempos antigos em companhia com todos os seus discípulos, mesmo nos momentos da morte, a fazer dos mortos imortais, como Sócrates. Alega que suas vestes, tecida por ela mesma, foi rasgada por mãos brutas e seus pedaços divididos e levados por muitos. Estes muitos, por ignorância ou mesmo má índole, viram o pedaço como o todo, e se fizeram mostrar como discípulos e representantes deste todo – a Filosofia. E assim conseguiram enganar tantos outros, como cegos a guiarem cegos. Pelos vestígios da túnica, os incautos foram levados a agirem mal, pela ignorância.

A sabedoria é enaltecida e apresentada como vitoriosa histórica contra a ignorância. De todos os embates do passado (e sugere-se também o presente) que os grandes filósofos sofreram, muito foi por tentarem se afastar dos homens maus e seus feitos, e sofreram com os ciclos da Fortuna, com suas ilusões perecíveis das falsas riquezas. Ainda assim, os abatidos destes embates se mantiveram fortes, pois o que lhes foi tirado pelos ignorantes não é relevante ou mesmo essencial à finalidade da vida. Como se a sabedoria dispusesse de uma fortaleza que pode abrigar a todos os que buscam a luz divina da felicidade, inclusos os afetados pelos maus que se encontram a sofrer.

Eis que as ambientações se findam e Boécio se mostra como reativo. Coloca-se plenamente na condição de vítima a acusar seguir fielmente as inspirações da Filosofia, sem que ficasse livre de sofrer com a ingratidão da Fortuna.

Em relação à Filosofia, por inspiração de Platão[6], colocou-se como o filósofo que buscaria exercer o poder com sabedoria, e elenca várias de suas ações em busca da equidade e da justiça. A Fortuna, que deveria estar a lhe premiar, não o fez, e lhe virou as costas, deixando-o naquele estado em que se encontrava. Eis suas acusações em tom catártico e fortemente convicto de sofrer tamanha injustiça, a seus olhos.

Eis que neste livro, deus é suscitado como ente duvidoso devido à existência de as injustiças ocorrem a seus olhos, sem nenhuma intervenção. A própria existência de deus é colocada em questão, pois o questionamento sobre a existência[7] de deus é atribuído à concomitante compatibilidade (ou não) do mal e do bem. Perceber-se-á, então, que a própria ideia de deus será construída com base nos argumentos.

Magistralmente, a resposta da Filosofia ao lamento de Boécio se mostra apenas como o início de uma jornada argumentativa de construção lógica. O banimento sofrido pela Fortuna, alegado por Boécio, foi fundamentado por ele por ter feito coisas que lhe pareceram corretas. A Filosofia, contudo, parece concordar com a qualidade de suas ações, mas não com a quantidade[8].

A Filosofia aponta a Boécio a sua grande instabilidade emocional e sentimental, que tomado pela cólera e desespero, possui expectativas de alguma intervenção divina, ou superior, e toma-o por doente. E, como doente, precisa de medicação, e passa a administrar sua sabedoria tal como doses progressivas e profiláticas.

A primeira dose é administrada para que Boécio alcance o conceito de deus, em especial sobre a ordem divina, racional e universal, vigente através da racionalidade – que, se tal racionalidade rege tudo o que há no universo, assim também seria nas questões humanas. Há a inteligência divina por trás de tudo. Destaca-se que esta ordem não é configurada como determinista, pois a vontade e a liberdade de ação é prevista e compõe a base dos argumentos apresentados, cabendo ao homem a responsabilidade pelos seus atos.

A questão se segue para uma suposta finalidade para o Universo – também de uma origem única, inteligente e regente da ordem cósmica – de onde tudo se origina e se destina[9]. A questão se volta para deus, ainda em conceito não personificado, o que se sustenta pelo texto, e se resolve – como pura razão, a origem e destino do Universo.

A Filosofia identifica que Boécio conhece e aceita racionalmente a origem divina, mas ignora o fim. E este esquecimento[10] o fez cego para perceber que também há um propósito para sua vida, se inserido no universo, e foi responsável pela abertura da brecha na qual sua doença se fez presente. A cura poderá ocorrer a partir daí.

 

Sobre a felicidade

Segue o argumento da Fortuna. Inicia sobre a verdadeira propriedade daquilo que supostamente Boécio acusa de ter sido retirado de si. A Filosofia argumenta, sob a óptica da Fortuna, de que nada poderia lhe ser retirado sem que a propriedade fosse sua, de facto. Não se pode perder o que não se tem. Para se perder, é preciso ter primeiro a propriedade do bem, do status ou mesmo da vida. Nada, a priori, se possui.

A Fortuna assume sua mais popular forma, que é a da roda. A roda da Fortuna que ao girar tanto deixa encima como embaixo. Estabelece opostos que se alternam para todos. O homem nasce sem nada, amealha algo durante a vida, e parte dela sem nada, tal como chegou. A Fortuna ciclicamente realiza o jogo com altos e baixos da vida e são dados aos jogadores ligarem para participarem, pela ação da vontade[11] individual, e que passam a serem obrigados a aceitar as regras do jogo que está a ser jogado.

E este argumento será importante para diferenciar a falsa felicidade (efêmera e passageira, dada pela Fortuna) daquela que é a verdadeira Felicidade, que construtivamente a Filosofia atribuirá ao caminho que leva a deus, quando a Ele retornar. A Fortuna é vista como a anunciadora da ruína vindoura, que poderá tardar, mas nunca falhará. A Fortuna é instável, volátil e, portanto, incompatível com deus.

A infelicidade humana não é uma atribuição de deus, nem mesmo sofre da influência da Fortuna, mas sim é fruto de uma série de desajustes emocionais que abrem uma certa brecha para que o homem sofra determinadas consequências. O lamentar das suas tristezas reflete a infelicidade humana, assim como a ingratidão[12] e a insaciabilidade, que não consegue ser suprida mesmo com todas as paixões. O rico, mesmo rico, sente-se pobre, quiçá miserável. E assim para o poderoso, famoso etc.

A memória, todavia, não faz parte integrante da felicidade, pois se assim fosse, as memórias gloriosas de Boécio lhes seriam suficientes para o manter feliz, mesmo com suas adversidades. E ainda piora as coisas, pois quem tudo teve e perdeu, sofre mais do que alguém que nunca teve nada. A memória o remete às glórias do passado.

Isto, por si, já revela um estado mutável do ser, em que a gula pela felicidade se dá pelas paixões e reflete-se nas efemeridades dos bens e situações perecíveis do prazer mundano e que não dura mais do que instantes. Não há constância alguma possível. E a morte[13] é a prova cabal, pois determina o limite[14] à Fortuna, indistintamente.

Após desconstruir a noção equivocada de felicidade, concomitante à preparação argumentativa, a Filosofia apresenta o argumento da verdadeira felicidade.

 

A verdadeira felicidade é o “supremo bem de uma natureza[15] guiada pela razão”[16].

E para alcançar este supremo bem, que logo veremos ser deus, é preciso percebê-lo como a finalidade do homem. Não só do homem, mas de todas as coisas. A sabedoria, ou o uso pleno da razão, permite ao homem estar em seu caminho que o levará ao supremo bem e, portanto, à felicidade.

Pelo contrário, ater-se à felicidade efêmera (falsa felicidade) da instável Fortuna é jogar um jogo que não está inserido no propósito maior da vida[17]. As influências[18] tanto as platônicas, como visto, como as aristotélicas e tanto como as neoplatônicas estão muito presentes no texto, visto que podemos considerar a felicidade como puro ato, na imobilidade do motor imóvel de Aristóteles que poderia ser apercebido como a divindade, ou como no caminho reverso da processão do Uno, de reaproximação à origem em movimento contrário à degradação advinda da referida processão.

Eis que a relação com a justa medida das coisas dá a dimensão de que nada se possui, mas apenas o essencial é relevante. Um essencial dado pela natureza, e conforme a natureza de cada um. A ambição, todavia, não pode ser compatível com a felicidade. O ser ambicioso passa a não mais possuir, mas sim ser possuído pelo que possui. Não é algo que poderia estar de acordo com a inteligência suprema.

Se deus fosse igualmente personalizado, qual seria, então, seu desejo para com o homem? Segundo os escritos, poderíamos dizer que seria o uso racional de suas potencialidades. Todavia[19], o homem se encontra submisso[20] às paixões e posses efêmeras e assim se afasta de seu caminho, que configura sua finalidade.

A questão da virtude se correlaciona com a questão do poder. O poder é algo que só é lícito e possível àquele que é virtuoso. Pois os contrários não podem ser possíveis de coexistirem. Portanto, as honrarias só podem ser dadas, por acréscimos, aos honrados. Os que não possuem honras, não poderiam receber tal destaque. O poder, então, dos que ocupam grandes cargos só evidenciaria o mal que há em si, pelos opostos.

A Filosofia continua a ministrar doses profiláticas a atacar cada um dos pontos relevantes por Boécio, em suas queixas, representados a cada turno pelas riquezas, honras, poder, glória, prazeres. Cada uma delas é descontruída como forma possível de se alcançar a felicidade, seja isoladamente, combinadas ou ainda pela totalidade.

E por isto, pela inversão de conceitos, o falso bem supremo é equivocadamente como uma conquista da felicidade. Ou seja, a felicidade é vista como meio. E neste ponto a Filosofia propõe reconsiderar tal visão, e passar a ter a felicidade como fim. O bem como fim. A natureza, com sua inesgotável energia é o caminho à felicidade.

deus[21] é, portanto, tanto origem quanto destino. A felicidade acontece em deus, ou ao menos quanto mais próximo se aproxima deste destino. Destino não como uma aplicação puramente determinista, mas como direção, ponto de chegada, fim em si.

 

Sobre deus

A felicidade está em deus[22], e, portanto, possui a mesma imaterialidade e impossibilidade de definição, exceto pela qualificação[23].

Deus “é” felicidade pois é uno[24]. E, sendo uno, é o verdadeiro bem. E a Filosofia chega ao conceito do bem pela unidade. O custo, portanto, para a felicidade é a unicidade.

A própria preservação da vida é apresentada como prova desta busca pela unicidade, na qual espírito e corpo tendem à união, ou seja, a vida tende ao bem. Esta agregação não poderia ocorrer com opostos. Todos os seres procuram, assim, o bem, que se qualificado como o fim de todas as coisas, torna-se o bem supremo, ou deus.

E, pela lógica dedutiva, constrói-se o conceito de deus[25], atribuindo-lhe uma finalidade para a vida humana e, por que não, para a existência de todas as coisas.

A questão sobre o livre arbítrio é colocada e deus é apresentado como aquele que dá a liberdade, mesmo com a governança que possui sobre todas as coisas. E este livre arbítrio existe em função da felicidade ser possível pela ação. A felicidade, portanto, não pode ser encarado como uma herança divina, mas sim de um objetivo a ser alcançado.

 

Sobre as capacidades humanas em questão

A responsabilidade do livre arbítrio é pressuposta para alcançar a felicidade. Sem liberdade não há felicidade. Sem responsabilidade não há liberdade. E deus não determina nada em relação à ação humana, que deve ocorrer, contudo, dentro de sua governança, dentro de sua finalidade.

Desta forma, o mal não poderia existir, pois dentro desta unidade divina não seria possível tal existência. Nada poderia servir como obstáculo ao bem supremo. O mal advém, então, da má ação humana, quando esta não se destina ao bem supremo.

Esta desconformidade da ação humana é possível devido ao livre arbítrio humano e fica restrita, mas não condicionada, às leis divinas. A recompensa para a boa ação humana é o próprio bem que dela virá, e não as falsas ilusões da Fortuna. Para as más ações, o castigo será o afastamento do próprio bem, ainda que a Fortuna possa premiar com as ilusões da riqueza, do poder ou glória por exemplo.

Eis que todas as ações são premiadas ou com recompensas ou com castigo. Afastar-se do bem é tido como o pior dos castigos, mesmo que imperceptível pelo homem. E, em complemento, o que se afasta do bem deixa de existir. Podem existir de forma aparente, mas já não mais o são.

O poderoso que tem más ações não é mais poderoso, embora possa parecer. O rico que não possui o bem em si, pode ter posses, mas não a riqueza, e sente-se miserável, a desejar sempre mais, sem que nunca sacie sua gula. Deixam de ser homens e convertem-se em bestas, assumindo a animalidade irracional como gatilho de ações.

A punição advinda da má ação não poderia ser má, visto que está de acordo com as regras divinas. A punição é corretiva e serve para levar o homem de volta[26] ao caminho que deixara, que o leva ao bem supremo. deus, portanto, não é mau nem mesmo ao punir os que agem mal. Nisto, percebe-se que na obra divina não há desperdício, mesmo àqueles que nela desperdiçam pelas más ações praticadas. Eis a perfeição divina que é vislumbrada com toda a lógica argumentativa que clarifica a questão.

 

Conclusões

A questão principal do trabalho pode ser respondida após uma intensa reflexão sobre as intricadas argumentações lógicas, que se alternam em retrocessos e pulos que até mesmo confundiram[27] Boécio, mas que se clarificam sobre a possibilidade de a felicidade do homem em relação a deus.

A questão principal, então, respondida nesta secção poderia ser reformulada para a seguinte sentença: pode o homem nunca ser feliz?

‘Nunca’ se refere ao tempo e é puramente humano, limitado, dimensional. deus não está restrito ao tempo, pois é eterno. E como ser eterno está em tudo – no tempo e no espaço, ainda que para deus tempo e espaço nada signifiquem. Eis a confusão que muitos atribuem falsamente ao determinismo de deus existir devido à presciência.

O homem não pode ser infeliz eternamente. Pois, para assumir a condição de uma infelicidade eterna, precisaria considerar haver ou o acaso ou a não existência do livre arbítrio. Se o acaso existisse, não haveria de ter uma causa. E se nada provém do nada, a possibilidade de o acaso existir é nula. Somente a felicidade é eterna.

O homem que é infeliz não ‘é’. Simplesmente não ‘é’. Pois suas más ações geram seu afastamento do bem e o levará a não existir. O homem que age mal desfaz a si mesmo, não ‘sendo’. Não ser não é meramente a infelicidade, é além disto. Não ser é estar preso à materialidade da bestialidade, em que os sentidos nem mesmo são suficientes para dirimir o que se sente, pois a racionalidade deixa de existir.

Portanto, se o acaso não existe e o livre arbítrio é uma potência do homem que o levará ao ato, percebe-se que a felicidade é inevitável e o fim do homem integra a obra divina que levará à origem – ou ao destino. Não há pressa, ou prazos, ou limites para deus, pois não há tempo para o mesmo, ao menos como o concebemos. O próprio conceito de eternidade é algo complexo para o homem perceber, e nada para deus.

E como comparar as não-dimensões divinas com as que habitamos? Eis que nos resta a razão para transcender, com a Filosofia, tal peso da materialidade que nos mantém presos às ilusões dos prazeres e da Fortuna, em seu jogo de ilusões em que ora encima estamos, ora em baixo nos sentimos. Encima e embaixo, mais uma vez, referências humanas espaciais. Pois espaço é sempre limitado, bestial. Sempre temporal.

As lições de Boécio são por demais preciosas e oferecem uma luz ao aprendizado da Filosofia Medieval e às necessidades da alma que, como a minha, busca um consolo nas questões mais importantes da vida limitada temporalmente, que me motivaram ao estudo da Filosofia, sem nunca imaginar que com ela poderia dialogar, tal como “fez” Boécio. Uma crença que me permiti derrubar.

A Filosofia não é nada mais do que uma deusa, personificada como uma forma capaz de sensibilizar os homens, de tirá-los de sua animalidade e dar a possibilidade senão de retornar a seus caminhos, mas ao menos de orientá-los quanto a estes.

Sem deus, portanto, não “há” nem felicidade, nem nada.

Resta-nos, ainda, perceber o que “é” deus.

 

Fontes Bibliográficas

BOÉCIO. A Consolação da Filosofia. Prefácio de Marc Fumaroli; Tradução do latim por Willian Li. 2ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

Marenbon, J. (Ed.). (2009). The Cambridge Companion to Boethius (Cambridge Companions to Philosophy). Cambridge: Cambridge University Press.


[1] Anicius Manlius Severinus Boethius (475~477 – 524~526 DC).

[2] Boécio, A Consolação da Filosofia

[3] “Nobody seriously concerned with medieval philosophy and theology, whether from the historical or evaluative perspective, can afford to ignore him. If you lack an understanding of Boethius, you will not appreciate what many medieval writers were about.” (Davies, Brian. Marenbon, Introdução, xi)

[4] “Consolation is not, like a straightforward philosophical treatise, just an argument or series of arguments. It is a complex whole, made up of a variety of arguments (as will emerge, not always consistent with each other) presented in certain ways, and what requires interpretation is this whole, which is much more than the mere sum of its individual parts.” (Marenbon, 96)

[5] Marenbon, J., The Cambridge Companion to Boethius

[6] Refere-se aos ensinamentos platônicos sobre a liderança da democracia pelos sábios filósofos, em A República. Equivocadamente, Boécio não aborda que Platão endossa esta defesa pelos sábios terem seu interesse no mundo das ideias, o que os deixaria livres das influências das paixões e os domínios das posses, glórias e poder.

[7] Vale ressaltar que, neste trecho, Boécio se exime da autoria deste questionamento e o atribui a um familiar.

[8] “Disseste a verdade a respeito dos serviços que prestaste à comunidade, mas, considerando a multiplicidade de teus serviços, foste muito modesto.” (Boécio, I.10)

[9] “E como podes conhecer o princípio de tudo e ignorar o fim?” (Boécio, I.12)

[10] “De facto, é devido ao esquecimento que estás perdido, que te lamentas de ter sido exilado e privado de teus bens.” (Boécio, I.12)

[11] A vontade aparece, portanto, como uma potência do homem que permite o exercício do livre arbítrio de jogar o jogo da Fortuna e aceitar as regras e as consequências destas. Não é, portanto, algo “determinado” por deus.

[12] “Acaso existe algum homem que possua uma felicidade tão perfeita que não se queixe de algo?” (Boécio, II.7)

[13] “Pensas que pode encontrar alguma constância nos negócios humanos, enquanto o próprio homem extingue-se de um momento para outro? … de qualquer forma o último dia da vida é o encontro certo com a morte, mesmo para quem a Fortuna favorece.” (Boécio, II.5)

[14] “Crer em Fortunas efêmeras é crer em alegrias fugazes.” (Boécio, II.6)

[15] “Pois a Natureza se contenta com o mínimo, e, se queres acrescentar o supérfluo ao que satisfaz as tuas necessidades, esse acréscimo será desagradável ou prejudicial.” (Boécio, II.9)

[16] Boécio, II.7

[17] “… a felicidade independe da fortuna…” (Boécio, II.7)

[18]Greek Neoplatonism was by far the most important for him.” (Marenbon, 11)

[19] “Ele, o Criador, quis que os homens estivessem acima de todas as criaturas terrestres, e vós vos aviltais colocando-vos abaixo do que é mais vil.” (Boécio, II.9)

[20] Com efeito, cada um considera que aquilo que busca acima de tudo é nada mais que o bem supremo. Mas nós

tínhamos definido bem supremo como sendo a felicidade; dessa forma, cada um considera que a felicidade reside naquilo que deseja mais do que qualquer outra coisa. Assim, tens sob teus olhos as diversas formas de felicidade que os homens concebem: riquezas, honras, poder, glória, prazeres.” (Boécio, III.3)

[21] “Todas as coisas procuram buscar suas origens ∕ E, ao reencontrá-las, contentam-se; ∕ Elas não suportam um percurso durável ∕ Senão aquele que liga o fim à origem ∕ No processo de um ciclo inquebrantável.” (Boécio, III.4)

[22] “Para a verdadeira felicidade, a felicidade que teu coração vê em sonhos, mas que não podes contemplar tal como ela é porque tua vista se desvia para as aparências.” (Boécio, III.1)

[23] Plotino usa das mesmas premissas para explicar o Uno, que só pode ser percebido parcialmente por suas qualidades – de forma positiva ou negativa, sem, contudo, precisar o que realmente seja, ou não seja. O que é deus? Talvez a questão principal da humanidade, desde sempre presente.

[24] “Tu deves então admitir, devido ao mesmo raciocínio, que o uno e o bem são a mesma coisa: com efeito, as coisas que por natureza não provocam efeitos diferentes têm a mesma substância.” (Boécio, III.21)

[25] “…Aquilo que subsiste e move os seres criados chamarei pelo nome que todos lhe dão: deus.” (Boécio, III.23)

[26] “E volvendo à causa primeira que lhes deu o ser.” (Boécio, IV.12)

[27] “Acaso estás brincando comigo amarrando-me com teus argumentos num labirinto inextrincável? Ora entras pela saída, ora sais pela entrada. Por que semeias a confusão se vínhamos numa série de raciocínios admirável e de uma simplicidade divina?” (Boécio, III.23)

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