fbpx
Ação-Mente-Linguagem Filosóficos

A intencionalidade e a ideologia, em Slavoj Žižek

Abstract

A intencionalidade é explorada como partida para a ação, acompanhada por elementos que a precedem (conteúdos do sistema de crenças, principalmente) e aos que se destinam (a macro ideologia dominante).

Tais elementos anteriores e posteriores não são distintos ou autônomos entre si e, portanto, levam a uma reflexão sobre as instâncias da ação humana, de forma individual em que defenderei ser a partir de um sistema de crenças particular a um movimento de ação coletiva e social, a partir da macro ideologia defendida por Slavoj Žižek.

Para tanto, se faz necessário o entendimento analítico sobre a autonomia da ação inserida no sistema de vida humano-mediano contemporâneo, urbano econômico e político-conflituoso.

A intencionalidade será abordada em um sistema de elaboração e interconexões de relevâncias que a levam ao agir e, assim, a configurar uma pretendida abordagem para a liberdade da ação ou ao condicionamento da mesma frente a um determinante externo à consciência.


Palavras-chave:

Intencionalidade, ideologia, ação, livre-arbítrio, crenças, desejos;


Introdução – Žižek e a Intencionalidade

O exercício filosófico acerca da função da intencionalidade, no sujeito enquanto sujeito, ou seja, a individualidade inserida na ideologia, a partir de Žižek, não poderia ser (e não é) nada otimista[1]. Não há qualquer possibilidade, dentro de um espaço-tempo previsível, de um mundo utópico “surgir” como uma sociedade resultante completamente transformada, com base em sua Filosofia, pois há em sua essência uma negação implícita para qualquer receita rumo à “felicidade” ou à paz mundial. Por ter fortes heranças hegelianas, em si, possui uma função analítica e interpretadora, embora cáustica e cinicamente crítica, frente à História, e com poucas aberturas revolucionárias[2] capazes de gerar alguma outra proposta enviesada.

Um (nunca d’antes citado) mundo harmônico žižekiano, se hipoteticamente viável, seria surpreendentemente uma obscena[3] e absoluta ideologia com integral consciência de adesão de seus membros, o que nos oferece, como primeira e óbvia interpretação, ser uma utopia (ou sonho impossível). Pois, para Žižek, a própria ideologia, embora absoluta e imprescindível, é detetada como uma função fragilizada da ordem simbólica, com fissuras que permeiam a verdade, que afronta a todos que não estão a buscá-la como objeto de desejo.

A ideologia não leva a nenhum tipo de utopia, pelo contrário, ela é, em si, uma distopia, que cinicamente é revelada, camada a camada, a quem é intelectualmente capacitado o suficiente para tal, em comparações que transformam a perceção da realidade em puro surrealismo, tal como nos consagrados filmes de Buñuel, mas não só, que criticam tanto a ordem simbólica da burguesia quanto do cristianismo católico, a colocá-los em bolhas em que os entes não só enraízam as crenças, costumes e motivações, como também defendem até os extremos esta fração da ordem simbólica.

Não há como abordar a ideologia sem um link direto com a perceção captada do mundo. É preciso partir para uma observação prática, e Žižek faz isto com diversas formas de expressão social e cultura, artística, religiosa e política, pelas causas em evidência e as revoluções do passado, retiradas da História.

Eis que a busca última na Filosofia de Žižek, assim como na psicanálise de Lacan, é apenas conduzir o sujeito ao que é real (quando a verdade emergirá dele mesmo, de sua subjetividade castrada, e por vezes parece uma demanda em busca de algum Graal), com a missão de que esta verdade consiga ser suportável para o sujeito, para além das suas fantasias mais cristalizadas (algumas doentias ao ponto de produzir alienação e fundamentalismo) e sonhos, em que a ideologia faz com que ele tenha uma “visão”[4] impedida sobre a realidade.

Não há promessas, nem chances de cura ou ascensão a algum tipo de nirvana ou utopia que o valha, pelo contrário, há a possibilidade de atingir um espelho da verdade acerca de si e usufruir dos benefícios dos tais óculos especiais de John Nada, que anulam as distorções do real. Ultrapassar tais limites ideológicos só é possível com desejada evolução do grau de consciência do sujeito, que precisa ser dotado de algum tipo de critério intelectual para saber que está (e sempre estará, daí o que muitos consideram ser seu “pessimismo” filosófico-existencialista) fortemente inserido em uma ideologia, mas que poderá, ainda assim, desenvolver um juízo mais consistente contra o cinismo superior.

Talvez, intimamente, sua única esperança seja pela melhoria da ideologia que vigorará, e não da independência total do sujeito em relação às ideologias, pois isto não lhe parece ser provável, embora possível, e que abre um vasto campo de desdobramentos filosóficos, alguns dos quais serão abordados aqui. Mais “fácil” será alterar a ideologia (de baixo para cima, progressivamente) do que o contrário, embora, como supracitado, improvável.

Para tanto, dentro de um universo tão extenso em que Žižek nos insere, desde filmes B de Hollywood até clássicas composições de Beethoven, passando por autores tão próximos e conectados quanto distanciados e inacessíveis, a produzir um caos em que o próprio caos é a sua mensagem predileta acerca da realidade desejada, ficaria impossível uma busca estruturada nestes pontos desconexos, a frustrar uma teorização geral da ideologia apresentada de forma estruturalista, em detalhes rígidos. O dinamismo e a mutação são constantes.

E, por esta razão, escolhi um ponto em que se pode fundar uma observação menos instável e imprevisível: a intencionalidade, como elemento central para abordar o máximo possível de sua Filosofia, com objetivo de que a significação estrutural da ação humana possa ser uma convergência dos diversos conceitos simbólicos que serão possíveis serem abordados.

Sobre o tipo de intencionalidade a que me referirei, previamente podemos considerar que o sujeito age por algum tipo de gatilho, que pode estar baseado em motivações simples ou complexas, objetivas e/ou subjetivas, isoladas ou coletivas, mas sempre há a questão sobre se o agir está a exercer algum tipo de livre-arbítrio ou apenas a fazer um papel em que sua ação seja determinada por um conjunto de causas prévias às quais não possui competência para não o fazer.

Uma antiga discussão que pode ser recuperada, renovada, tal como Žižek recuperou, a dar brilho e cor, é sobre o conceito de ideologia, muito desgastado desde as antigas aplicações comunistas (antes de serem esmagadas pelo capitalismo), como que desbotadas e acumuladas nos livros do “Partido”, também exemplo de grande outro, em alguma prateleira empoeirada e esquecida, nos porões do Kremlin.

A intencionalidade, todavia, será abordada, a partir de Franz Brentano (mas não restrita a este), como forma de significação ontológica, neste caso a direcionar para a reificação deste significado, ou em linguagem lacaniana, acerca do símbolo. Se para Brentano todos os estados intencionais são conscientes e todos os estados conscientes são intencionais, a intencionalidade é direcionada ao objeto, real ou reificado representativamente, e este passa a constituir, para o sujeito, um conteúdo intencional, uma representação de algo que possui algum valor significativo para o ator, que ao agir no devir, será o sujeito, ciclicamente.

Portanto, os estados mentais intencionais abrangem as representações mentais destas reificações, mas não só, pois ainda possuem os juízos acerca de tais representações e as resultantes emotivas sobre as mesmas, a colocar a intencionalidade mesmo acima da linguagem, como pode acontecer com os animais e com os recém-nascidos.

Nestes, o que irá diferir da intencionalidade de um adulto formado, com boa capacidade físico-mental, educado e com pleno domínio da linguagem será meramente a complexidade da intencionalidade. A linguagem, afinal, pode ser ambígua e enganadora, mas não a intencionalidade, que em última instância conecta o sujeito a uma significação do mundo, uma interpretação que pode ser somente sua ou compartilhada com outros, como a simbologia da ordem vigente, ou o espaço habitado, ou mesmo o exercício de suas vontades, desejos e crenças.

E eis que, a partir desta apresentação, de Slavoj Žižek e da forma de intencionalidade pretendida neste estudo, o trabalho se inicia com o objetivo de analisar sua Filosofia de uma forma diferenciada, como um observador próximo, sem pretensão de estar alheio à ideologia, mas ciente desta impossibilidade, de criar formas de perceber as conexões intencionais ao que se faz, a partir da própria Filosofia, enquanto objeto de uma intencionalidade imparcial e abrigado aos ataques das incoerências ideológicas.

A busca é, portanto, pela forma de desenvolver, se isto é possível, algum tipo de instrumental que dê não só o meio de perceber a realidade ao fazê-la emergir, como verdade, da própria dimensão humana, mas também o estímulo para que nela se possa ficar o máximo de tempo possível, pois somente nesta realidade é que ocorre a “verdadeira” Filosofia.


O que Žižek conceitua como ideologia?

Žižek foi fortemente influenciado por Louis Althusser, que interpretou contemporaneamente a situação de um agonizante comunismo, já em condição de sobrevida pelas próprias incongruências, forçado à viabilidade operacional marxista e que estava a se dissolver, como que pudesse transcender a uma situação em que sua própria ideologia não contivesse, em si, tantas brechas que permitissem a passagem da realidade.

Esta realidade, dura, implacável e cruel ao comunismo, chama-se capitalismo, que atualmente pode parecer bem distinto do daquela época, mas é essencialmente o mesmo. O capitalismo agressivo de antes deu lugar a um capitalismo com a ideologia mais aprofundada e mais agressiva, mas disfarçada em uma pretensa dissolução de seus vorazes mandamentos diluídos pelos sujeitos que o sustentam. Mas, ainda assim, dá a dimensão suficiente para analisar a realidade por trás do espaço simbólico compartilhado.

Pode-se dizer que o próprio capitalismo é um excelente exemplo do que Althusser desejava para o marxismo além-militância, em suas diversas instâncias, mais destacadamente o comunismo. O que ele desejava essencialmente era provocar (dispensable spoiler alert: e, obviamente não conseguiu) uma capacidade de reprodução tal qual o capitalismo possui, que na crise constante de seu próprio cerne de instabilidade estabelece uma espécie de relação dialética, que o faz transcender a si e a ampliar suas formas de exploração económica e política, que não só produz, mas principalmente reproduz, de certa forma, a ideologia capitalista. A crise é a própria essência do capitalismo.

Esta ideologia capitalista tem, por objetivo primordial da autopreservação, dissimular[5] o processo de exploração, apresentando-o como algo puramente processual da sociedade regulada pelos interesses supostamente democráticos. Esta ideologia se espalha por todas as instâncias sociais, a partir da estrutura do Estado (vale ressaltar que vale tanto para a superestrutura quanto para as infraestruturas), um ente presente, reificado, naquilo que fará parte da ordem simbólica.

Não por acaso, Foucault, logo no início de seu “Vigiar e Punir” deixa claro o processo de mascaramento[6] da execução da punição, pelo Estado, por crimes cometidos pelos cidadãos, antes abertamente mostrados e com máximos requintes de crueldade para que depois fossem sublimados da sociedade, como que escondidos sob o “véu da realidade”[7], separados dos aparelhos institucionais imbuídos profundamente de ideologia, verdadeiros operantes agora ocultos que objetivam esconder ao máximo ou mostrar o mínimo, sendo o castigo aos cidadãos marginais como algo meramente técnico, externo e desconectado do establishment, tal como Althusser destaca[8] como clara e objetiva função ideológica.

A ideologia em pauta, expressada por Žižek, pela sua intencionalidade, a partir de Althusser, portanto, passa por uma composição de características em que se pode destacar como uma teoria geral deslocada da história, não restrita aos meios de produção, mas profundamente conectada ao sistema económico e político instanciados. Tudo é permitido dentro deste sistema pseudoliberal, exceto aquilo que ameaça ou pode ameaçar a própria ideologia e colocar o sistema em risco (que o grande outro nos livre disso!).

Desta forma, a ideologia como uma teoria geral pode ser instanciada em níveis diferentes, e assume um significado como ilusão ou alusão. No aspeto da ideologia religiosa, vem a reificação de Deus, ou deus, ou deuses, ou até não-deuses (como em muitas causas ateístas, que veneram religiosamente o ~deus). Na ideologia nacionalista, a pátria. Tudo compartilhado, aceito e defendido ferozmente a quem adere mais fortemente a alguma ideologia, como em níveis, camadas, blindagens, desde uma ideologia familiar até uma universalmente aceita, variando apenas o grau de adesão do sujeito a cada uma destes níveis ideológicos que adota, a partir de seu interesse, ou que lhe é imposto pela sua inserção social.

E, tal adesão, e as consequentes ações[9] dentro desta ideologia, geram a materialidade da própria ideologia, reificada conforme Althusser descreve, passo-a-passo, este processo:

“(…) que a representação ideológica da ideologia é, em si mesma, obrigada a reconhecer que todo sujeito, dotado de uma consciência e acreditando nas ideias que sua consciência lhe inspira, ou aceita livremente, deve agir ‘segundo suas ideias’, portanto, deve inscrever nos atos de sua prática material suas próprias ideias de sujeito livre. Se não o fizer, não estará procedendo bem”.

E aos poucos, Althusser (e também Žižek) conduz a um percurso que levará ao indivíduo, ao ponto fulcral ao qual busco dar aqui significado à intencionalidade, como proposto. E, nesta proposta teórica coerente acerca da materialidade da ideologia, pelos atos praticados pelos sujeitos, dentro da ideologia, desaparece o termo “ideia”, pois perde o sentido uma intencionalidade essencialmente restrita, acerca de um determinado conteúdo mental intencional, fora de um sistema maior de crenças do próprio sujeito e às ideologias em que este esteja inserido.

Mas, em suas postulações, surgem novos termos, como práticas e rituais (como representações ativas, perfeitamente decifráveis a partir de uma filosofia para a ação que aborde as estruturas dos condicionamentos e hábitos), além de um terceiro termo, que é aparelho ideológico, o ente que representa a materialidade da ideologia, tal como a Igreja ou o Estado, e suas partes.

Como relevância da ação, a sustentar o dito no parágrafo supra, Althusser sustenta os termos: sujeito, consciência (eis a intencionalidade enquanto estados conscientes), crença (eis a intencionalidade enquanto estados intencionais) e atos. Tudo, portanto, está na complexidade da ação. Tudo, portanto, terá um valor considerável de intencionalidade.

E, acerca do sujeito, é definido por duas teses[10] conjuntas: (1) toda prática existe por meio de e sob uma ideologia, (2) toda ideologia existe pelo sujeito e para os sujeitos.

Pois, a ideologia existe sempre pelo sujeito, no singular, e para os sujeitos, no plural. O que significa que há de certa forma a cocriação da ideologia e esta, por si mesma, como um ente externo e independente dos sujeitos, define um lugar, ou papel, em que o sujeito precisa ocupar e representar, fielmente e com grande cobrança para que só não exerça suas funções, mas que faça todo o esforço possível para ser reconhecido neste exercício ideológico, denominado “reconhecimento ideológico” pelos demais sujeitos que estão interligados neste processo.

Eis a origem da intersubjetividade, pois é a conexão subjetiva de sujeitos que coadunam com a ideologia ao qual estão identificados, a exercerem seus papéis e a ocuparem seus lugares.

A simular o estilo referencial de Žižek, citarei o filme (não citado por ele) “O Anjo Exterminador[11]”, de Luis Buñuel, que aborda na prática com operam os sujeitos inseridos nas ideologias. Buñuel sempre se destaca por uma crítica requintada e ácida da sociedade, especialmente sobre a burguesia aristocrática e o cristianismo católico.

Neste filme, um grupo de cerca de 20 aristocratas chega para um jantar na casa de um deles, trajados a rigor, depois de uma sessão de ópera, e a noite se desenrola de forma tranquila com todas as previsibilidades e idiossincrasias, com cada um destes sujeitos assumindo um determinado papel típico burguês, em tramas interrelacionadas que evidenciam a importância do egoísmo social em busca de uma autoafirmação necessária à própria identidade ideológica. Tudo se desenrola desta forma, até enfadonha, até que chega o momento, às altas horas, de irem embora, após saciados do exercício de seus papéis totalmente interpretados. E, nesta hora, simplesmente não conseguem sair da sala em que estão, impedidos de, depois de imersos na mais profunda ideologia, se distanciarem dela. Estão completamente aderentes à “bolha”!

O mais impressionante é que as portas e janelas estão completamente desbloqueadas, totalmente disponíveis, mas eles não conseguem ir além daquele espaço simbólico em que estão inseridos, em limites autoimpostos. Isto representa, no surrealismo de Buñuel, o espaço simbólico reificado, que a partir daquele momento ficará desprovido de quaisquer tipos de meios de reprodução do status quo (não há mais a exploração com o proletariado, pois todos os empregados se foram, e os burgueses deixam de poder reproduzir pela exploração) e, portanto, condenado a ruir. E isto ocorrerá, pouco a pouco, a partir das relações humanas.

As relações entre as pessoas passam, gradativamente, a um nível de pseudocivilidade aristocrática à animalidade de sujeitos desprovidos de quaisquer princípios que os conectem. Fora da casa, uma multidão acompanha, a incluir forças de segurança, sem poder também adentrar a este espaço simbólico, por impeditivos igualmente psicológicos, como que a ordem social estabelecesse esta casta impenetrável para quem está alheio a ela.

Tudo, afinal, se degrada, pelos impeditivos práticos como a fome, a sede, os desejos e impulsos que não conseguem mais serem contidos, a morte natural ou provocada, seja em suicídio ou atentado contra a vida alheia a configurar o desprezo pelo próximo, em uma instância primitiva de uma vida ancestral, até um ponto em que a rutura social estabelecida com a ordem simbólica é total. Neste ponto, naquele instante em que conseguem ultrapassar os limites vigentes dos bloqueios imaginados na sala, os burgueses são apenas humanos desprovidos de ideologia (retornam à individualidade), mas não para sempre.

No intenso momento de fome, três cordeiros entram no recinto e, iconoclasticamente, são devorados, um a um, em alusão aos cristãos não aristocratas, ou inocentes proletários, quando as diferenças sociais são presentes frente a uma suposta “pureza” das classes proletárias.

Na última cena, todos auto libertos do espaço simbólico burguês da sala em que se passou a trama, participam de uma missa católica, em uma igreja, com várias outras pessoas, de todas as classes sociais e, ao fim da missa, ocorre o mesmo bloqueio psicológico que impedem a saída do prédio, a iniciar pelos padres, em tentativa frustrada de passarem pela porta da Igreja, novamente sem que nada físico os impeça.

Neste momento, o filme termina, a iniciar um loop, mas não termina o espaço simbólico que continua a existir, para eles, em uma abrangência maior do que a ideologia burguesa. Esta é a significação da ideologia que Žižek usa e abusa, e que se mostra como uma poderosa ferramenta de leitura da sociedade e também acerca do sujeito.

É importante perceber que o indivíduo, como citado por Althusser, será sempre sujeito inserido em alguma ideologia, antes mesmo de seu nascimento, como veremos a seguir.

Isto serve para perceber questões como a impossibilidade de se estar fora, por completo, da ideologia, como em O Anjo Exterminador, quando se desconectam da ideologia burguesa, mas ainda inseridos na ideologia católica que, por conseguinte, está inserida na ideologia de Nação, e sucessivamente, sempre em instâncias em que, mesmo não sabendo os exatos limites que alcançam, sempre se mostram materializadas pelos atos dos sujeitos.

As aplicações são infinitas. Mesmo nas contemporâneas (e importantes) questões sociais.

O movimento transgénero denuncia, como testemunhado por mim em uma recente peça teatral[12], que há injustiça por sua condição, ao declarar que “o meu corpo veio antes de mim”, ou seja, veio antes de um estado consciente de uma realidade exercida individualmente, antes de ser obrigada a ser uma sujeita (palavra estranha, mas que existe e precisa ser utilizada) inserida na ordem social cisgénero que equivocadamente acusa o movimento transgénero de criar uma “ideologia de género”, enquanto movimenta esforços contrários, alguns tristemente letais, para além das razões minimamente justificáveis. Há que se discorrer sobre isto.

E pelo simples motivo de que não está correto afirmar que exista uma “ideologia de gênero” que foi criada pela comunidade transgénero, mas não só, como dizem aqueles que lamentavelmente se oponham a tais questões.

A verdade, em si, a partir de um entendimento do conceito de ideologia, é que o sujeito precisa estar dentro de uma ideologia, necessariamente, e que esta ideologia, em diversas instâncias, prevê uma instância que já está pronta, formada, enrijecida, a ter um espaço para a indivídua que se identifica como “Renata” mas que se vê obrigada a exercer um papel de “Ricardo” não tenha opção sobre si mesma, e precisa ceder à ideologia de gênero vigente (a única que existe, de facto) e negar sua própria substância em missão ideológica de assumir uma forma com a qual não se identifica, pois são conteúdos incompatíveis.

Não é que a comunidade transgénera criou ou queira normatizar uma ideologia de gênero, pelo contrário, querem, de facto, sem o saber ou o declarar, demolir a ideologia de género que já aí está, e que sempre esteve. As convenções, a partir dos sujeitos e dos próprios aparelhos instituídos, desejam determinar, pelos meios mais opressivos, que haja a ocupação compulsória de um lugar que não querem para si.

A subversão[13] da ideologia é constante, tal como vimos que não há um “véu ideológico”, mas sim um “véu da realidade” a ofuscar a ideologia em sua mais pura forma de existir.

E, a partir do cerne da ideologia, em busca da manutenção do status quo, os sujeitos fazem de tudo em nome da ideologia em que estão fortemente aderidos (e a ideologia reificada em um “grande outro”) para que nada possa alterar a ordem simbólica vigente. É como se estivessem a terem poderes outorgados em nome da defesa desta ideologia, por vezes abjeta (alguns até pensam a ser como a personagem James Bond, investido com “licença para matar”, e a exercem vilmente a executar quem se nega a exercer este papel ideológico na ordem simbólica, em crimes abafados tanto quanto possíveis dentro das estruturas aparelhadas).

E não só justifica a ação, em si. Muitos, em função de manutenção deste mesmo status quo nada fazem, mas este nada fazer é em si um meio de não mudar, de não causar marolas que conjuntamente possam virar uma onda ou tsunami. Ficam em um estado de passividade em que alguém fará algo por si, a instituir o que Žižek chama de interpassividade, muito mais percetível pelas ações passivas dos agentes “politicamente corretos” das redes sociais, em que vociferam fortemente enquanto se beneficiam de todas as possibilidades desta mesma ideologia que supostamente está a combater. Lamentavelmente, este é o lado obscuro das ideologias pois há também o lado essencial, funcional, da sociedade.  

Desta forma, há uma justificação sobre a declarada transgressão de Žižek, considerado por muito como politicamente incorreto, acerca do fadado fracasso do ele considera como “politicamente correto” que é, a seu ver, equivocado pela própria necessidade subversiva da ideologia. Está a ser realista, sob seu ponto de vista, mas é percebido como um pessimista sobre o que está a pensar quando o que está a ser solicitado pelos movimentos é justamente o que já está instituído, redundantemente, e totalmente enraizado na ideologia vigente, com pouca chance de sucesso, pelas formas propostas. Os movimentos sociais precisam de uma visão mais acurada sobre com o que está a lutar, como efeito, pois não estão a mirar as verdadeiras causas com as quais são afetados.

Žižek se concentra na missão quase sobre-humana de descobrir a verdade que está por debaixo das ideologias na complexidade social atual, bem além do que Althusser legou (pois estava mais interessado em fundar as bases para uma teoria geral da ideologia), ao conceituar níveis desta verdade, a partir de uma determinação normativa da realidade e a atingir ou uma sobredeterminação ou uma subdeterminação, no aspeto ideológico.


A reprodução ideológica

O sujeito, para a ideologia, é a peça fundamental para a sua reprodução. Os esforços, portanto, são para que o sujeito continue a desempenhar seu papel e a ocupar o espaço que lhe é reservado. O sujeito cria, sustenta e defende a ideologia. A ideologia apenas existe pelo sujeito, que a reifica em um espaço simbólico e a personaliza em um grande outro.

Se há, na Filosofia de Zizek uma proposta de possibilidade (ainda que improvável, como visto) de revolução capaz de alterar a ideologia, está baseada integralmente no sujeito enquanto partícipe ideológico. Portanto, é preciso perceber o que é este sujeito enquanto peça de uma engrenagem, através de suas instâncias internas e externas, que o levam a formar uma intencionalidade mais autónoma, como forma de interação com o mundo, com significância suficiente a espelhar parte de si ou de seu todo.

E, por fim, é preciso perceber como a ideologia, através de seus aparelhos, controla o sujeito, de forma que este não perceba tal controle, e continue a reproduzir continuamente a ideologia, tal como expressado, perpetuando-a. Mesmo que a reprodução, em Althusser, seja direcionada a um modelo económico dos meios de produção, é bem claro que o papel da classe operária, a massa populacional, se faz presente em importância operativa, numa relação tanto materialista-marxista quanto hegeliana, em relação ao escravo-senhor.

O pré-sujeito, ou o indivíduo, hipoteticamente desconectado da ideologia, em seu estado quase animal, dotado de todas as potências humanas, em seu estado mais primitivo, possui alguns elementos que devemos considerar para entender o environment no sujeito em que a ideologia se instalará.

A dupla “crença e desejo” é primordial para toda e qualquer ação. As questões primordiais, ainda instintivas, são os níveis de sobrevivência – a crença na ameaça externa que lhe ceifará a vida, na vulnerabilidade constante pela imprevisibilidade do devir, com o desejo associado de continuidade, de perpetuação. Em resumo brevíssimo, por não ser o objetivo deste ensaio, mas apenas como parte necessária para a justificação da questão da intencionalidade, como declarada, é preciso perceber que sentimentos/emoções geram e derivam desta dualidade crença-desejo.

Uma crença profunda em algo é ter a certeza deste algo enquanto “sabedor”. O fundamentalista, portanto, aquele que “sabe” (pois assim considera) antes mesmo de conhecer (o conhecimento é até dispensável). Pois é alguém que possui uma fonte de informação em que não pode haver dúvidas acerca da veracidade – o saber vem de uma instância superior, perfeita, divina, seja por um insight interno ou externo: algum tipo de revelação.

E, ao considerar uma crença, temos que considerar uma emoção fortemente aliada a esta instância, que é o medo. O medo está intrinsecamente ligado às crenças, em todas as suas variações e intensidades. Só se tem medo ao acreditar em algo. O medo não surge sem nenhuma crença prévia, pois é essencialmente dependente da imprevisibilidade do devir.

E, da mesma forma, só se tem culpas pelos resultados dos desejos, sejam objetivos ou subjetivos, após o filtro dos juízos, que em última instância são igualmente crenças capazes de moldar e avaliar as ações, por critérios diversos. Se o indivíduo sente culpa por algo, foi por algo que fez, que está a fazer ou fará, ou mesmo por algo que está apenas a pensar[14] em fazer.  Há sempre o “algo”, uma ação reificada, com conteúdo intencional representado, portanto.

Tal qual estabeleceu Agostinho de Hipona previamente, ainda na Patrística, que tratou o objeto de culpa[15] (desejos culpáveis), ou pecado, pela ação maléfica, que poderia incutir um desejo pela ação pecaminosa em si, dotada de paixão, ou mesmo um sentimento de culpa por uma ação tomada a cabo sem paixão (autodefesa, por exemplo, mas imbuída de alguma outra crença que sustentasse a ação, como o medo).

Mas, é importante perceber que mesmo a culpa em ações não intencionais não deixam de serem movidas pelo desejo ou crença associada, neste caso, não por ter feito a ação, mas pelo desejo de não a ter feito, que é o arrependimento. O desejo, de forma objetiva ou subjetiva, está sempre presente nas culpas, direta ou indiretamente.

Existe, ainda, a vontade como força de autoafirmação, da identidade pessoal enquanto relação de poder, a cumprir uma função final que levará à ação. Por esta necessidade de autoafirmação, de estar no status quo a ocupar seu lugar e a representar seu papel é que aquele que está fora desta intencionalidade ideológica tem, em si, a vergonha, que é sua exposição enquanto um não aderente ao sistema estabelecido e normatizado.

Além da vontade, poder-se-ia citar a volição, como instância racional de uma ação de livre-arbítrio em que as demais instâncias (crenças, desejos e vontades) se fazem conscientes e racionais, crivadas por um juízo em que a própria perceção[16] da ideologia a qual está inserido esteja presente.

Acredito e defendo que somente com a volição atuante, assim definida, é que uma ação pode ser considerada mesmo de livre-arbítrio, para além do determinismo que permeiam as outras instâncias inferiores da ação, a configurar não uma ação de livre-arbítrio, mas sim condicionamentos, vícios e hábitos, mas não só.

Perceber a estrutura[17] da ação humana é perceber a perversa mobilidade da ideologia, simbiótica com as próprias fraquezas humanas, a resultar que a ação não seja um livre-arbítrio. Assim como nas ações políticas e religiosas, frequentemente expostas por Žižek, através de aparelhos ideológicos tão sui generis, à primeira vista, como por exemplo a “indústria cinematográfica capitalista”, sediada em Hollywood, em que as tramas sempre acontecem em duas instâncias distintas – uma objetiva, com temática atrativa, que pode ser ficção-científica, aventura, western, comédia ou drama, seja lá o que for, mas sempre como a atratividade para que o público consuma o conteúdo, e outra instância sutil, subjetiva, disfarçada, em que trata o tema aparentemente secundário mas que é, de facto, o mais importante enquanto mensagem institucionalizada da ideologia.

É possível explorar outros casos que servem de exemplos, como as questões da instituição religiosa “Igreja Católica”, responsável por uma ideologia fortalecida na Idade Média ainda arraigada forte e profundamente em nossa sociedade ocidental, com determinados valores e crença que ainda persistem mesmo em países atualmente ditos laicos. Mas a crítica não é pela instituição em si, ou pela sua causa essencial, mas pela sua ideologia resultante, e assim restringirei a análise acerca de Hollywood.

Mas, de ressalto, o medo do Inferno, ou a culpa pelos pecados que, na mente do sujeito católico mais aderente à ideologia, serão o convite compulsório a passar a eternidade lá, ao cerrar definitivamente os olhos no derradeiro rito da morte, são elementos de controle tanto quanto o medo que habilmente Hitler conseguiu consolidar nos alemães, com seus espíritos derrocados pós-primeira-guerra, ao direcionar a culpa pela derrocada germânica nos comunistas e nos judeus. Aniquilados os primeiros, restava o segundo grupo. E assim conseguiu igual instrumento de controle e poder, a instituir uma ideologia com base no mesmo, que tanto poderia ser antissemita quanto antialienígena, ou contra os ácaros, conforme o pacote publicitário a ser apresentado. Quando o medo é substanciado e concentrado, os desejos pela fuga ou aniquilação da suposta causa deste medo, em cenários que vislumbram o prazer e a máxima sensação de segurança e conforto, se mostram imperativos e a ideologia apresenta a “solução” como objeto de desejo, em si. O sujeito, então, pode ser docilmente controlado dentro da ideologia através de seus aparelhos. E quanto à intencionalidade, afinal?

A intencionalidade sofre, obviamente, mutação quando seus conteúdos internos (representações, juízos e emoções) são provocados e manipulados forçosamente pelos entes ideológicos. Tudo que está fora da ideologia pode ser reprimido se se constitui em ameaça, passa à condição de culpável e gera um sentimento de medo, de incerteza. Como, por exemplo, no caso da pornografia, que embora não seja exemplo utilizado por Žižek, mostra como esta correlação de crenças, desejos, culpas e medos atuam fortemente.

Neste caso, quem consome pornografia e é mais aderente à ideologia da moralidade religiosa[18], ou outra qualquer que fomente um acentuado juízo contrário e perverso à pornografia (sim, e cinicamente esta aversão[19] ideológica em relação à pornografia está impressa à ideologia capitalista atualmente vigente), se declara mais facilmente como viciadas do que as pessoas que estão descoladas de nossa ideologia com base nos valores morais. O medo, a culpa e a vergonha levam estas pessoas a um estado tal de se acusarem viciadas.

Isto ocorre, espantosamente, independente da quantidade de acesso a conteúdos pornográficos que cada um assume como tal. Assim, é perfeitamente concebível perceber que mesmo aquele sujeito mais aderente à ideologia moral-cristã que raramente aceda a conteúdos pornográficos se declare um viciado[20] em pornografia, culpado (mas não condenado) a ir para o inferno, mais acentuadamente do que os demais que até podem aceder em número maior conteúdos pornográficos, mas que não estejam inseridos na moral religiosa opressora. Isto é configurar uma [incongruência moral] como resultante da atuação dos valores impostos pela ideologia, a gerar culpa e medo, mas não só, pois também gera vergonha.

Assim, a retornar ao caso de Hollywood, enquanto os roteiros dos filmes oferecem a diversão nas tramas bem desenvolvidas, com seus efeitos especiais e fotografias impecáveis, os valores morais ideológicos se infiltram subliminarmente, em especial aqueles que conduzem à manutenção do status quo, como a consistência do consumo, do crédito e da manutenção da nação e do patriotismo, da união da família e dos valores conservadores em prol de uma sociedade idealizada e normatizada, obediente e cumpridora de seu papel sócio económico, a gerar crenças e desejos, mas também medos.

E, estes sentimentos manipuláveis são convergentes para algum ponto central em que a única solução esteja na manutenção da ideologia, pois esta possui a “solução” e a “redenção”. O sujeito católico que se vê em estado de pecado por ter consumido pornografia, por exemplo, ou transgredido alguns dos Mandamentos, se sente simultaneamente perdoado pelo grande outro, no caso Deus, que lhe tira o pecado em troca de algum tipo de declaração de arrependimento, que leva a uma maior dependência e aderência à própria ideologia. Portanto, estar na ideologia é ter uma espécie de indulto permanente para todos os pequenos “pecados” (que são apenas um conceito inofensivo, geralmente) advindos do excesso incentivado e disponível, mas sem nunca ser contra a macro ideologia, contra algo que a coloque em risco.

Žižek expõe esta relação, classificada por ele como a verdadeira obscenidade da ideologia, como a instanciação do grande outro como um elemento essencial da ideologia, a compor o espaço simbólico do permitido e que leva o sujeito a uma maximização dos seus prazeres, em nome deste grande outro.

Afinal, questiona Žižek, que função teria este grande outro sem que o sujeito não lhe desse uma função teleológica? O que seria de Deus, por exemplo, se não houvesse mais o pecado, ou a necessidade de perdão? Se fosse uma conta de operações matemáticas, poder-se-ia dizer que esta conta fecharia, precisamente, maquiavelicamente, pelos fins justificarem os meios.

Enquanto o sujeito se mantém controlado dentro da ideologia, sem que o perceba, todavia, garante a capacidade autorreprodutiva dela própria, pela ação do si próprio que, de tão dependente, passa a defender ferozmente seu território, ou espaço simbólico, tal qual um animal acuado a defender seus domínios daqueles que são estranhos a ele, e que podem trazer algum tipo de risco ou instabilidade. Daí, negam-se a aceitar a verdade e a realidade, as maiores vilãs do status quo.


Da Intencionalidade à intersubjetividade: o environment žižekiano

Do indivíduo plenamente autônomo, nas fronteiras do solipsismo, ao sujeito inserido em complexo ideológico, a intencionalidade se altera. Pois o indivíduo, a se enquadrar cada vez mais na ideologia, submete a si mesmo uma castração, no sentido freudiano, enquanto individualidade. É o preço que ele paga para estar inserido na ordem simbólica.

A intencionalidade do indivíduo pode ser percebida a partir dos seus próprios conteúdos mentais, sua própria experimentação, desde terna idade até uma crescente adesão à ordem social. De facto, o indivíduo já nasce inserido em um determinado espaço em que seu papel pode estar definido mesmo antes de seu nascimento como, por exemplo, pais que desejam uma determinada profissão ou algum destino ao filho, alheios às liberdades individuais de escolha, ou mesmo a identidade de género, ou qualquer outra condição contrária.

Quanto mais aderente à ordem simbólica, menos de si se expressará, e maior será esta castração visto que estará menos resistente a aceitar e a vivificar as convenções sociais, a separar-se cada vez mais do seu objeto primeiro de desejo. Desta maneira, percebe-se claramente que a enfermidade do sujeito, se assim pode ser descrita, advém justamente de sua adesão ao processo civilizatório, a afastar-se de si, de suas tensões e pulsões, de sua própria aparição[21] quando a refletir-se em um espelho, bem a sua frente, sem que possa imediatamente identificar a si próprio, em um primeiro momento, que aquela imagem seja sua própria representação, ou mesmo apenas um espectro de si.

Esta ordem simbólica constitui uma integração daquilo que são as regras e funções formais e informais da sociedade ou da instância a que uma comunidade é abrigada e representada, muito mais do que uma espécie de determinação constituinte não-escrita da sociedade. Esta instância só é possível por cada subjetividade nela inserida, ou seja, cada sujeito, ao estabelecer entre si e entre todos os demais ligações que configuram a intersubjetividade.

A questão é que não há primazia entre a intencionalidade e a intersubjetividade pois, a rigor, não se pode determinar qual infere outra, visto ser um processo recursivo, constante e incessante. O sujeito não fica anulado completamente (não chega a ser um vivo-morto), pois sua imaginação é o que lhe resta de uma individualidade ainda não expressa. É nesta imaginação que lhe surge a criatividade como alternativa, como a interpretação (ou reinterpretação) da fração da realidade que ainda lhe seja acessível, a partir do simbólico em que esteja aderido.

Esta intersubjetividade é estabelecida pela linguagem, em todas as suas instâncias, sejam elas conscientes, inconscientes e também as reprimidas, aquelas não pronunciadas, que muito fazem pela manutenção do status quo e da identidade ideológica.

A linguagem não expressada é uma linguagem perfeitamente compreensível, pois permite (e evidencia) que todos possam manter consigo a castração autoinfligida para estar na ideologia. Imagine se há em um grupo de pessoas, em um recinto fechado, com um tema velado (pela sua intencionalidade indesejável, rejeitada) em que todos saibam de alguma “verdade abjeta”, mas que nada seja expresso acerca disso, como uma espécie velada de tabu. Se alguém proferir em linguagem expressa, consciente, esta verdade, trazendo-a à luz da consciência geral, causa um espanto coletivo e um mal-estar generalizado. Isto pelo simples motivo de que, a partir deste momento, todos não mais poderão fingir que não sabem acerca do facto, e há uma espécie de quebra de decoro instaurado, em uma desintegração momentânea da conexão, tal qual o loquaz menino, na fábula de Hans Christian Andersen (1805-1875), declarar que o Rei estava nu, enquanto todos fingiam ver as vestes reais, supostamente visíveis apenas para os inteligentes.

A intersubjetividade operante leva à formação do espaço simbólico com limites muito precisos tanto quanto maior for o grau de aderência ideológica. E algo muito peculiar passa a existir, que é a reificação do entre transcendental, inserido numa ordem simbólica instanciada, a partir deste espaço estabelecido, que é a ideologia e o grande outro.

Poder-se-ia dizer que a ideologia é a materialização da ordem simbólica, uma reificação necessária à compreensão dos sujeitos enquanto participantes, o símbolo em sua mais profunda expressão. Esta reificação é justamente pelos ritos, procedimentos, rotinas que são estabelecidas. Assim, a ideologia católica se materializa nos ritos e procedimentos das orações, ao fazer o sinal da cruz, ao levantar-se e ajoelhar-se nas missas, estas também uma substancialização. Em referência à pátria, a simbologia da bandeira nacional (uma desonra e crime é atentar contra um pedaço de pano que é algo muito além disso, o Pavilhão) ou do hino, dos monumentos, das edificações e por aí vai. O Partido? O hino da Internacional Comunista!

O sujeito possui algo materializado, quase tangível, mas não há um rosto, uma personalidade, e neste momento surge o grande outro, que é a expressão da personalidade desta ideologia, pela necessidade humana de personificar tudo o que interage, tal como colocar nomes em carros, “batizar” logradouros, festejar eventos etc. Assim, supre parcialmente a necessidade humana de ter uma testemunha para que possa se reportar, possa interagir, ser aceito, se confessar ou mesmo dar algum sentido transcendental à própria existência incerta.

O próprio dever ético do imperativo categórico kantiano não existe sem a universalidade, sem o outro, sem um espelho da própria condição. Uma questão interessante é que se haveria ação ética se o homem não estivesse a ser observado por ninguém, nem por Deus. Pois mesmo sozinho, o homem ainda conta com esta personificação do grande outro, como se a ideologia estivesse com ele indefinidamente a acompanhar seus passos, a julgar, a justificar, a ajudar ou a castigar se necessário, tal como o Big Brother do livro 1984, de George Orwell, de 1949, e também do filme, de 1984, que, sob a ótica do grande outro e das modernas tecnologias de rastreamento digital, nem mais é “tão” distópico como foi no passado recente.

Mas o que ocorre é que este monitoramento psicológico do grande outro impede a possibilidade de um prazer secreto e proibido (sempre os melhores, por juízo próprio) e nem mesmo um prazer meramente tolo, pueril, inocente e singelo, pois a própria vergonha pode impedir que este prazer se manifeste enquanto se está a ser “observado”. Sempre há a sensação de algum tipo de exibicionismo enquanto se age e talvez por isso justifique-se a completa adesão aos exibicionismos de muitos nas redes sociais, expondo algo que representa sua verdadeira identidade (diferente de sua enfadonha e tacanha representação cotidiana), pois o que estão a projetar são suas próprias fantasias.

Este terceiro imaterial, este grande outro, ao personalizar a ideologia, permite uma interação psicológica, catártica ou epifânica, e embora impeça o objeto primeiro do prazer do sujeito, abre-lhe as portas para as mais obscenas ações em nome deste terceiro.

Não por acaso, se cometem os maiores “pecados” alegados “ditados” por Deus – como o matar o próximo – em nome do próprio Deus, quando o sujeito se sente investido da própria vontade do grande outro. Age por Deus, pela Nação, pelo Partido, pela ideologia, por tudo, como que tivesse total legitimidade a partir de uma instância fundamentalista a cumprir, a beber de uma fonte de conhecimento superior e transcendental, a cumprir sua função divina acreditando ser pelo “bem maior”. O inferno, se existisse (ou talvez “exista”, para os que creem), estaria imbuído de um grande dilema ético-filosófico para convocar aqueles que lá estariam pela eternidade, pois os argumentos de agir contra e a favor, simultaneamente, são complexos, tal como revelou Hannah Arendt (1906-1975) acerca da banalidade do mal, em que uma instância superior foi tida como determinante nas ações individuais e coletivas contra a humanidade no decorrer do Holocausto, a alegarem inocência enquanto meros agentes cumpridores de ordens desta força superior, quase “divinal”, em lamentável episódio de nossa História.

E, assim, tudo passa a ser consumido sem substância. Žižek nos exemplifica: O mal sem o “mal” – café sem cafeína, pão sem glúten e o que mais se pode trazer, mesmo polemicamente na Filosofia, ao revirar o estômago de muitos ainda hoje, ao considerar Heidegger sem o nazismo ou mesmo Althusser sem o discutível assassinato de sua esposa.

Não há uma critica ou julgamento moral nesta abordagem (longe disso), mas uma autocrítica enquanto todos se enquadra, enquanto humanos, sem exceções, e apenas expõe que a “dessubstancialização” é, de facto, uma fuga para o cerne do capitalismo (que se aproveita desta nossa forma de ser), ao incentivar o consumo daquilo que se deseja consumir, a uma busca extrema pelo gozo, sem que o mal cause qualquer desconforto com o prazer instanciado em último grau, pois há a redenção oferecida pela própria ideologia. Para todos os excessos, há uma justificativa, há uma redenção, e muitas delas já embutidas no objeto de desejo, previamente ressignificada com a intencionalidade desvirtuada pela ideologia.

E, assim, se consome sem que o “mal” esteja presente, pois como escreveu Marx[22], um produto nunca é apenas um produto, pois incorpora em si algo mais, um sentido superior – ou apenas uma intencionalidade com conteúdos, juízos e emoções muito bem consistentes. O consumo é um relato, uma forma de comunicação, de autoafirmação, e nunca é neutro. Ao consumir algo, o sujeito afeta a própria intencionalidade (sua e de outros) acerca do produto consumido, e isto é uma representação simbólica. Isso fica muito claro nos constantes fetiches da moda, em que peças emergem de um estado normal a um objeto generalizado de desejo, a partir de algum “influencer” adotar uma “nova” intencionalidade declarada para este objeto, a alterar a intencionalidade dos que estão suscetíveis a esta deturpação fetichista.

O inusitado é que, tal consumo, é feito sobre a pressão do grande outro, sob a custódia da ideologia, mas sem que o sujeito se perceba como controlado, como direcionado a este ato extremo de consumo, acreditando ser todo o seu movimento realmente voluntário e livre, isento de quaisquer obrigações transcendentes. É uma das faces da troca simbólica, sendo o consumo uma das formas de linguagem, e das mais importantes, portanto.

Consumir é escolher. Consumir, portanto, nesta significação, como nos aponta Žižek, é uma meta-escolha: uma escolha acerca da própria escolha e que muda as próprias dimensões sobre os juízos e emoções e passam a alterar o conteúdo intencional que se possui. E se condiciona, se auto normatiza, se expande e se extingue, se renova, em uma dinâmica intensa como que estivesse a interagir com o grande outro, ou outro interlocutor: “eu escolho este produto desde que o fabricante esteja de acordo com a minha visão ecológica”, ou “eu escolho você para me relacionar desde que você assuma determinada posição social ou afetiva”, etc.

Sempre uma escolha, uma decisão, uma ação em conformidade com as normas do grande outro, com a interação condicional que representa a própria adesão à ideologia. Pois o grande outro é uma versão de sujeito onisciente, ou, na linguagem lacaniana, o “sujeito suposto saber”, tal como é o psicanalista para o paciente. Este sujeito suposto saber é assim interpretado essencialmente a partir dos sentimentos, e muito pouco da razão. O sujeito constitui esta dimensão de grande outro com as emoções e justifica suas crenças com a razão. Acredita no grande outro e, somente depois, estabelece os critérios que podem eleger o que se chama de provas, “racionais”, mas desde que não subvertam a crença já emocionalmente estabelecida – justamente o que recomendou Agostinho de Hipona[23], ao propor à Evódio que primeiro viesse a crença em Deus para depois construir a justificação. Por isso muitos veem manifestações de santos em fatias de pão de forma, em nuvens, e em outros espaços nada convencionais para uma manifestação extrafísica, se é que haja alguma possível.

O problema é que este grande outro é inconsciente. É também imóvel. É um vazio ao qual o que se percebe dele são apenas ecos dos próprios sujeitos que projetam e recebem algo ininteligível em troca. E, com isso, o destino não desejado sempre será percebido pelo sujeito não como o encontro com a realidade, com a verdade das coisas, com a imprevisibilidade, mas sim com algo que faz de si uma vítima passiva, a receber um determinado “castigo” por algo que fez sem poder fazer ao contrariar o grande outro. E, tal realidade, dura e cruel, leva o sujeito aos estados de interpassividade, quando assume uma função em que terceiriza ao outro suas ações, em um grau mais acentuado de adesão à ideologia, a acatar mais profundamente os mandamentos do grande outro.

Não só do grande outro, mas também do apenas outro com quem se relaciona em sua vida pública ou privada, daquele que é também sujeito e inserido nas conexões intersubjetivas. Assim são as relações afetivas. E, com tais relações, vem a formação das fantasias.

As fantasias não são delírios ou devaneios desprovidos de sentido, pelo contrário. Há uma intencionalidade forte em cada fantasia e esta tem estrita correlação com o que o sujeito espera do outro, ou o que o sujeito espera o que o outro seja. Simplesmente, a fantasia é o resultado do desejo do outro – seja o que é declarado ou mesmo suposto ser. Tanto pelo outro, tanto para o grande outro.

A fantasia passa a subverter a dualidade entre o que é objetivo e o que é subjetivo, como que mesclasse tudo em algum tipo de emaranhado psicadélico em que está fora da normalidade da perceção do sujeito. Nesta teia, o inconsciente emerge pelas crenças e suposições acerca deste outro e irão determinar o que será dos pensamentos, ações e sentimentos sobre o outro, podendo levar, inclusive, a estados alterados emocionais, como as experiências passionais intensas, impactantes, embora fugazes, das relações amorosas, por exemplo, ou epifanias religiosas.


Conclusão: Žižek busca a crença autêntica do sujeito tendo a ética como filtro ideológico

Sofia Miguens sintetiza sobre o projeto ético[24] de Žižek, ao estabelecer a centralidade desejada no sujeito, inserindo-o no cerne da experiência, apesar de sua imaterialidade. Afinal, Žižek quer subverter a própria subversão vigente, obscena e instituída como politicamente correta.

Por isso, busca sempre se fazer percebido como politicamente incorreto, mas tal qual suas deduções filosóficas, sem o mal substanciado presente. Desta forma ele é contra o feminismo, mas sem ser um chauvinista. É contra a política de gênero, mas sem ser preconceituoso ou insensível à condição dos que buscam e precisam de igualdade. Estas barreiras vêm das ideologias. Sua “luta” não é contra as diferenças, os efeitos, mas justamente contra as causas. E nisso se mostra um estrategista por excelência, coerente, e com quase todos os méritos.

E isto, como resultado, é mal interpretado por todos os lados, em todas as suas posições, como quando diz que a esquerda tem uma certa ojeriza por ele, tanto quanto a direita, sem um espaço para ocupar nestas ideologias. E, por mais incrível que pareça, este é justamente seu objetivo.

Pois, em última instância, a ordem estabelecida é ideológica. Sempre a posição será contrária à ordem simbólica, à possibilidade de atravessar esta ideologia para que se alcance a realidade, em uma condição de verdade que seja necessária e suficiente ao existir humano, a restar apenas o homem enquanto homem, enquanto indivíduo, e toda a verdade e realidade, que em verdade não lhe são exteriores, emergirá de sua própria subjetividade.

Žižek é um pensador que nada trouxe de novo na Filosofia, a rigor. O que faz de sua Filosofia ser diferenciada, com um certo ar de genialidade incompreendida, de acordo com minha avaliação, meu juízo pessoal, é ser algo costurado como uma reinterpretação sistêmica, cíclica, de conceitos que buscam a compreensão do sujeito e da realidade em que este está inserido, em uma estrutura clara e funcional, em que toda a dinâmica é exposta com interlúdios da vida cotidiana, da expressão artística e cultural, do processual consumista, do afrontamento ao capitalismo, ao marxismo, às religiões, às formas de participação e isenção social.

Um caos desconexo em que Žižek quer interligar. Mas não seria correto afirmar que quer dar sentido ao caos, ou organizá-lo. Mais certo seria dizer que deseja ampliar o caos, ao desfazer toda a tentativa pregressa de organização, com a “simples” missão de dotar o sujeito com uma consciência de estar inserido neste caos, de ver o caos como caos, e ter a liberdade de agir por conta própria, e emergir sua essência de si mesmo, e afinal percebê-la.

Ou talvez, apenas talvez, a “boa” Filosofia seja aquela intencionalmente sem perspetivas.


Bibliografia:

Agostinho, Santo, Bispo de Hipona. O livre-arbítrio. Tradução, organização, introdução e notas Nair de Assis Oliveira. Revisão de Honório Dalbosco. Editora Paulus, São Paulo, SP, 1995.

Althusser, Louis. Sobre a reprodução. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Vozes, Petrópolis, RJ, 1999.

Durkheim, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália / Émile Durkheim; tradução Paulo Neves. Martins Fontes, São Paulo, SP, 1996.

Foucault, Michel. Vigiar e Punir: O Nascimento da Prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Vozes, Petrópolis, RJ, 1987.

Grubbs JB, Lee BN, Hoagland KC, Kraus SW, Perry SL. Addiction or Transgression? Moral Incongruence and Self-Reported Problematic Pornography Use in a Nationally Representative Sample. Clinical Psychological Science. 2020;8(5):936-946. doi:10.1177/2167702620922966 <  https://doi.org/10.1177/2167702620922966  >

Jacquette, Dale (ed.), The Cambridge Companion to Brentano, Cambridge University Press, Cambridge, 2004.

Miguens, Sofia. Uma Leitura da Filosofia Contemporânea: figuras e movimentos. Edições 70, Lisboa, 2019.

Žižek, Slavoj.

Acontecimento – uma viagem filosófica através de um conceito. Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2017.

Como ler Lacan. Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2010.

Em defesa das causas perdidas. Tradução de Maria Beatriz de Medina. São Paulo, SP, Boitempo, 2011.

Menos que nada – Hegel e a sombra do materialismo dialético. São Paulo, SP, Boitempo, 2013.

Violência – seis reflexões laterais. Boitempo, São Paulo, SP, 2014.


Notas



[1] Acerca do otimismo e do pessimismo, não seria totalmente adequado o uso destes adjetivos para classificar a Filosofia de Žižek, embora sejam palavras comumente utilizadas por comentadores, e assim também o farei, por vezes, por falta de palavra mais adequada. Se considerarmos estes adjetivos, respetivamente, como um excesso e uma falta de possibilidades a partir da realidade oriunda de uma sucessão de factos acontecidos, em si, há necessariamente um afastamento dos juízos do que seja o real, para além de sua veracidade. A busca de Žižek, como veremos, será pela própria realidade tal como é, ou seja, pelo real em si, mas não a realidade (como verdade) vislumbrada como a coisa em si kantiana, mas sim através de determinadas fissuras no espaço simbólico em que a realidade se mostra, e somente assim se mostra, de forma disruptiva, todavia, a impactar o sujeito inserido na ideologia distante desta realidade pelos filtros do otimismo ou do pessimismo, por exemplo. Portanto, devemos ter em consideração que ele busca, em última instância, a ampliação das fissuras que permitem aceder aos estados parciais ou alterados, pela ideologia, da realidade tais como o otimismo e o pessimismo, mas não só. Tais estados alterados da realidade, com abordaremos, pressupõem algum desejo projetado do sujeito, que culminarão nas fantasias.

[2] De facto, há alguma instigação revolucionária na Filosofia de Žižek, mas que depende de tantos fatores que tal suposta revolução capaz de transformar significativamente o mundo fica mais no campo da teoria do que na prática. A revolução de Žižek opera como um exercício em que serve apenas para destacar que os fatores que levariam à mudança são fatores que simultaneamente impedem as próprias mudanças de acontecerem, como a crise no capitalismo: “A lição dessas últimas décadas, se é que há alguma, é a indestrutibilidade do capitalismo – quando (já) Marx o compara a um vampiro, não devemos esquecer que os vampiros são mortos-vivos: sempre voltam a se erguer depois de feridos de morte. Até a tentativa maoista radical de varrer os vestígios do capitalismo através da Revolução Cultural terminou com seu retorno triunfal.” (Žižek, 2011, 3ª Parte, Capítulo 7).

[3] “Obsceno(a)” (obscene) é uma palavra constantemente citada por Žižek, mas sua definição vai além de seu estrito sentido semântico, de significar algo contrário ao pudor ou à moral. Pelo contrário, o obsceno žižekiano é, antes de tudo, algo lícito que sempre estará profundamente inserido nos limites do pudor, de acordo com as convenções vigentes, conscientes e inconscientes, legais e informais do espaço simbólico. O que está em causa, ao seu obsceno, é justamente o pudor em si, o gozo excessivo que está a ser desejado e incentivado ao sujeito, as valorações morais acerca da ideologia que apresenta uma normalidade convencionada que já é obscena em si mesma, com algum grau de irracionalidade tipificada como normal e profundamente em linha com a ordem simbólica instituída.

[4] Žižek cita o filme They Live, 1988, de John Carpenter, no qual o protagonista, John Nada, um sem-teto sem esperanças a levar uma vida em busca da própria sobrevivência, encontra um par de óculos em que o faz ver a mensagem oculta por trás das aparências, como nos anúncios em que há lindas imagens publicitárias e, quando do uso dos óculos, aparece apenas uma palavra ou curta frase, escrita em caixa alta, com uma ordem como “OBEDEÇA”, “CASE E REPRODUZA” ou ainda, no caso do dinheiro, “EU SOU O SEU SENHOR”, bem onde há a célebre frase escrita em cada dólar norte-americano “Em deus nós acreditamos” (In God we trust). Assim, Žižek despedaça as aparências óbvias da ordem simbólica e demonstra que há quem acredite em Deus e há quem confie em Deus, e nem sempre as duas coisas ao mesmo tempo. A ideologia participa disto, de certa forma, ao colocar Deus como um tipo de grande outro, que abordaremos aqui. Embora não haja, de facto, uma causa teísta, ateísta ou qualquer outra contra ou a favor à existência de Deus, este é apresentado como uma forma de ideologia, com a mesma dinâmica que formam o sistema de crenças entre o sujeito e a ordem simbólica.

[5] “Compreende-se o interesse dos capitalistas em apresentar o processo de produção como o contrário do que ele é: como processo puramente técnico e não como um processo de exploração; em apresentar as relações de produção com algo diferente do que elas são: como relações jurídicas e não como relações incluídas nas relações de classes e na luta de classes.” (Althusser, 1999, p. 68)

[6] “É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir. Daí esse duplo sistema de proteção que a justiça estabeleceu entre ela e o castigo que ela impõe. A execução da pena vai-se tornando um setor autônomo, em que um mecanismo administrativo desonera a justiça, que se livra desse secreto mal-estar por um enterramento burocrático da pena.” (Foucault, 1987, p. 14)

[7] Para Žižek, não há o véu da ideologia, o que seria mais óbvio. Não é a ideologia que mostra sua face dissimuladora, mas sim a realidade que insiste, em um jogo de forças subvertido, em “afastar” o sujeito da ideologia, através da fantasia. O que de facto, mostra que os sonhos não são uma fuga do que é real, uma imaginação do que é a massacrante realidade. Não é isto que acontece. A construção da realidade é uma fuga dos sonhos, que contém em si a mais profunda ideologia capaz de ser absorvida pelo sujeito. Por isso, uso o termo “véu da realidade” como que uma tentativa de busca da realidade pela fuga da ideologia.

[8] “Agora, podemos ir mais longe, mostrando que a assimilação da exploração à repressão tem, ao mesmo tempo, como consequência teórica e política, uma segunda redução: a da ação da ideologia à ação da pura e simples repressão.” (Althusser, 1999, p. 200).

[9] “(…) participa de certas práticas regulamentadas que são do aparelho ideológico do qual ‘dependem’ as ideias que ele escolheu livremente com toda a consciência, enquanto sujeito.”

[10] Althusser, 1999, p. 209.

[11] Buñuel, Luis. O Anjo Exterminador. 1962.

[12] Carvalho, Renata, em O Manifesto Transpofágico, FITEI 2021 – Sala virtual do Teatro Municipal do Porto – Tivoli.

[13] Uma importante característica primordial da ideologia é nunca se considerar ou afirmar que seja ideologia: quem está por dentro da ideologia não se identifica como parte de um tipo de determinismo, pois para a ideologia, o que é ideológico é sempre o que há fora da ideologia, ao assumir assim uma normalidade em que passa a ser institucionalizada. Percebamos, por exemplo, para as questões linguísticas, onde cada região geográfica que esteja inserida em uma determinada ideologia perceba a outra região com algum tipo de sotaque linguístico, e ficam a discutir, cada qual a alegar que o “padrão” é o seu modo e o outro é que está a subverter a língua. Funciona desta forma, mas apenas para ilustrar o que se pretende explicar. Este é um exemplo simples, em que a ideologia linguística é geralmente fraca, instanciada sem grande expressão quando isoladamente, pois não leva a nenhuma ação radical apenas por causa do sotaque. Mas, em casos extremos, conjugados com outros fatores ou com os sentidos profundos de patriotismo ou devoção religiosa sempre nos mostram o quão letal pode ser esta identificação como “diferente”, ao sujeito assumir uma posição que leva aos conflitos ideológicos e a diversos outros crimes mais graves.

[14] Brentano resgata um termo da Escolástica, que é a Inexistência intencional. Conceito que foi ampliado na Escolática (intentio, como algo reconhecido e diferente de si próprio), mas já observável na Patrística (enquanto “aquilo” diferente do criador e da criatura, que é, em essência, o mal – não criado por Deus, a provocar e a incentivar o pecado (exercício do mal) possível pela criação divina – a criatura, e portanto de natureza eminentemente boa e pura), que foi importante para a própria dimensão da abrangência do que seja pecado, pois apenas a intenção (com a intencionalidade), sem o ato em si (sem o objeto), já era (ou é) suficiente para constituir o sujeito como pecador, em uma hermenêutica religiosa cristã. (Como podemos perceber do termo em latim id quod et quo intendit, intus actionis, no qual podemos entender, com livre interpretação, como aquilo que é feito e pelo motivo que é feito, está dentro da ação e do agente). (Os termos da frase, aqui em latim, meramente ilustrativos, foram retirados da internet, via Wikipedia, sem as devidas referências acadêmicas).

[15] “Mas enfim, anteriormente à vontade, qual poderia ser a causa determinante da vontade? Realmente, ou bem é a vontade, ela mesma, e não se sai dessa raiz da vontade; ou bem não é a vontade, e então não há pecado algum. Logo, ou a vontade é a causa primeira do pecado, e nenhum pecado será causa primeira do pecado, e a nada se pode imputar o pecado senão ao próprio pecador. Logo, não se pode imputar justamente o pecado a não ser a quem seja dono da vontade. Ou, afinal, a vontade não será mais a causa do pecado e, assim, não haverá mais pecado algum.” (Agostinho. 1995. p. 207). (Atualmente, a vontade pode possuir uma significação diferente, por diversos autores, mesmo na Filosofia da Ação. Por isso, o que está a se referir no texto de Agostinho como vontade é, atualmente, mais facilmente percebido como desejo, como ele definiu por correlação com a concupiscência ou com as paixões da alma).

[16] Para Žižek, a consciência da ideologia não faz com que o sujeito possa rejeitá-la facilmente. Há, em suas teorias, como veremos, a consciência de que o sujeito sabe que é uma ação ideológica, mas a faz assim mesmo, consciente e convicto de que está a fazer o que é preciso fazer, sem nenhum tipo de juízo contrário.

[17] Não somente o modelo teórico apresentado, mas a busca de uma teoria geral da ação, uma estrutura em que seja possível, por exemplo, aplicar em um modelo autônomo, computacional, com passos de interação, processamento e resposta, tal como percebemos a inteligência artificial com a learning machine, acerca de inputs e outputs. Talvez a grande perspetiva teleológica humana não seja, em si, sua transcendência, mas sim alcançar um status de deus criador, em livre especulação filosófica descompromissada, mas interessante.

[18] “Elas são forças (religiosas) morais por serem construídas inteiramente com as impressões que esse ser moral que é a coletividade desperta nesses outros serem morais que são os indivíduos; elas traduzem, não a maneira pela qual as coisas físicas afetam nossos sentidos, mas o modo como a consciência coletiva age sobre as consciências individuais. Sua autoridade é senão uma forma da influência moral que a sociedade exerce sobre seus membros…. Vivificam as consciências e as disciplinam.” (Durkheim, 1996, p. 231).

[19] Pode parecer contraditório e mesmo cínico, dado os volumes de recursos movimentados com a pornografia, e também a quantidade de dados consumidos por ela (e isto não é uma defesa moral ou econômica da pornografia), pelas estatísticas de tráfegos pela internet que expôs o que era uma suspeição sobre consumo de pornografia não fez que ela fosse mais tolerável, mas apenas menos intolerável ou ignorada, pois vai contra ao status quo da moralidade religiosa para além do natural fenômeno social humano, e seria inocente pensar que tal influência não seja um conjunto bem orquestrado entre as ideologias das instituições religiosas e políticas. Conjunto este muito mais forte e mais presente em países com menores índices de desenvolvimento humano e PIB per capta, dentre tantos indicadores que podemos nos basear e que permitem a separação entre dois mundos bem distintos em que habitamos: o do progresso e o do retrocesso.

 

[20] Grubbs, Lee, Hoagland, Kraus, Perry, 2020.

[21] Em referência à conceituada obra literária de Vergílio Ferreira, Aparição, de 1959.

[22] Sobre o “fetiche da mercadoria”: Marx, Karl. O Capital. 1867. (e-book) Capítulo I, Secção 4. Boitempo, Rio de Janeiro, RJ, 2013.

[23] “Crer ainda que ele é o Criador de todos os bens, aos quais é infinitamente superior; assim como ser ele aquele que governa com perfeita justiça tudo quanto criou, sem sentir necessidade de criar qualquer ser que seja, como se não fosse autossuficiente. Isso porque tirou tudo do nada.” (Agostinho, 1995, p. 29).

[24] Miguens, 2019, p. 363.

Deixe um comentário

X