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Ação-Mente-Linguagem Filosóficos

Os caminhos das Ciências, em Bacon, Popper e Khun

Abstract

Este artigo tem por objetivo destacar três distintas possibilidades de prática e conhecimento científico, a partir de uma suposta personagem leiga em Filosofia – o “leigo”, que é apresentado sequencialmente às premissas, fundamentos, teorias e metodologias da ciência de Francis Bacon, Karl Popper e Thomas Khun.

Um texto desenvolvido em forma descritivo-sintética a partir deste contexto ficcional, e com compromisso com os conhecimentos adquiridos a partir dos autores citados, a buscar o objetivo de explanar as questões mais práticas de cada um deles em referência ao tema abordado.

As considerações e percepções das leituras dos autores referidos são, afinal, comprovadamente ricas e oportunas à busca do saber e à metodologia para alcançar tal objetivo, dentro de uma determinada conjectura, em conclusão ao exposto neste trabalho.


INTRODUÇÃO

O “leigo” é a personagem fictícia que busca uma metodologia para suas ações. É seguramente leigo em Filosofia, uma tábula rasa filosófica, mas não em tudo, não em tudo!

A questão do conhecimento pode ser algo estritamente físico, ou nada metafísico para muitos, mas de certa forma considero haver alguém que nada conhece da Filosofia – e que metaforicamente chamo de o “leigo”. O leigo não seria um ignorante completo, pelo contrário, possui uma sólida formação universitária nas ciências ditas exatas e, em dado momento de sua vida, se viu em uma crise existencial na qual o resultado de suas ações estavam causando-lhe dissabores a níveis profissionais, não o saciando satisfatoriamente em conhecimento. Ou seja, por alguma razão está a sufocar dentro de seu atual paradigma, como veremos.

Suas preocupações existem porque sempre chega a uma encruzilhada pelos seus atos – suas ações eram de certa forma insuficientes para alcançar a saciedade própria e por mais que tentasse agir de forma diferente, nada resultava – e surgiu a questão existencial que o fez inquieto – “Por que faço o que faço? Será que o conheço é suficiente? Há algo além?”

E, dentre todos os momentos de sua vida, passou a questionar a forma de obter conhecimento, visto que não conseguia alcançar o seu objetivo de descobrir as próprias causas do agir. E passou a investigar seus atos a partir de uma hermenêutica filosófica, ainda que inconscientemente. O objetivo, então, não seria apenas o conhecimento pelo conhecimento, mas sim a forma que ele utilizava para obter este conhecimento, ou seja, a busca pelo método, ou pela essência do saber.

Ele precisaria adotar uma metodologia científica, criar novos critérios, explorar novas possibilidades – mas qual seria tal metodologia? Eis que a partir de agora apresento três distintas considerações, que são apresentadas ao leigo em hipotética sequência de aprendizado.


O LEIGO E FRANCIS BACON

Para Bacon, o leigo não faz ciência – nunca fez, pois se assim fizesse teria poder, poderia dominar a natureza, e o fato é que o leigo nem domina a si mesmo. Falta-lhe algo. Talvez esteja perdido dentre seus ídolos a distrair-se.

A primeira necessidade, verificada em Bacon, para o conhecimento verdadeiro seria ultrapassar a posição entre suas crenças mais antigas, inférteis e que o mantém sem nenhuma fecundidade suficiente para ser um sábio, que significaria o senhor da natureza, do poder de praticar seus próprios atos produtivos, ao invés de ser mero expectador daquilo que acontece ao seu redor. A natureza, para Bacon, opera como uma imensa máquina e cabe à ciência desvendar este mecanicismo para que o saber se transforme em verdadeiro poder.

A segunda necessidade, para o leigo, seria retirar de sua vida os próprios obstáculos, que ele próprio criou, e o impede de inventar, que Bachelard[1] chamou de “obstáculos epistemológicos” por ídolos que turvam a visão do conhecimento e faz com que o cientista veja conforme seus próprios gostos e preferências. E quais seriam estes ídolos?

Bacon os categoriza em quatro tipos distintos.

As distrações da mente humana estão correlacionadas no primeiro tipo de ídolos – os que são próprios da tribo, no caso a humana. E assim, o entendimento humano possui uma natureza comum a todos, e que de fato poderia agregar características semelhantes que poderiam, em determinados casos, limitar. Seria como dizer ao leigo “errar é humano”. O erro estaria correlacionado à humanidade, assim, indistintamente.

Mas há também algo que seja a própria subjetividade em que o leigo esteja inserido, que remeteria ao ídolo da caverna, na qual sua individualidade faria com que houvesse um certo direcionamento de suas ações para suas próprias preferências, como que a moldar a realidade para sua própria limitação e desejo, dentro de suas próprias experiências de vida, a turvar a visão da verdadeira realidade.

Ou então o leigo poderia estar limitado pela linguagem, sem saber dissociar o que é o entendimento que possui da limitada linguagem que o define, sem ter a oportunidade de explorar melhor as essências linguísticas e assim a caracterizar um ídolo de foro, como se estivesse cerceado em uma pequena área, a uma pobreza linguística que o impede de quebrar suas próprias fronteiras do conhecimento e da realidade pessoal.

E, finalmente, talvez o quarto tipo de ídolo não fosse de fato algo a se preocupar, visto que é suposto ser o leigo um ignorante em Filosofia, e assim não poderia estar limitado pelos conceitos filosóficos do passado. Mas, de todo, não estaria a Filosofia inserida, em pequeno teor, no conhecimento vulgar? Seria possível alguém ser completamente leigo em Filosofia? Quais poderiam, então, serem os conhecimentos filosóficos do leigo, mesmo sem a consciência sobre os mesmos? O ídolo do teatro, talvez, fosse também preocupante para o leigo, como por receber determinados dogmas religiosos, que em dado momento foram tomados da Filosofia, como ocorreu na Idade Média, por exemplo, na absorção seletiva do platonismo e aristotelismo. Eis que os dogmas, sim, poderiam ser algo a preocupar o leigo, indiretamente filosóficos.

O que o leigo precisaria, a partir de então, seria livrar-se de um empirismo e dogmatismo absolutos. Passaria a produzir experiências, induzidas, mas de forma a estabelecer uma nova metodologia para alcançar uma determinada forma, ou lei. Não seria alguém que apenas acumula dados, como uma formiga acumula alimentos. Nem seria alguém que apenas retira de si o que lhe é conveniente para tecer sua rede de conhecimento, como uma aranha a fazer sua teia. Deveria ser como uma abelha, que retira seus insumos das flores e o processa, e tal trabalho leva à produção do mel, a dominar a natureza que a cerca, e também sendo útil, a polinizar e ampliar seus domínios e possibilidades.

Estas novas experiências do leigo, induzidas, precisam ser observadas, com critérios próprios, com objetivo de gerar alguma regularidade. Isto é o método da exclusão, que busca alcançar apenas as relações essenciais, a eliminar as acidentas, todas comuns às determinadas observações. Expurgar-se-á tudo o que é acidental e alcançará, então, a possibilidade de analisar a realidade como se apresenta, a ser capaz de generalizar e alcançar a “forma”, a formação de determinada lei, gestada do particular ao universal. Eis o poder do saber. Só assim, o leigo, segundo Bacon, alcançaria determinada metafísica, que são as qualidades irredutíveis das formas. A essência do saber viria daí, e o leigo alcançaria a saciedade que está a buscar.


O LEIGO E KARL POPPER

Eis que o leigo, dotado de alguma metodologia certeira, chega a Popper e se defronta com uma necessidade, que lhe é apresentada, de buscar a refutação de tudo aquilo que conseguiu formar como ciência, de suas teorias – das leis que conseguiu alcançar a partir de Bacon.

E o que isto significa? Para Popper, é fácil obter confirmações ou verificações para quase toda teoria, desde que a procuremos. Mas isto não é ciência – não é assim que ela é feita. Então, a coisa se complica novamente. Pois se metodologia para o leigo chegou a determinadas conclusões, foi porque existiram limitações para que isto fosse possível – como se um conhecimento seletivo, limitado, ainda que com ídolos mais alargados, mais amplos, e que deram uma sensação maior de segurança sobre o conhecimento – mas não a certeza, pois ainda existem os ídolos, ainda que menos perceptíveis. Ou seja, a sensação de segurança com os resultados obtidos não é algo bom. O leigo, então, seguro de si, se vê confrontado com uma nova realidade.

Tudo é explicado, mas nada é colocado em causa. Nada do que o leigo conhece pode ser colocado em causa – como se tudo fosse limitado ao passado ou, no máximo, ao presente. Mas sobre o futuro, não há o que garanta que suas leis serão válidas. Eis que Bacon pode ser colocado em causa, pois a partir de suas experimentações chegou às leis, mas não às comprovações de que estas possam ser eternas e válidas. O leigo, então, passa a prestar atenção a Popper, pois deseja alcançar o verdadeiro saber, e precisa eliminar seus os novos ídolos.

As confirmações das observações precisam, então, ser colocadas em causa por induções arriscadas, diferentes, inusitadas. E não só assim. Tais confirmações devem carregar em si, proibições – ou seja – limitações em que possa ser negada. Precisa limitar negativamente algo. Apresentar os dois lados da moeda. O leigo percebe, que neste momento, as formas ou leis de Bacon são, para Popper, no máximo, teorias. Ainda não são o conhecimento.

A teoria que não puder ser refutada por qualquer tipo de acontecimento que possa ser concebido não é digna de ser considerada científica – não é conhecimento verdadeiro e universal. Algo que antes era, segundo Bacon, irrefutável e, portanto, uma virtude das formas, das leis, agora é um novo problema, um novo defeito. E tudo se inverte, e o leigo volta a ignorar a verdade, volta à determinada ignorância, mas diferente. Antes, as certezas eram coisas boas, o significado do sucesso e agora estão novamente postas em causas, pois se são impossíveis de serem testadas ou mesmo condicionadas à refutação não podem ter nenhum tipo de status científico.

Não que o conhecimento do leigo seja pseudociência, mas bem que poderão vir a ser. O devir é justamente a alocação necessária para a verdade científica, em Popper, pois se no devir não há como testar a validade de uma determinada lei, é possível testar a negação da mesma. A refutação é colocada em causa, livrando o cientista da adequação de suas conclusões dentro de determinadas perspectivas. A confirmação empírica-indutiva em Bacon não é mais suficiente, pois um mesmo facto pode ser explicado por diversas maneiras diferentes, sob diversos pontos de vistas, por distintas hermenêuticas.

Mas a teoria, para Popper, ainda é importante. Pois não seria observar nada sem que houvesse, ao menos, uma teoria. A observação, por si própria, seria inócua, improdutiva, não conclusiva. A teoria tem valor, ao menos inicial. Eis que, afinal, o trabalho do leigo não é de todo refutado, nem inútil, em Bacon. E sim ampliado, estendido, munido de maior grau de confiabilidade. Suas teorias são a base para a nova observação, mas não a ciência, ainda, em si. Demanda a validação pela negação. Ao menos, até conhecer Khun.


O LEIGO E THOMAS KHUN

Eis que, afinal, o leigo possui uma ferramenta mais poderosa, mas ainda assim, percebe que nem tudo é possível de ser refutado, e assim poder ser colocado em causa. Além disso, a própria refutação precisaria estar vinculada a determinados limites, a restringir ainda mais sua aplicação. Nas ciências exatas haveria maior facilidade, e nas ciências não exatas? Eis o ponto em que o leigo encontra em Khun a sua metodologia de conhecimento.

O leigo percebe que a ciência, para Khun, não é mais absoluta mas sim relativa, pois permite que o conhecimento seja possível dentro destes limites que são instanciados por determinada comunidade, que formam um determinado limite e que resulta na melhor solução para o problema proposto pelo leigo, que está a buscar a solução, assim como os demais membros de sua comunidade. Khun está a apresentar ao leigo o conceito do paradigma. A enunciação de um problema e sua melhor resolução levam à seleção do melhor paradigma pela comunidade.

Khun percebeu que a História das Ciências foi, na verdade, uma sucessão de paradigmas, pois a refutação é um caso de rara aplicação, como proposto por Popper. As proposições feitas seriam sempre dentro de determinados quadros teóricos e semânticos – e eis a complicação em eliminar os ídolos, ou mesmo a quase necessidade de convivência com os mesmos, sendo necessário um método que os suplante, mas que não cometa os erros de considerar que podem ser eliminados, pois não podem.

Assim, tais proposições precisam gerar um quadro de valores teóricos e práticos para que possam oferecer um modo de enunciar os problemas e, também, de resolvê-los. Isto seria, então, fazer ciência – enunciar e resolver problemas, de acordo com os paradigmas da comunidade em questão, na qual o leigo faria parte. Dentro dos paradigmas, a realidade é vista e compartilhada, e as soluções são construídas de forma coletiva, e não mais individual. O cientista é, então, alguém que irá solucionar ou mesmo colaborar a solucionar um quebra-cabeças, visto que ele estaria dentro de uma das peças, ou mesmo em algumas das peças, mas não em todas, pois cada peça seria uma determinada comunidade, um determinado paradigma, e seria um ambiente colaborativo, orgânico e transformacional, passível de mudanças, de rupturas, por crises geradas por incapacidade de resolver novos problemas, que transita de uma determinada normalidade a uma situação revolucionária, no momento em que um paradigma for colocado em causa por um outro, mais eficiente, mais poderoso e que soluciona – mais e melhor – os novos e os antigos problemas, visto que estes antigos precisam ser recolocados, e também evoluídos. Um novo paradigma não poderia deixar os antigos problemas sem resolução – e por vezes, a questão precisa ser readequada, mas não deixa de ser um enunciado.


CONCLUSÕES

Eis que o trajeto realizado pelo leigo em busca do conhecer resultou em possibilidades que transcendem o próprio saber. A questão poderia ser colocada, como a configurar um novo paradigma, em constante revolução, sobre a ciência como fim e a ciência como meio.

Uma nova questão poderia ser enunciada, ao trocar a pergunta inicial feita pelo leigo “Como eu posso conhecer a realidade?” para a questão mais teleológica “Por que eu preciso conhecer a realidade?”, e eis que nenhum dos filósofos ficariam distantes de tais questões, pois todos estão dentro de um mesmo paradigma “khuniano”, ou de uma teoria científica de um quadro “popperiano” ou ainda de uma mesma natureza “baconiana”. Os limites definem, então, o leigo – o tempo e o espaço, a alocação deste em um universo ilimitado. Tudo seria, então, uma questão de alargar os horizontes no tempo e no espaço – e isto seria – para os três filósofos, indistintamente, e certamente para todos os outros – a verdadeira ciência.

O leigo, então, seria sempre leigo. Tão leigo quanto muitos dos que compreendem a grandeza do saber, a busca infinita pela sua incapacidade de ficar imutável. O universo definiria então a ciência, enquanto o homem busca colocar um limite para o próprio universo. A ciência é, portanto, uma briga do homem para limitar o próprio universo, indistintamente à “vontade” deste. Tal como a definição metafísica divina, o homem busca subjugar o universo pela ciência. Talvez, aí, Bacon tenha sido o mais honesto de todos: saber é poder.

Mas e o leigo? Que tenha, então, orgulho de se considerar leigo, nesta busca infinita pelo saber. O leigo, tornar-se-á, então, um filósofo, na melhor versão de seu significado. Leigo, enquanto adjetivo, torna-se algo bom, desejável, se conscientemente percebido. E eis que Sócrates já tinha alcançado tal conclusão.


BIBLIOGRAFIA

Losee, John, 1932-; Introdução Histórica à Filosofia da Ciência, Editora Terramar.

Bacon, Francis, 1561-1626; Novum Organum, Acrópolis, Tradução José Aluysio Reis de Andrade – ebook: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/norganum.html.

Bachelard, Gaston, 1884-1962; O novo espírito científico, Editora Abril.

Popper, Karl, 1902-1994; The Logic of scientific discovery.

Kuhn, Thomas, 1922-1996; A Estrutura das revoluções científicas.


[1] A noção de «obstáculo epistemológico» é defendida por Gaston Bachelard e significa que é através dele que se analisam as condições psicológicas do progresso científico. Assim, o sucesso da ciência reside, primeiramente, no reconhecimento dos obstáculos e, depois, na sua superação.

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