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Filosóficos

A teatralidade histórica, em Oliveira Martins

Parte I | Introdução – As forças histórico-intencionais de Oliveira Martins

Há que se perceber que há uma separação clara, em Oliveira Martins, no que se refere à necessidade de se diferenciar conceitualmente o que considera ser um espírito cético e um outro especulativo, a nível epistemológico. Em sua antologia, Temas e Questões, há a declaração intencional acerca desta separação[1] conceitual, a considerar, entre a filosofia da história, da ciência da história e da filosofia do espírito coletivo, ou da humanidade.

Esta filosofia do espírito coletivo, percebo, por falta de um termo apropriado e universal, poderia ser o que emerge da interação entre os princípios ditos individuais, a formarem uma coletividade. Ou ainda, reversamente, de um espírito superior, ontologicamente anterior à individualidade, a atrair esta para si e em seu entorno. De todas as formas, só se consegue conceber tal espírito como um conjunto compartilhado de crenças e desejos, de vontades e quereres, mas não só, que se somam, se limitam, se concentram e, afinal, se manifestam como um ente superior ontologicamente constituído e, por isso mesmo, transcendental. Alguns podem chamá-lo de Deus, de deus, de deuses, de ideologia, de motor imóvel, de governo, de pátria, de partido, de história, ou, ainda, de História que, em conexão “direta” com o indivíduo poderá levá-lo a um tipo qualquer de posição fundamentalista, ao se perceber como recetáculo de alguma instrução ou orientação advinda desta transcendentalidade superior e desconhecida, mas posicionada como real e influente, determinante, como se orquestrasse a participação de todos em papéis de uma peça na qual os atores se fazem conformes ao que se espera destes, funcionalmente. É este fundamentalismo que dá a dimensão ontológica à História, para aqueles que comungam desta forma religiosa de cultuá-la como pureza divina de factos, por exemplo.

Alguma reação era necessária frente à herança positivista, que estava, afinal, insuflada pela Filosofia, a cercear todos os conhecimentos que não eram, propriamente, ditos científicos, e até mesmo a intoxicar a veracidade pelo ceticismo exacerbado das coisas, para além dos factos, em si. Assim se dava com a dita ciência da história. Este era o embate entre o espírito cético e o especulativo. A história, assim situada entre as ciências e a metafísica, precisava ser resgatada e significada como uma expressão linguística atualizada, dada as condições da realidade vigente, a se configurar em uma verdadeira implicação para o mundo que, necessariamente, precisava ter uma explicação própria. A grande tarefa, vista por Oliveira Martins, para exercício funcional da história parece ser esta ordenação entre o que é a implicação e o que é a explicação, desde que o ponto de tangência, e de tensão, seja o evento histórico, em que possa emergir dali a harmonia entre o passado e o futuro, dado o presente determinado pelos factos, mas não só estes, e sim todos os contextos que tais factos se deram por existir, e a projetarem.

Por isso, sugere a história como um teatro, em que esta seja tanto o efeito e a causa, a ser a realizadora, a roteirista e a produtora da peça, na qual o indivíduo atue por conta disto, de forma funcional, mas que também seja o expectador, mesmo enquanto ator. Se for assim, resta saber, exatamente, quais são os papéis que estes indivíduos, afinal, estão a se esforçarem para representar. Qual a carga dramática e a plasticidade argumentativa de suas verdades individuais, e que precisam manifestar através da vida? Essa verdade coletiva, a emergir destas atuações, é a história que Oliveira Martins busca, sempre, captar, pois neste caso, veremos que sua escrita não é apenas ele, mas sim uma forma de manifestação instrumental da própria História. Afinal, por que ele estaria isento de participar de tal construção participativa, reflexiva, do papel de ator que ele próprio também está a ocupar, como todos os demais? Tentar perceber Oliveira Martins sem atribuir uma dimensão teatral e divina, superior e ontológica à História será fracassar.

Mas, ainda assim, há a anomalia, ou a excecionalidade, denominada por ele como o “fortuito”, em que o ator, ou agente histórico, possui a liberdade, para além de sua individualidade outorgada, e para além da necessidade da história, sempre presente, para criar, para modificar o que poderia ser considerado imutável pelo destino histórico. Há tal espaço fortuito, contra ou a favor, sempre, tal brecha de vulnerabilidade ou de potencialização. Portanto, a história se faz tão complexa e rica de possibilidades, para além dos que os historiadores “convencionais” optam por fazer, ao se restringirem aos mecanicismos científicos de registos sob determinadas regras e condições rígidas, mas insuficientes para atingir a dimensão de uma verdadeira abordagem significativa.

Por isso, a partir da segunda parte deste trabalho, a próxima a seguir, buscarei conceituar acerca dos ensejos de Oliveira Martins, e dos textos afins, com o objetivo de não apenas demonstrar o conhecimento adquirido para a avaliação que se faz necessária, mas muito mais para um exercício filosófico de mergulhar nos “estados mentais” de Oliveira Martins, e da História como ente, e emergir, a partir deles, com conceitos atuais que possam justificar, argumentativamente, um valor de verdade positivo em sua metodologia de registo histórico, com tamanha intensidade e validade que se torne indispensável para a compreensão do ocorrido em Portugal no Século XIX, o que não é, todavia, novidade, visto seu enorme prestígio, desde então. Oliveira Martins foi, para mim, uma agradável surpresa de perceber que ainda há suspiros de vida na História e, quiçá, em sua filosofia.


Parte II | Três tempos e incontáveis possibilidades

O primeiro tempo: o evento ou o ato. E partiremos a considerar uma análise sobre o nascimento de Jesus, que é indubitavelmente um dos marcos fundamentais na organização ocidental, com fortes influências até os dias atuais, visto que até mesmo o contemporâneo calendário possui tal facto como o seu divisor temporal, entre o antes e o depois de Jesus, a considerar o feito como que separasse dois mundos, em verdade.

Há, todavia, o evento do nascimento, em si. O ato do nascer, que remete a um parto normal, com as dores naturais que toda parturiente sente ao retirar uma criança de seu ventre, e que ocorre, sempre, em etapas bem distintas, invariavelmente, que começa com a dilatação do colo uterino, a expulsão do bebê pelos movimentos musculares naturais e provocados, a saída do bebê, a expulsão da placenta e o corte do cordão umbilical.

A partir deste, e de qualquer outro ato, assume-se, então, duas dimensões[2] descritivas e distintas: uma física (série real) e a outra, mental (série ideal), ou o segundo e o terceiro tempos. Assim, existem duas dimensões ontológicas e uma ôntica, em três tempos, espaçadas entre si, que buscam a se significarem, mutuamente, e crescentemente, a partir do acontecimento. Tais dimensões ontológicas serão, agora, exploradas em similitude com o modelo proposto por Donald Davidson[3], do monismo anômalo, que buscarei aplicar à hermenêutica histórico-filosófica, e sem a preocupação de se defender ou discutir conceitualmente as questões ontológicas do modelo, mas sim a adotar um pragmatismo necessário como a fundamentação e a construção da ação sobre: o evento em si, a descrição mental e a descrição física. A ação como átomo da história, se cabível.

Há o ato do nascer, especificamente, na qual o bebê Jesus veio ao mundo, ou seja, o evento em si, natural e biológico e que é, surpreendentemente, e irracionalmente, o mais distante da História, no espaço e no tempo. O evento acaba por ser o menos relevante[4].

Entre o evento do nascimento de Jesus e a descrição física deste, há algo contraditório, pela falta de narrativa da consequência (o parto e o nascimento) e a conceção, ou seja, os fatores e condições que culminaram tal evento, que dentro de uma normalidade da época, e da atualidade, desde sempre, envolveria um necessário ato sexual. Mas, todo o conjunto de descrições físicas (e mentais) se mesclam a partir de narrativas que remetem mesmo à conceção de Jesus, em que sua mãe, Maria, não teve na cópula sexual a origem da fecundação de seu óvulo, a provocar todo o processo biológico, natural, que leva ao desenvolvimento do embrião ao feto e, finalmente, ao bebê. Talvez nem tenha sido utilizado seu óvulo e, de certa forma, foi-lhe implantado outro, divino e puro, já devidamente fertilizado. Maria foi considerada, pelos dogmas católicos, como uma virgem, preservada por Deus de todos os pecados da carne, pelas Graças Deste, para conceber seu Filho, que veio ao mundo para uma missão superior, pela Misericórdia Divina. Isso, assim descrito, já não é mais sobre o evento, em si, mas sobre a consolidação ontológica desta descrição física de um evento que virou insignificante.

A descrição mental, ou ideal, deste nascimento está direcionada, em última instância, aos valores morais que Jesus pregou sobre não só as dimensões elevadas divinas, mas também sobre as questões mundanas, ainda tão importantes, a partir das significações sobre pecado, salvação, formas de atitude frente ao inimigo, ao próprio pecador e muitas outras maneiras de se fazer valer por uma atitude cristã da qual Jesus emerge[5] como um modelo de perfeição e um paradigma moral-comportamental frente às questões da vida mais diversas – surge a moral, advinda de uma ética cristã, interiorizada, introjetada. Não há como desfazer tal dimensão, por mais que factos contrários sejam descobertos e aceitos como verdadeiros, em processos arqueológicos, por exemplo, a dimensão mental se constrói como edificações (como se fossem as séries, por Oliveira Martins), nível a nível, sem que possa ser demolida pois é a máxima solidez das crenças, desejos e vontades, o verdadeiro pilar[6] da individualidade, mas não o único. É a sede, afinal, de todos os mitos.

Já a descrição física, ou real, do nascimento é a alegoria para além do processo do parto, em si. Tais descrições[7] destas narrativas, feitas principalmente nos Evangelhos Canônicos de Lucas e de Mateus, remetem às factualidades do evento, dos registos dos detalhes e das ambientações do momento, como um registo do tempo dado, em questão, tal como uma imagem da eternidade, definição de Platão, como se o tempo não deixasse de correr, ainda no passado, e tudo pudesse ganhar vida, agregar novos conhecimentos, valores e fosse, assim, o passado, maleável e dinâmico. Para os que possuem a fé cristã, esta dimensão transcendental dos fatos é de suma importância.

O que resta, afinal, é perceber que a descrição física não é isenta, já ao ocorrer, de uma simultânea influência da descrição mental, em que os interesses, valores e moral dos registos já não se confundam com uma dimensão ontológica interpretativa e significativa. A diferença fica, basicamente, entre o que está a se situar na individualidade e o que está a se situar no espaço compartilhado, no espírito coletivo, ou ideológico, da história.

Mas, afinal, para os que comungam radicalmente da fé cristã, há diferença relevante entre os eventos e as descrições mentais? Certamente que não, e tudo se configura como a mesma coisa, todas muito próximas e interligadas, completamente conexas e coerentes, apenas com questões diferenciadas de narrativas, mas com total concordância entre elas. A vida de Jesus, sua conceção, seus feitos, suas ações, parábolas e milagres são mesmo reais, presentes e verdadeiros para quem comunga irrestritamente dos dogmas eclesiásticos, como verdadeiros e incontestáveis, presentes e percetíveis. Vira causa e razão para tudo. O evento, então, fica mesmo mais distante, mas passa a ser influenciado pelo substrato mitológicos das descrições mentais e físicas. O evento se transforma, em certos casos, para o mito. Jesus transcende a sua própria existência, e vira o evento.

Entre as descrições físicas, mesmo para os que possuem fé nas mesmas, não haverá, aqui, abismos, mas, no máximo, espaços, mais ou menos amplos, mas sempre transponíveis, em que os dogmas passam a ocupar tais conexões, a configurarem pontos não isolados, entre atos distintos, que consolidem e configurem esta narrativa para dar um sentido ainda maior à própria fé, para além do evento, e a influenciar em tudo o que deriva deste. É como se o evento, em si, perdesse a total importância em valor de verdade para os que se situam entre as descrições escolhidas para si, ou mesmo doutrinado para tais crenças, a viver em função delas, seja qual for a forma adotada de compartilhamento das crenças, desde uma impercetível influência até uma imposição radical, há sempre um sistema de crenças compartilhadas e influentes.

Há, portanto, diferentes narrativas físicas a sustentarem alguns aspetos da vida de Jesus. Uma delas, por exemplo, aleatória e recente, que transfere o ponto de vista cristão para uma abordagem socioeconómica construtivista, foi apresentada, em forma de romance, por Moacyr Scliar, aclamado escritor brasileiro que escreveu “Os vendilhões do Tempo”, na qual apresentou três histórias escritas como contos narrativos, deslocadas no tempo e no espaço, mas interconectadas, em que a primeira delas é sobre um homem que era um dos vendedores de animais no Templo em que Jesus, energicamente, expulsa-os por fazer da “Casa de Seu Pai” um antro de comércio.

O vendilhão é apresentado por Scliar sob uma perspetiva de superação empreendedora e totalmente capitalista, com forte pendão neoliberal, conceito obviamente inexistente ao tempo em questão, mas suposto ser assim de forma proposital, a parametrizar sua história a partir de descrições extemporâneas, separadas por dois milênios, como o conceito de meritocracia, tão latente atualmente, tal como uma nova seita que emerge do capitalismo, enfim, mas com lastros não tão distantes dos valores cristãos, em que os justos serão merecedores do júbilo eterno, ou o que o valha.

No primeiro conto, o vendilhão sai do campo, como agricultor falhado, sem nenhum recurso significante, em difícil situação em que só a migração para a cidade, sua única opção, lhe daria alguma oportunidade para se reerguer na vida. Assim, o faz, e com muito trabalho consegue se estabelecer e ter autorização para comercializar os animais, no Templo, para que os judeus pudessem sacrificá-los ritualisticamente. Obter a licença de comerciante era uma imensa conquista e assumia, assim, uma posição de destaque social que permitiria que seu filho pudesse vir a se tornar um escriba, inclusive, algo de ainda maior ascendência social. Scliar demonstra, assim, a realidade suposta de uma construção de modo de vida, dada no mundo, a partir de um pulsante existencialismo, e de acordo com as regras vigentes, a salientar os esforços humanos e o valor do indivíduo para se adequar às diretrizes impostas e “triunfar” de acordo com as limitações sociais, econômicas e morais. Mesmo assim, ao fazer o que era o justo e o esperado, seu modo de vida foi bruscamente interrompido por um episódio em que alguém desconhecido e imprevisto, Jesus, exterior à sua organização normativo-legal, quebra fortuitamente seu modo de vida em seu ponto mais importante, na base em que tudo o mais se assenta e se assentaria: o seu empreendimento e, desta forma, não somente cessa seus ganhos mas também impede seus planos de ascensão social, e o faz retornar a um nível máximo de dificuldades na vida, quebrado, ao perder seu chão, novamente, por alguém que dizia trazer a justiça (e será que estaria Jesus a usar do véu da ignorância rawlsiana? Eis mais uma questão a se abrir sobre conceitos de justiça, mas que aqui não teremos tal objetivo).

Assim, são infinitas as possibilidades de descrições físicas, como estas, que passam despercebidas, mesmo a partir de uma abordagem romanceada ou de mera licença poética simples, a partir de fatos supostamente históricos, ou com dimensão de evento histórico, tal qual Oliveira Martins o faz, no que se concerne à construção das narrativas físicas em sua abordagem conectiva da história, com objetivos a ocupar tais espaços, visto que não são mesmo abismos, e nem poderiam ser, nesta dedução realizada. São apenas jornadas.

E, afinal, para a Filosofia, como se daria esta análise de narrativa e factualidade? O que assume, então, sobre a capacidade de se fazer uma história realmente desejada como factual e isenta de quaisquer dúvidas acerca de sua validação epistemológica?


Parte III | E sobre a história dos últimos dias?

Há a constatação de que, atualmente, nestes dias em que estamos a viver, na contemporaneidade tecnológica do terceiro milênio, termos uma História praticamente impossível de ser escrita, de forma unânime e precisa, mesmo com todos os dados e factos à disposição de todos, com registos e imagens, muitas feitas pelo observador comum a partir de seus telemóveis, além de declarações e testemunhas e todas as evidências que levariam a um nível informático nunca d’antes visto mostra que há sim, algo em que as descrições se mostram como insuficientes para se atingir a desejada significação dos atos. Por isso, a História “verdadeira” se mostra incapaz de ser mesmo um estado de asserção.

Eis um, apenas um, dos incontáveis factos que estão a pulular nos noticiários recentes: nos últimos anos, e principalmente, meses, estão a se intensificar os rumores da invasão russa à Ucrânia, para além da anexação da Crimeia já realizada, em 2014. Há, já formalmente proferido, o interesse da União Europeia (UE) em ter a Ucrânia como membro, até mesmo pelo fornecimento energético conveniente e, por outro lado, igualmente e informalmente proferido, o interesse russo em não a perder de suas influências, e obviamente o mesmo interesse econômico por trás de tudo. Estas são descrições, feitas por mim, de forma geograficamente e temporalmente distante, mas apenas possível por estar a usar dos dados e factos, de acordo com as informações, notícias e análises de especialistas diversos a cobrirem isto. Certeza, todavia, não há.

Ao lado disso, os Estados Unidos frente à luta política com a Rússia, em um retorno suposto à uma Guerra Fria jazente, mas com os mesmos interesses “democráticos” de manutenção de mercados supridores e consumidores, interesses econômicos sempre presentes, por trás do que se percebe como um conflito. Mas, afinal, a sustentação maior do estado de guerra se dá nos meios de comunicação, com a inserção da Rússia nos média ucranianos, a infiltrar sua agência de desinformação para alterar a perceção do público ucraniano mesmo antes dos fatos acontecerem. Isto, afinal, são as fatídicas fake news[8] que mostram que a História pode ser mesmo escrita (e descrita, ou reescrita) antes de os eventos acontecerem, por uma implicação direta de assunção das descrições mentais que decorrem de uma descrição física futura, por ocorrer na brevidade: não há mesmo valor no evento, nem mesmo em sua ocorrência. As notícias com a etiqueta de fake news são apenas a garantia de que não são mesmo verdadeiras, pois são mesmo falsas, sem base consistente para a sua veracidade. Mas, ainda assim, existem as outras, não rotuladas, ou as não-fake news, em que, todavia, não são nem falsas, nem verdadeiras, pois ainda não passaram a serem conhecidas e passar sob o crivo das descrições e juízos. Assim, verdadeiro e falso se confundem na linha do tempo, sejam passados dois mil anos ou dois dias, e fica subordinado ao critério individual, local, sempre duvidoso, sem bases essencialmente racionais e investigativas de forma compartilhada.

Cria-se, então, um mundo paralelo, a carregar algo indesejável ao interesse dos contrários e, simultaneamente, apresenta a continuidade do que se está a propor, por falta de oposição, e tudo é muito previsível a partir daí, dado à característica humana de se reproduzir enquanto ideias que são compartilhadas por iguais. Consolidam-se as descrições mentais que levam à “materialização” das descrições físicas, e que produzirá um evento paralelo, mitológico, a partir de um consenso[9]. Como se fosse mesmo um planejamento para a ocorrência de um evento desejado, tal qual um rato, na condição de cobaia, a andar por um labirinto escuro em que se deseja que siga um determinado caminho, a tomar pequenos choques el alguns destes caminhos que forem indesejados ao cientista. Ao final, ao acender as luzes, surge o evento de o rato estar onde era desejado que estivesse, e não mais do que isso. Somos, portanto, em algum momento, cobaias no escuro, mas sem sentir de todo o efeito dos choques, que são aparentemente inócuos, todavia, mas igualmente eficientes, como se tem visto. A história faz isto, mas não só. Seria, então, a manipulação a própria astúcia da razão, de Hegel? Uma questão a ser considerada e, perceber, que sempre haverá uma narrativa nutrida por interesses diversos – e uma impossibilidade de se aceder à integridade dos eventos. Será preciso escolher.

Há que se perceber que as narrativas não são mesmo neutras[10], seja qual for, mesmo em eventos a ocorrerem praticamente no devir, nem mesmo com a “verdade” que emerge e faz o que já é conhecido, através de conceitos falsos, vir por água abaixo.

Assim, e só assim, as descrições físicas apresentam, abismos, pois apresentam mesmo um fosso impossível de se transpor entre as diferentes narrativas acerca de um mesmo evento, já em dimensões ontológicas, pois as descrições mentais, em conjunto, daqueles grupos que sustentam, a cada vez, suas próprias descrições físicas se opõem e se distanciam, cada qual, do mesmo evento, e que deveria ser um ponto de convergência por supostamente estar nele a “verdade”, mas se mostra como um inesperado ponto de repulsão das narrativas[11], justamente por conter a verdade que não mais interessa, a partir de dado momento.

Há uma impossibilidade para se assegurar até mesmo a “verdade epistemológica” de eventos recentes, ou mesmo os que ocorram em tempo real, antes mesmo de virarem o que chamamos de História. E nos remete a uma pergunta necessária, se a História (purista) é mesmo possível? Provável, não é. Mas, mesmo improvável, seria possível? Afinal, há a assunção, nos conceitos[12] de base desenvolvidas nesta UC, de que a História seja “a memória das coisas ditas e feitas”, ao se verificar a impossibilidade de pautar exatamente no que pude discorrer, até o momento, e também a alcançar um status de inviabilidade sobre basear a História no: “conhecimento”, “memória” “acontecimentos” e no “passado”, tal como o artigo argumenta, a concordar-se com tal impossibilidade estanque de eventos e posições descritivo-analíticas.

E, vem, finalmente a pergunta indesejada, pelo motivo de nunca, assim, se chegar a uma conclusão que possa ser considerada última: O que devemos entender por memória? São registos orais, formais, escritos, oficiais, culturais ou o quê? Como foi o ato deste registo, afinal? Como chega no aspeto de integridade, até o presente, e em que estado? Seria possível se aceder tais registos sem os recursos das descrições mentais? Ou ainda, ser meramente um registo das descrições físicas quase neutras? Como seria, afinal, o registo sucinto e objetivo do evento, o substrato factual dos atos, e apenas isto, sem nenhum conteúdo que retirasse uma mínima neutralidade sine qua non à validação de ser um evento meramente puro?

Para além disso, o que são as coisas ditas e feitas? Quais seus contextos, quais as conceções de validação acerca destas? Não há, afinal, como se fugir da condenação de suspeição eterna do que consideramos história. Há que se perceber, em similitude, que tanto os romances quanto os registos históricos são relevantes para uma compreensão do que, afinal, se passava, ou se passa, para a melhor compreensão possível do que se entende como uma busca, mesmo em processo dialético, da história como se pretende que seja, qualitativamente.


Parte III | A História anômala de Oliveira Martins

Há, todavia, uma certa necessidade de se perceber o que se passa, afinal, com Oliveira Martins em suas obras. É importante lembrar que sua primeira produção literária foi configurada, pelo autor, como um romance, Febo Muniz, que até seu subtítulo foi “Romance histórico português do século XVI”. Um romance, baseado em factos reais. Nada estranho, atualmente e sempre.

Depois de Febo Muniz, vieram livros de cunho atribuídos, pelo próprio autor, à História e às Ciências Sociais, genericamente. Afinal, por qual razão não poderiam ser todos os seus livros considerados como romance? Apenas a declaração dele seria suficiente para definir sua intenção? Sua abordagem rancorosa, e possivelmente a inaugurar o bullyng histórico, por exemplo, em relação aos seus registos acerca de Dom João VI, não seriam, todavia, referências à construção de uma personagem de romance? Pois talvez fossem baseados em “factos” (físicos) “reais” (mentais), ou a partir de opacas imagens de pinturas, mas sem representar, necessariamente a verdade (evento), como em muitas obras cinematográficas se exibem, já nos créditos de abertura, a atentar o expectador de que a verossimilhança ocorrerá por conta disto, e por responsabilidade do expectador, mas não será uma “verdade absoluta” assegurada pelo realizador ou produtor, mesmo por questões legais, não artísticas. Em nossos tempos contemporâneos e capitalistas, nos quais Oliveira Martins esteve também a viver, tudo é ou vira produto, com um fetiche consumista em que é preciso perceber o “valor” e o “preço” das coisas, ou das cousas.

A questão, em si, é que há, entre Oliveira Martins e seus leitores um pacto subliminar e informal, mas poderosíssimo, que se baseia em duas coisas: A) O manifesto explícito, nos prefácios, de que o que está ali é a própria História, e não é apenas algo baseado nesta, mas sim toda a verdade[13] factual, em toda a sua máxima expressão, dos eventos e personalidades e, B) Há a crença dos leitores de que A seja completamente verdadeiro.

Mas, afinal, os documentários e filmes, e livros, e todas as formas de se contar alguma ficção, atualmente, mesmo com os avisos de que são apenas “baseadas” na realidade, produzem efeito semelhante. O aviso significa serem a não-realidade histórica/factual, ou apenas a ficção, e que é uma forma de se realizar um “realismo não objetivo”, como se fosse conceitualmente possível, mas passa a ser baseado nas mais profundas crenças que se podem levar a um super-realismo pretendido, do mental ao físico, o mais poderoso dos realismos, totalmente revestidos das crenças morais, individuais, dos valores pulsantes que buscam sua afirmação e, assim, tudo se torna verdade, até a mais infame das mentiras.

Em meio a tais discussões, densas, ainda se pode voltar à velha e antiga questão filosófica do que seja, de facto, a realidade. A Filosofia, afinal, já chegou a alguma resposta consistente acerca disto? Essa é a questão por trás de todas as demais. E a resposta é não.

O processo que ocorre, com Oliveira Martins, é o mesmo. Afirma que tudo é verdadeiro, real, talvez por que não soubesse que no futuro distante, no terceiro milênio, afirmar o contrário seria o melhor caminho para se chegar a uma provocada verossimilhança sem grandes críticos a lhes espezinhar. Mas se o fizesse assim, a descrever um Dom João VI conforme algum nível de escrúpulo adotado, que alguns chamam de hipocrisia social, e o que todos diziam sobre ele, com fleumas britânicas ou com nobreza lusitana, circunspecto e impessoalizado, e que foi ao Brasil somente por uma questão estratégica já consensual na Corte, e não por alegada covardia, e mantivesse algumas destas características neutras, isentas, não seria tão lido e conceituado como veio a ocorrer. Poderia ter ido por estratégia, obviamente, mas não estaria a se tremer de imenso medo e pavor de Napoleão? O que um aspeto inviabiliza outro? Qual o lado humano e o lado político da situação e da personagem? Quais os limites e as prioridades para perceber as decisões emotivas que invariavelmente são sobrepostas às questões racionais? É este gap que interessa a ele.

O que é tão poderoso em sua escrita? O que o fez se destacar tanto dentre todos os demais historiadores? A resposta passa pela conexão entre as descrições mentais e físicas coletivas de Portugal, justamente, em que os efeitos de uma realidade não muito engrandecida, indesejada e incerta remete a um passado interpretado como covarde, como culposo e doloso daqueles que estiveram no poder e não garantiram que implicassem em um presente diferenciado, o momento da explicação, e que fosse tão grandioso quanto poderia ter sido, se fosse ao contrário. É uma das formas do lamento, das possibilidades prometidas, mas não realizadas, assim como as diversas aparições da entidade “O Quinto Império” se fez passar, desde António Vieira à Agostinho da Silva, inclusive por Fernando Pessoa, certamente nada indiferente à Oliveira Martins.

Por isso, aposta em mostrar um Dom João VI covarde, fraco, débil e patético, submisso tal como se sente, em uma prisão dentro de sua condição de cidadão de um Portugal não tão bem aceito, em seu tempo. O que, afinal, não é pessimista, mas profundamente otimista, buscador de alternativas e possibilidades, pois não o seria se não considerasse o potencial latente em Portugal, na grandeza que ainda seria possível atingir, apesar deste passado imutável pela História convencional que insistiam em escrever. Assim, optou pelo romance, pela evocação das mentes férteis das descrições, sem se afastar da verdade.

Oliveira Martins, afinal, não poderia estar a ter como foco o passado, mas sim o futuro, de uma história reversa e intencional, a considerar a história como instrumento de transformação, de ferramenta de possibilidades, motivo pelo qual foi tão absorvido, tão “consumido”, por falar uma língua não-objetiva, nada eminentemente realista, mas sim otimista em relação ao pessimismo que precisava ser exposto, acentuado e execrado.

O poder (e sucesso) de um romance está na capacidade de se aludir à verossimilhança, de os leitores dialogarem com as personagens, em que se sintam inseridos da trama, ao se identificarem, se emocionarem e desejarem desdobramentos de acordo com suas crenças e desejos, se surpreenderem ao meio do caminho, em que suas projeções aspiracionais que se desloquem de si para uma busca de realização na história que está a ser contada, como se fossem transportados a uma outra dimensão, em que terão, ali, possibilidades[14] que não possuem em sua vidas “reais”.

O realismo, afinal, é sempre limitador, massacrante, castrador e entediante, preso a impossibilidades de novas possibilidades. No realismo não há sonhos, nem desejos, nem nada, apenas o que da realidade se consegue perceber, que se esteja em puto ato, e as coisas são como são, e ponto, e nada mais. O realismo é a imobilidade eterna da História. Aliás, nenhuma narrativa da “verdadeira” História, meramente realista, consegue ser ouvida sem ao menos um bocejo e uma divagação, talvez em excesso até remeta ao risco de distúrbios maiores, ou à depressão, tal a indesejabilidade de tremenda monotonia[15]. É preciso perceber que o desejo injustificado de uma pureza epistemológica da História seja, talvez, o grande equívoco dos puristas, dos que não compreendem que a objetificação só se é buscada por haver sua contrapartida, que a pureza não existiria, assim, sem a impureza, sem o controverso de uma trama que consiga situar o leitor a um contexto com objetivo de se atingir uma significação, seja física ou mental. O romance histórico é eminentemente funcional, como uma das formas de se levar ao conhecimento.

O romance não só prende a atenção como também transporta o leitor ao seio da trama, deslocando-o de uma realidade sem possibilidades para uma utopia repleta delas. Eis o “problema”, apontado pelos puristas, ou realistas, em Oliveira Martins, por aqueles que ainda acreditam na pureza viável da História, como se não contivesse ali, também, nesta própria evocação, uma dose de romance e sonhos, dada a falta de evidências concretas de que tal pureza possa mesmo existir, no passado distante, como de Jesus, ou nos acontecimentos recentes, em direto, como nas querelas russo-ucranianas. O romance também está nos protestos dos realistas, ainda que de péssima qualidade, de gosto duvidoso, mas sempre presente, pelas descrições nada neutras que vimos como são configuradas as descrições que produzimos e consumimos.


Parte IV | É possível a reconstrução da realidade histórica?

Oliveira Martins foi um precursor de um movimento que buscava expor a realidade a partir do desvirtuamento do que se considerava ser o objeto racional excessivo que, ao invés de expor a dimensão epistemológica da realidade, como se espera que ocorra, a partir da própria conceituação da mesma, esta exposição realista excessiva acabava por mascarar tal possibilidade epistemológica. Seria como o efeito colateral do monismo e do realismo que emergiu do positivismo, que estava a se tornar mesmo patológico.

Este movimento, todavia, aconteceria décadas depois, no Século XX e seria conhecido por Surrealismo, em que o realismo é colocado em xeque para a exacerbação dos seus valores, como uma psicologia social reversa, para que se percebesse que o excesso de virtude é capaz de se levar à mais das extremas obscenidades. Oliveira Martins, neste aspeto, foi um gênio à frente do seu tempo, no futuro que sempre projetava textualmente.

Portanto, a História de Oliveira Martins apresenta uma das facetas vistas no Surrealismo, em que é preciso construir a realidade a partir de seus extremos realistas, do que há de oculto nas entrelinhas que se destacam pela obscenidade pululante dos monótonos historiadores realistas a se fixarem, exclusivamente, nas descrições físicas, insuficientes, todavia. Podemos considerar, sob tal análise, que a História de Oliveira Martins é anômala, certamente, ainda mais sob a ótica dos realistas, mas nunca deixa de ser funcional, ainda que se mostre como um romance, com um aspeto lúdico de se revelar os fatos em si, a partir da leitura de outros historiadores que, a bem da verdade, nunca seriam procurados se não fosse a provocação romanesca de Oliveira Martins.

Outra forma de se perceber que a verdade, ainda que nos romances históricos de Oliveira Martins, está provida de formas estruturais para se alcançar a dimensão epistemológica histórica, e é assim que podemos perceber sobre sua intenção em mostrar – e fixar, para além de ser interessante ao leitor, seja a enaltecer ou a derrubar personagens, a buscar nos contrastes e nos extremos uma forma de significar o essencial, um processo tal qual como o que ocorre no processo construtivo das personagens Edward Bloom e seu filho, William (Will) Bloom, no romance Big Fish: A Novel of Mythic Proportions, de Daniel Wallace, e que também virou um filme[16] de grande sucesso e crítica, realizado por Tim Burton.

Edward, a personagem central das histórias (ou, alegoricamente, o “nosso” Oliveira Martins), é um contador compulsivo de histórias, das quais seu filho (os críticos de Oliveira Martins, alegoricamente, de novo), por não compreender acerca da veracidade das mesmas, e por ser um jornalista (mais grave até do que um historiador, em nível de realismo) e que busca a máxima exatidão dos factos, tais como são, literalmente, e, assim, ser um realista, se afasta do pai, desiludido e dececionado, desde que este usa do seu casamento para contar suas histórias para os convidados. Há algo que o filho não aceita nas histórias absurdas que o pai sempre está a contar sobre os factos de sua vida.

Assim, em dado momento, a residir em Paris, por conta de seu emprego, Will e sua esposa, grávida, retornam aos Estados Unidos para que ele possa estar com o pai, em seus últimos dias, já com uma doença terminal. Aos poucos, Will tenta buscar a verdade que ele sempre desejou ter, para além dos romances que o pai continuava a contar. Em dado momento, depois de novas deceções em tentar retirar a “verdade” em forma de confissão, por parte de seu pai, encontra nas coisas destes alguns registos e documentos que remetem todos às histórias que seu pai sempre esteve a contar e, assim, percebe, afinal, que há ali, nas histórias que sempre relutou em escutar, todas as verdades essenciais sobre os principais factos da vida de seu pai, em meio a deliciosas alegorias[17] que, a rigor, nada deturpam, mas enriquecem os factos.

Em seus últimos instantes, quando ele já havia percebido sobre a função das alegorias, Will conta ao pai a história sobre a própria morte dele, pois sempre havia um lago e referências[18] a grandes peixes, que seu pai usava como metáfora para suas viagens, a trabalho, e para que justificasse sua ausência, indesejada pelo imenso amor que nutria pela mãe de Will e por este.

No sepultamento de seu pai, todas as personagens lá estão, ainda que menos exageradas, menos caricatas, mas lá estão, a mostrar que nunca esteve sem conduzir as informações necessárias e verídicas, apenas lhe aplicou uma roupagem apetecível, conexa e sedutora.


Parte V | Conclusões

Oliveira Martins é, ele mesmo, a própria história de Portugal, e não seus textos. Foi capaz de traduzir, como um oráculo a expressar uma força transcendental a si, espiritual, como definiu, algo que lhe deu a missão de mostrar que Portugal foi e é feito por humanos e, principalmente, suas “humanidades”, e isto envolve covardia, coragem, bravura, ousadia, quedas, elevações e tudo o mais que, ali e nas décadas seguintes, seria tão exponenciada a partir da Geração de 70, que mesmo ao originar o inusitado grupo  dos “Vencidos da Vida”, do qual Oliveira Martins integrava, já ciente que a história, talvez, fosse mesmo quem sempre estivesse a mandar, sem chance de que ele mesmo pudesse ter sido o suposto fortuito, anômalo, mas sim quem deu voz não somente a espíritos, mas à alma de Portugal, tão carente de sua identidade das grandes conquistas e momentos de grandiosidade que, estavam, por sinal, não no passado obsoleto que ele nunca fizera questão de enaltecer, mas sim no futuro provável, o que penso ser, sua real fonte de motivação, de projeção e sonhos, ainda que sob a astúcia da razão, da fatídica razão.

Oliveira Martins é, em si, um gênio e, como muitos, incompreendido pelos retóricos e limitados pelas suas reduzidas imaginação. Há muito mais a se desbravar em seus escritos.


BIBLIOGRAFIA

C. Becker, Everyman His Own Historian. The American Historical Review, 37(2), 1932, 221–236.

D. Couto, Donald Davidson: subjetivo-objetivo. O retorno ao cogito, University of Porto Press, Porto/Portugal, 2018, p. 206.

D. H. Davidson, Essays on actions and events, Clarendon Press, Oxford, 2001, p. 352.

S. C. Matos, História e ficção em Oliveira Martins: imagens da degenerescência, Revista de História das Ideias. Vol. 21, 2000.

J.P. de Oliveira Martins, Temas e Questões – Antologias de Textos, Prefácio, organização e notas de Guilherme de Oliveira Martins, com a colaboração de Maria Manuela d’Oliveira Martins. INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1981, p. 420, ISBN 9789722703086.

M. Scliar, Os vendilhões do templo, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2006, p. 304. ISBN 8580865735, 9788580865738.

D. Wallace, Big Fish: A Novel of Mythic Proportions, Pandher Books, 1998, p. 180. ISBN 1-56512-217-8.


Notas


[1] J.P. de Oliveira Martins, Temas e Questões – Antologias de Textos, p. 21.

[2] As descrições mentais e físicas estão, respetivamente, correlacionadas com as séries ideais e mentais, às quais o texto de Paulo Tunhas, «O Eu, a Memoria dentro da História», distribuído nas aulas desta UC, faz referência e busca interpretar os escritos de Becker, 1932, em «Everyman His Own Historian».

[3] Busco, aqui, um modelo dentro da Filosofia da Ação, por perceber que todo momento histórico, ou evento, é, em si, um ato, e uma ação, assim como um parto, uma assinatura de um documento ou a declaração de uma sentença. O ato é o evento, e o ponto que obriga a presença de um agente, em ato. Por isso, fundamento esta análise na teoria do monismo anômalo, de Donald Davidson.

[4] Há tal distância que remete a uma certa irrelevância entre o ato em si e o que seguirá depois, como se todos os desdobramentos tomassem vida própria e assumissem diferentes posições. E assim, se faz a história, enquanto se busca compreender algo que, invariavelmente, estará distante do ato, em si. Busca-se compreender o ato pelas consequências deste, mas nunca há igual certeza em compreender o ato pelas condições que levaram o ato a vir ser cometido, a uma instância de fatores e condições que tornaram tal ato necessário.

[5] Eis que um processo natural, biológico e convencional, imutável desde sempre, ainda pode ser contestado (e colocado em xeque) pelas descrições físicas e mentais, que convergem e agregam informações para um mesmo evento, que se perde no passado histórico, a considerar, mesmo, que realmente tenha existido um Jesus histórico, tal como se conhece atualmente as descrições deste, visto que existem historiadores que contestam muito das informações e mesmo da relevância real deste Jesus histórico, ainda que a significação deste ente já possua sua dimensão física, ôntica, e também constituída como entidade, ontológica.

[6] É como se a explicação da superioridade moral, sobre-humana, de Jesus, retroalimentasse a implicação (seu nascimento, por exemplo). Ainda que muitos católicos mais instruídos e com vocação científica, atualmente, refutem a descrição física da “anômala” conceção de Jesus, não deixam de lado a descrição mental do significado da pureza pretendida pela descrição física refutada e, esta, evolui. Por isso, Davidson, em seu modelo de monismo anômalo, busca incansavelmente dar às causas uma instância superior e uma invocação ao que chamou de “razão primária” das ações – ou eventos, aqui considerados.

[7] É a alocação deste evento algures, em alguma manjedoura, em Belém, e a visita pelos Magos, que eram astrónomos que acompanhavam as estrelas para que pudessem testemunhar a profecia acerca do nascimento do “Rei dos Judeus” fosse atestada, de certa forma. Herodes, ao saber, determinou o extermínio de todas as crianças recém-nascidas, em ato conhecido nos textos católicos como o “Massacre dos Inocentes”, e, portanto, a agregar um sentido de ato público, com viés legitimador, às narrativas físicas. Mesmo o facto de os historiadores e biógrafos de Herodes negarem tal facto, ele está solidamente inserido nas descrições físicas dos eventos bíblicos, como parte dos factos que consolidam o propósito messiânico de Jesus.

[8] As fake news são contemporâneas não apenas na Ucrânia, mas também já devidamente identificadas como nos processos eleitorais que elegeram, dentre tantos outros, Donald Trump e Jair Bolsonaro, eleitos, respectivamente, para a presidência dos Estados Unidos da América e do Brasil, além de ser decisivo no processo que levou à saída da Grã-Bretanha da União Europeia, episódio conhecido por Brexit, dentre outros tantos que tiveram impacto real de modificar as crenças do “espírito coletivo”, de Oliveira Martins.

[9] Uma outra abordagem pode ser verificada mesmo sobre o papel (e ações) dos Estados Unidos da América na Guerra do Vietname, que apresentava uma narrativa “oficial” durante todo o conflito e que mudou, radicalmente, a interpretação do que ocorreu, após a abertura dos arquivos secretos da Agência de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), em 2007, em especial a partir da presidência de J. F. Kennedy e de seu Secretário de Defesa, Robert MacNamara, figura responsável por ampliar incomensuravelmente o papel dos Estados Unidos no conflito, com uso dos recursos das macabras novas armas de guerra, como a nova formulação da Napalm, por exemplo, em bombas aéreas ou mesmo por aplicação em lança-chamas nas casas e pessoas, mas sem nunca ser comparado, obviamente, com figuras nazistas como, por exemplo, Himmler, responsável por tantas outras similares soluções nefastas de dizimação populacional do inimigo, indistintamente se fosse parte militar ou civil, como se estivesse a atingir certos objetivos purificadores, pelo fogo, literalmente, neste caso. Um tema controverso, com muitas descrições.

[10] Os filmes patrióticos sobre o papel dos soldados norte-americanos no Vietname, de “heróis” cinematográficos como Rambo, vivido por Silvester Stallone ou o Coronel Bradock, de Chuck Norris, ou mesmo a irónica comédia satírica M.A.S.H., dentre dezenas, ou centenas, de filmes e seriados, reforçam a descrição da “necessidade” mental de se assumir uma história que não exista correlação verdadeira e intrínseca com os fatos originais. Todavia, ao se visitar o Vietname, como o fiz, e ter contato com a outra versão da história, o confronto exibido sob a ótica dos que estiveram em lados opostos das trincheiras, percebe-se que existe, sim, neste caso, um abismo entre as descrições físicas, contadas pelos vietnamitas e pelos norte-americanos, o que antes foi dito ser inviável. Onde, nos dois lados, está a verdade?

[11] Isto se replica, portanto, às oposições, de forma geral, tal como a História quando contada pelos países imperialistas versus a contada pelos países colonizados, por exemplo. Mesmo a História contada por diferentes países colonizados por um mesmo país colonizador poderá diferir entre elas, visto que apresentarão descrições mentais distintas, ajustadas às áreas de abrangências espaço temporais, ou seja, com acentos locais de suas culturas, valores e linguagem.

[12] Tunhas, «O Eu, a Memória dentro da História», p. 2.

[13] Ou seja, o inverso de que é feito atualmente nas obras ficcionais que se remetem a factos reais, pela necessária proteção dos realizadores de eventuais ações legais ou para serem, meramente, politicamente corretos, a buscarem sempre a responsabilização da interpretação ao expectador, sem que tivessem influência acerca disso, cobre a montagem, a narrativa e/ou outros aspetos que são pertinentes à montagem de uma trama com máxima verossimilhança. Afinal, atribuir responsabilidade à ponta final é uma das características de ideologias como, por exemplo, a meritocracia neoliberal, dentre tantas outras existentes.

[14] O leitor identifica a personagem, um herói ou heroína, e acompanha sua jornada, em momentos em que seus traços emocionais precisam se evidenciar. Não há protagonistas que seja objetos, meramente sem transformação. Não seria possível, portanto, um romance consistente e interessante acerca da vida do motor imóvel aristotélico, em puro ato, estático e totalmente sem perspetivas de alguma potência. As personagens são isto, mais potência do que ato, em si. Mesmo antes, talvez, na pré-eternidade do motor imóvel, a luta da vida deste, ainda não-imóvel, para se transformar em imóvel não seria nada seria interessante, pois o final, como se sabe, seria triste. A perfeição, tão desejada, mas nunca querida. O interesse está, aqui também, no romance aristotélico, na potência (as descrições físicas e mentais, as possibilidades), e não no ato (no evento, imóvel, estático, acontecido e enterrado na eternidade da “verdadeira” História).

[15] Como se o motor imóvel não estivesse em puro ato, mas sim em um processo de coma, vivo, mas morto, inerte.

[16] Filme de 2003, Big Fish, no link IMDb: https://www.imdb.com/title/tt0319061/?ref_=ext_shr_lnk

[17] Todos percebiam isto, menos ele, que se privou de escutar algo por não possuir a forma que desejaria ter, nos moldes que considerava possuir para atribuir um valor de verdade positivo, dentro de seus critérios. Era, assim, uma espécie de negacionista radical do que considerava diferente e do inusitado, a seu critério.

[18] Sempre que suas histórias se referiam ao lago, ou aos peixes, estava a se justificar, em culpa consigo mesmo, por estar ausente, e era cobrado pelo filho, de forma muitas vezes impiedosas, que até julgava que o pai tivesse algum tipo de vida dupla, o que não era verdade. O realista, assim, fantasia a partir de suposições objetivas e, pela desconexão com a verdade contida nas histórias, chega a um estado de erro, de não-verdade, ou mentiras. Acaba, assim, por errar mais do que o que se vale de alegorias. A verdade, porém, está sempre mais intensa e presenta nas histórias contadas.

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