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Glossário Conceitual do Possível

(em construção)

Termos mais relevantes utilizados no livro [O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida] e que carregam algumas das citações publicadas, a servirem tanto como referências quanto para saciar a curiosidade intelectual.

As definições, na íntegra...

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  • Abismo -

    O abismo é o que separa os modos de ser e de existir. No abismo, não há linguagem, nem idioma, nem palavras, apenas sentimentos viscerais, apenas hiatos entre a subjetividade e a consciência, e a objetividade e a transcendência. É o corpo que fala, ao imaginar cair no abismo e a percebê-lo, em espírito a levitar no vazio. É no contato com o abismo que se manifesta o sagrado individual.

  • Acontecimento -

    Ocorrência que é apreendida pelo sujeito, que pode ser algo provocado diretamente por ele ou não. Todo acontecimento se transforma em apreensão de acordo com a interpretação que lhe é dada, por isso é sempre algo individual, em última análise.

  • Aderência -

    A aderência é o nível de adesão ideológica, independente se há ou não o conhecimento da tal influência transcendental, ou se esteja em uma realidade artificial absurda, ou se haja o estranhamento ou a hesitação – uma maior aderência desprezará tudo isso e fará seguir em frente.

    E sempre será assim se o interesse no que está fantasiosamente a ser apresentado for maior do que a realidade mais simplória da vida e, assim, podemos afirmar que tanto maior for o deslumbramento ideológico, maior será a aderência à ideologia. São profundamente aderentes os crentes moralistas, mas não apenas estes, pois todos temos nossos pontos fracos, nossas vulnerabilidades, ou “botões”.

    Vale perceber que a aderência é voluntariosa e quase sempre consciente, e surge do que vem das possibilidades, quando há a capacidade de se perceberem as oportunidades presentes, obviamente, ao se estar aderente. É o estado de legitimidade para receber os bônus pela fidelidade ideológica. Não é nada compulsório, mas sim fruto dos interesses mais profundos dos indivíduos, que chegam mesmo às bases morais. A fuga é impossível, pois sempre se acaba voltando para a ideologia, pois nunca se está totalmente fora dela.
    Mas a ideologia não é a produtora de nada, ela é o próprio produto. Ela não vive, mas é vivida. É um produto que atrai, seduz, e faz com que todos se movimentem por ela, e em sua direção. Eis a diferença.

  • Ameaça -

    O oposto da possibilidade ideológica. E quem ou o que seja estranho a este universo ideológico e não consiga ser “convertido” para comungar exclusivamente dos mesmos valores, passa a representar uma ameaça e logo será tido como inimigo.

  • Anestesia -

    Paliativos mentais que distanciam o sujeito incomodado pelo contacto com o real a fugir para as zonas seguras do possível, a se distanciar do impossível cruel e inegociável. As anestesias são produtos, sempre, e por isso não são gratuitas nem passivas, pois possui um mercado gigantesco que promove a dor enquanto oferece o analgésico existencial, em simultaneidade. Estimula o consumo e oferece o crédito, por exemplo, para além das clássicas religiões, esportes, etc, que fazem adormecer a todos os que se deixam encantar pelas promessas existentes.

    "As razões, assim, pouco importam para a abordagem que a autoajuda estabelece, assim como todas as outras seitas que denominaremos de “anestesias”. O que importa, como anestesia, é que se deve prosseguir e ignorar esta mensagem considerada autodestrutiva, negativa, sem nenhuma razão para ser significativa, pois tudo o que deve importar realmente deve ser completamente objetivo, deve estar na estrutura material do mundo e das posições estabelecidas na estrutura vigente.

    E assim, tudo o que está contido no conjunto das anestesias, passa a emitir as poderosas mensagens sugestivas – as mesmas ideias “positivas” que são artificialmente compartilhadas pelo marketing eficiente das maiores marcas[1] mundiais: «vá em frente, mantenha-se a caminhar», seja para a vida ou para o mundo dos whiskeys, «apenas faça isto», a correr em seus novos tênis em mundo cada vez mais acelerado. As mais poderosas mensagens publicitárias sempre são grandes sínteses dos imperativos objetivos que estão na ordem estabelecida do mundo. Tudo direcionado para a positividade, que alguns mais esclarecidos já acrescentaram um sobrenome, e virou a «positividade tóxica», que felizmente começa a ser combatida, mas que infelizmente pela forma como se combate a toxicidade a fortalecerá ainda mais." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. III)


    [1] Julie Bramham, diretora global de marca da Johnnie Walker, disse «a Johnnie Walker sempre foi otimista e um exemplo de progresso - é isso que significa Keep Walking… são duas pequenas palavras que falam muito sobre positividade, possibilidade e resiliência». Acedido em 23/04/2022 no site https://www.prnewswire.com/news-releases/johnnie-walker-lanca-nova-campanha-keep-walking-para-fazer-o-mundo-se-movimentar-novamente-820753033.html. «A campanha "Just Do It" incorporou a imagem da Nike como um ícone americano inovador associado ao sucesso através da combinação de atletas profissionais e slogans motivacionais enfatizando o espírito esportivo e a saúde. Isso levou os clientes a associarem suas compras com a perspectiva de alcançar a grandeza». Acedido em 23/04/2022 no site https://en.wikipedia.org/wiki/Just_Do_It.

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  • Anomalia -

    Algum acontecimento apreendido de forma diferente do que o esperado. Um desprazer que se origina de algo que deveria dar prazer, por exemplo. Há a função que decorre das anomalias que dão uma profundidade extra aos acontecimentos como, por exemplo, o gozo, quando ocorre um prazer consciente concomitantemente a um desprazer inconsciente, ou vice-versa. Uma anomalia é sempre algo precioso e rica em dimensões interpretativas.

    "O que nos ocorre então, como anomalia? Ao invés de se termos a sensação de se viver a breve eternidade nas frações de segundos, passamos a se ter algo oposto, que é sentir uma redução da própria existência, como se estivéssemos a sair de uma infinitude espacial para adentrar compulsoriamente em uma prisão temporal, numa cela diminuta e claustrofóbica que nos restringirá os movimentos. Saímos da leveza da liberdade eterna e percebemos logo o tempo como um insensível carcereiro existencial. Nosso espaço e tempo se fecham em nós, simultaneamente, a nos dar paredes ao redor e tic-tacs de ponteiros de um relógio que começa uma contagem sem fim, ou melhor, com um fim que sabemos existir." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. II)

  • Apreensão -

    A apreensão é a interpretação individual de um acontecimento e a forma como este acontecimento passa a ser significado. A apreensão se refere a valores, e não propriamente a conteúdos, dado que é uma síntese significativa do acontecimento.

  • Ascenso Estrutural -

    "Ao se prosseguir nas decisões que a vida exige rumo ao “topo”, o sujeito começa a perceber que sempre que “vence” e ascende na estrutura passa a ter menos possibilidades para exercer a liberdade prometida e desejada. Parece que terá sempre menos possibilidades, que ficará mais preso. Mas tudo isso é apenas suposições, visto que nunca poderá ser uma informação precisa e certeira, até pela dificuldade de conceber quais são todas estas restrições, especificamente. Mas, mesmo que não consiga perceber todas as possibilidades que deixará de ter, será sempre mais óbvio perceber todas as impossibilidades que surgem imediatamente nos pensamentos. E isto se dá a partir de que precisará deixar sua atual posição para trás, e deixar de ter as possibilidades que tinha, mais facilmente acessíveis. É uma luta de suas crenças, desejos e vontades a combaterem entre si, entre os tempos que são conhecidos e desconhecidos no lapso temporal aberto.

    Ou seja, um combinado de lástimas: precisará largar as atuais possibilidades e isto gera um sentimento de perda, ao passo que simultaneamente perceberá muitas impossibilidades para onde está a se dirigir e não saberá sequer quais serão as novas possibilidades que terá no futuro imediato, mas sente que serão em menor número, o que não parece ser uma vantagem ou vitória. Tudo isso a formar uma bomba mental prestes a explodir, um perigo iminente e que se faz necessário ou correr em desatino ou ficar completamente paralisado, a fingir-se de morto, ou mimeticamente disfarçado. Pode-se lutar, e continuar, e alguns fazem, ao seguirem adiante. É uma cilada, de todas as formas! E isso gera incertezas, mas não apenas elas. Há alguma lógica nisto tudo. Parecem existir mais determinismos sobre o que se espera que se faça quando mais alto se está na estrutura da vida, e isto é muito contraditório, pois progredir passa a significar que, ao invés das máximas possibilidades e das liberdades para curtir tudo o que há, contrariamente ocorre um aprisionamento dentro de uma estrutura que exigirá maior dedicação e que muito menos sobrará ao sujeito a ocupar uma posição “superior”, ao passo que muito valorizará o objeto que este passará a representar, ao transformá-lo exatamente neste mero agente funcional, em uma peça da engrenagem que opera tudo para ser como é." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)

  • Autoajuda -

    Uma seita neoliberal - provavelmente a maior do mundo, em que tudo resolve e soluciona, a formar humanos superiores e adaptados a quaisquer cenários, desde que continuem a consumir incondicionalmente o que ela propõe como problemas e soluções.

    "A contemporânea e onisciente seita da autoajuda é uma destas promessas, por exemplo, sempre a ter uma alternativa de “solução” precisa e universal para tudo o que ocorre com qualquer pessoa no Universo, e talvez fora dele, se houver mercado para tal, afirma que este problema do mal – a tal inconformidade com o mundo – é um legítimo processo de autossabotagem. Pronto, resolvido! Daí o sujeito passa a acreditar que não fica feliz em prosseguir pois quer se autossabotar, se destruir, por alguma mazela não superada incrustada em seu passado ou na visão distorcida que tem na nobre e suposta humanidade. Mais um caso resolvido, mais um cliente conquistado e encantado e que continua a culpar-se por tudo, como antes.

    Ainda que fosse verdade tal hipótese e que seja mesmo um autossabotador da melhor estirpe, por qual motivo que não deseja mais prosseguir adiante rumo ao sucesso a aguardar por ele no topo dos topos? Há que se ter razões claras, no mínimo! Por que ele não consegue prosseguir ao menos movido de uma vontade forte o suficiente para reparar o que supostamente fez de mal no passado, por exemplo, ou ainda para fazer melhor e deixar a sua marca da vitória? Por que optar por um ato de terrorismo aplicado a si mesmo? São estas algumas das questões que a autoajuda nunca permite serem feitas, pois ela funciona sempre como algo inconsciente, que apenas emite informações que são perguntas já com respostas prontas, sem nunca interagir com questionadores. A autoajuda faz a pergunta e dá as respostas. Estabelece um problema, formata-o e dá uma solução. E tudo tem de se adequar ao que ela estabelece. E, como há uma indústria para produzir problemas e soluções, sempre terá alguma que se adequará ao indivíduo. Para isso há a produção das soluções universais e incondicionais que vão direcionadas para todos os necessitados, sem deixar ninguém de fora." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. III)

c
  • Cinismo -

    "A melhor postura Cínica é quando se discursa sobre algo, argumentativamente, em termos que vão á exaustão conceitual, dentro de todos os recursos possíveis, mas, ao final do seu discurso, quando todos estão convencidos de sua argumentação, como se estivessem, enfim, em contato com a verdade última das coisas, e o filósofo é aplaudido efusivamente, de pé, por longos minutos, com brados e flores jogadas a seus pés, numa comoção generalizada e, após todos cessarem os aplausos, este se volta novamente à fala, antes de deixar o púlpito, e diz à plateia que ainda o aplaude, depois de pedir silêncio, na mesma “voz confidencial e discreta” como foi descrita por Žižek que enquanto filósofo e orador, por vezes, nos discursos proferidos, ele filosoficamente mente um pouco, mas só um “pouquinho”.

    Pois o verdadeiro Cínico não quer mesmo convencer ninguém, quer é que todos tenham em si todo o discernimento que ele julga ter e a dúvida, assim, é algo sempre desejável. O argumento bom é aquele contrário, que não leva a nenhuma certeza, mas sim a uma maior capacidade intelectual. Se o cético não acredita ser possível alcançar a verdade, e o sofista não acredita que exista a verdade, o neocínico acredita que os dois, tanto o cético quanto o sofista, podem estar certos conforme a perspetiva em que estejam, assim como também todos os outros que discordam destes, e possuem suas teorias acerca da verdade.

    Para o Cínico, as frases precisam estar vazias, para que haja o perspetivismo desejado. Frases perfeitas são formas funcionais sem conteúdos tidos como verdades absolutas presas a elas. Há que se perceber bem que a ingenuidade, se definida como credulidade excessiva, por vezes, é algo mais aceitável do que a presunção pela apreensão de alguma credulidade absoluta e irrefutável que, mais cedo ou tarde, acabará por cair à terra. O ingênuo é caracterizado por ter uma credulidade excessiva em algo. Um Cínico, verdadeiramente Cínico, assim, não poderia ser ingénuo, pois não se apega a nada, pelo contrário, é um desapegado por definição. Há uma inconsistência conceitual na crítica de Žižek ao atribuir ingenuidade aos Cínicos, visto que todos, exceto os Cínicos, estão atrelados a seus papéis na estrutura.

    Há muitas histórias sobre os filósofos Cínicos do passado, mas de onde vem o Cinismo?

    Sócrates foi, sem dúvida, o marco da Filosofia, o que a divide entre antes e depois dele. Ao aceitar passivamente sua pena de morte por envenenamento e, assim, pelas suas ações, a inspirar os pilares do que consideramos ser a Ética, teve em seus discípulos o seu maior legado, pois, se antes os desafetos políticos teriam de lidar apenas com ele, Sócrates, depois de sua morte seriam seis os discípulos que estariam efusivamente a falar por ele. Platão foi o mais famoso, obviamente, mas todos os outros cinco vieram a fundar escolas filosóficas.

    Depois de Platão, o mais relevante foi Antístenes, que veio a fundar o Cinismo. Sócrates, assim como Antístenes, tinham uma coisa em comum: não davam nenhum valor às escritas, pois desprezavam o valor de tudo o que não fosse uma filosofia prática, verbal, feita no devir, argumentativa, em que a verdade emergia tal como um parto, pela maiêutica, a elaborar questões que levariam o interlocutor a duvidar de suas próprias certezas para, assim, atingir um conhecimento mais próximo do que seja a verdade, se não ela própria. Mas, ainda assim, existem diversas obras que foram atribuídas a Antístenes, mas que se perderam no tempo, em sua maioria.

    Seria o trabalho de Platão tão rico e valioso se Sócrates tivesse se dado ao trabalho de escrever seus próprios pensamentos? E o que seria se os trabalhos escritos de Antístenes tivessem sido poupados e chegados até os dias atuais, tais como os de Platão? Algo que nunca saberemos, mas a questão é tentadora, para aquém de toda a magnitude e relevância de Platão, que é incontestável. À época, havia uma predileção pela oralidade, em relação à escrita. Platão, inclusive, dividia-se entre as duas e foi assim que passou a dar relevância à escrita, felizmente, que nos possibilitou seu imenso legado. Outra questão, seria se Platão tivesse escrito tudo sobre sua Filosofia verbalizada, o quanto mais não teríamos hoje. Eis o paradoxo da oralidade: é tão mais excelente pela qualidade quanto mais efémera.

    Mas o que sabemos que tanto Sócrates quanto Antístenes e seus discípulos Cínicos davam imenso valor a uma filosofia prática, funcional e aplicada às questões reais e verdadeiras da vida, que dela surtissem ferramentas para lidar com os problemas que é o viver, tal como o que ocorreu com Sócrates, por exemplo. O Cinismo, aliás, é tido por muitos como o “pai” do que veio a ser conhecido como o Estoicismo, que atualmente é a mais “queridinha” escola filosófica, ao menos para os mais afins com o neoliberalismo, embora muitos não desconfiem desta velada dupla condição.

    Por isso, o conceituado historiador da Filosofia, Giovanni Reale, destaca que «Antístenes destacou sobretudo a extraordinária capacidade prático-moral de Sócrates, como a capacidade de bastar-se a si mesmo, a capacidade de autodomínio, a força de ânimo, a capacidade de suportar o cansaço. Limitou ao mínimo indispensável os aspetos doutrinários, opondo-se duramente ao desenvolvimento lógico-metafisico que Platão imprimira ao Socratismo»[1].

    Há um reducionismo natural em toda a filosofia Cínica, em que o conhecimento é colocado sempre em perspetiva, onde tudo é explicado a partir de analogia para que, assim, seja explicado um determinado contexto em que o conhecimento se dá, a partir de um nome que cada coisa particular possui, e nada mais além disso. As coisas complexas são explicadas pelas composições das coisas simples e, sempre, como dito, em perspetiva. E isto não agrada aos crédulos filósofos que acreditam na precisão conceitual e na exatidão da verdade que pode ser atingida, tal qual uma demanda pelo Graal que estão a empreender desde sempre. Mas, como um neocínico, digo que eles estão certos, ainda que sob a perspetiva deles, embora tanto eles, quanto eu, poderemos mentir um pouco, às vezes, mas só um “pouquinho”.

    O Cinismo foi um movimento, antes de tudo, de anticultura. E a cultura, naquele tempo, era a investigação teórica e abstrata, do estabelecimento de conceitos, de estabelecer modelos sobre o conhecimento e sobre o mundo. Os Cínicos queriam algo essencialmente pragmático. O mais famoso dos Cínicos foi mesmo Diógenes de Sinope, que diziam viver em um barril e nada possuir, e era este o seu marco anticulturalista, de negar todas as convenções sociais e reduzir suas posses ao mínimo possível. Foi o primeiro minimalista da história, e o precursor dos movimentos da contracultura, assim reconhecidos nos anos 60, como por exemplo os dos hippies. Para Diógenes, a liberdade para agir e se expressar era o maior bem, além da liberdade de tudo o que pode prender alguém a uma estrutura, que é fortemente negado por ele." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)


    [1] Reale, Giovanni. História da Filosofia. Volume l. São Paulo: Paulus. 2003, pg. 106.

  • Compatibilismo -

    Há um ensaio escrito sobre o a ação humana, em relação ao determinismo, livre arbítrio e compatibilismo, especificamente. Clique aqui para saber mais.

    "Há ainda o compatibilismo, que mescla o determinismo com o livre-arbítrio, com uma “relatividade” para cada escolha que se faz, a assumir que certas deliberações serão mesmo determinadas, e assim o livre-arbítrio não será exequível. Relatividade é um termo mais conhecido, mais usual, que antagoniza com a universalidade. Pois enquanto a universalidade se aplica a tudo o que há, a relatividade pressupõe que a aplicação seja apenas ao que se está a referir. Nem um, nem outro, portanto, são lá muito assertivos. O melhor termo para superar este problema criado pela linguagem, já apontado por Nietzsche, é o perspetivismo. Pois, nem é algo meramente relativo, vazio e individual, tampouco universal, mas contempla algum grau de universalidade (portanto, sem uma universalidade em si) e algum grau de relatividade, sem ser totalmente relativo. O perspetivismo considera sempre um contexto, um conjunto de condições e situações que são relevantes para o conjunto considerado. Por isso, os sentidos dos termos que utilizarei serão sempre estes: uma universalidade convencionada, mas em perspetiva, ou uma relatividade conceitual, também em perspetiva, ou apenas a própria perspetiva." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

  • Crise Existencial -

    É um processo complexo decorrente dos embates dos juízos críticos com os morais, a partir de certos acontecimentos (ou até mesmo com os não-acontecimentos).

    "Nada mais faz o mesmo sentido, se é que alguma vez tenha feito. Assim, assumimos que nunca fizemos o que realmente queríamos fazer, mas sim o que esperavam de nós, e nos percebemos como diferentes do que somos, do que sempre fomos. Mas parece que o tempo não corre, parece que o estranhamento está a ocorrer como se tudo estivesse a acontecer no momento da vitória. Coisas de dez, vinte anos atrás, parecem que estão a ocorrer naquele exato momento que estranhamos e hesitamos. O estranhamento tardio não perde sua característica de implodir a perceção do tempo, e o passado se junta ao presente.

    Alguns chamam de crise existencial, como se fosse um evento único e isolado a ocorrer uma, ou algumas poucas vezes, ao longo da vida. Ocorrem, provavelmente, diariamente e tanto mais quando a consciência é mais dotada de qualificações intelectuais preditivas mais desenvolvidas. Pois mentes assim passam a fazer mais uso de seus juízos críticos sobre a realidade que se apresenta a ela, por assim dizer. A questão é saber quando se está a ignorar os estranhamentos e os riscos envolvidos." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. II)

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  • Deliberação -

    "Não se deve esquecer, portanto, que ter a consciência sobre algo é suficiente para que haja a intencionalidade acerca deste algo. Ter a consciência da existência, das possibilidades, não requer que a coisa exista como oportunidade. Assim, alguém que esteja no topo, poderá não ter mais algumas opções para si sobre algo, mas saberá que este algo existe, pois carrega consigo esta consciência e também a própria consciência acerca da privação deste algo, o que não pode ser tão confortável assim para quem julga ter condições de possuir tudo o que desejar. São as complexidades humanas, afinal, que habitam em nós em suas contrariedades.

    Mas, pensemos nesta suposta vida dos que estejam alocados no topo. Quando se precisa agir, ainda que sob a tutela da astúcia da razão, o que ainda propicia uma suposta sensação de liberdade, mesmo assim pode-se sempre contratar uma outra pessoa que decidirá por si, que é um “personal professional deliberator”, alguém capacitado para escolher por alguém que não quer ter este esforço deliberativo. E supostamente, assim, o número de decisões do abastado sujeito que não quer mais decidir cairá, tanto mais se esteja no topo ou próximo a ele. A estrutura a sua volta, pelas ações dos subordinados ou empregados, tratará da maioria dos assuntos cotidianos que lhe dizem respeito, e pouco sobrará para decidir ou escolher, como se tudo viesse automaticamente ao seu encontro. A vida no topo parece correr de forma que supostamente terá todo o tempo do mundo, ao que parece, sem as rotineiras e desgastantes decisões que todos os simples mortais precisam tomar. Mas, os decisores profissionais, ainda assim, estarão na instância de deliberarem, pois a deliberação precisa ser realizada, sempre, haja o que houver, seja por quem for.

    O estatuto de deliberar pode, então, mudar de mãos, mas não se extingue, todavia. Ainda que as escolhas não sejam feitas pelo sujeito, ele tem consciência de todas elas, e são deles as consequências, as resultantes. Ele escolheu não escolher, mas nunca poderá escolher não agir, pois, se nega uma deliberação que feita para si, já está a renunciar sua escolha anterior, de não escolher diretamente, ou não escolher nada mais, ao mudar de atitude e deliberar a favor de outras escolhas, que sempre estiveram consigo, e sempre estarão, pois não há como fugir delas. E isto pode ser considerado como ilusão, portanto, pois o sujeito sempre estará a lidar com suas possibilidades, obrigatoriamente. A vida “fácil”, sem escolhas, é uma ilusão trabalhada à perfeição pelas obras literárias e teledramaturgias.

    A facilidade da vida, no imaginário popular, passa a ser considerada como proporcional à ociosidade, que resulta da menor complexidade de se deliberar sobre questões diversas. Pois escolher é sempre correlacionado aos desejos, ao que se quer. E, como se sabe, este é um campo minado e complexo de se lidar. Por isso, a felicidade suprema pode ser interpretada como o não mais desejar nada, ou não mais deliberar sobre nada, pois será assim quando tudo se tem ou quando nada mais lhe faz falta. Foi exatamente assim que os Cínicos da antiguidade buscaram como sua melhor forma de viver a vida, ao virarem as costas para todas as formas organizadas de estruturas que os levassem a ocupar posições deliberativas." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

  • Determinismo -

    Há um ensaio escrito sobre o a ação humana, em relação ao determinismo, livre arbítrio e compatibilismo, especificamente. Clique aqui para saber mais.

    "Quem defende o determinismo defende que a suposta escolha da pessoa é ilusória, pois considera que não haja opções verdadeiras ou realmente acessíveis para o decisor e invariavelmente este sempre escolherá o que já foi determinado por outros fatores não meramente racionais, antecipadamente, de forma declarada ou não, e que acarretará em uma previsibilidade total para todas as suas ações. Assim, algumas das causas apontadas para os defensores deste determinismo poderiam ser as biológicas, orgânicas, sociais, circunstanciais, educacionais, cívicas, etc. Veremos ainda que isto terá correlação com os valores morais utilizados para selecionar as melhores opções.

    O filósofo brasileiro Clóvis de Barros Filho (1966,-) define bem o que é o determinismo a nível biológico e comportamental, ao dizer que o sapo “sapeia”, o gato “gateia” e o cachorro “cachorreia”, visto que a racionalidade existe nos animais, mas não suficiente para ultrapassar a cadeia de acontecimentos que dão a eles comportamentos extremamente previsíveis, num nível de condicionamento que nos faz perceber este determinismo a tais níveis mesmo com racionalidade presente capaz de se fazer livre e autossuficiente. Talvez, assim, o humano seja igual, mas a um nível mais sutil, ou menos percetível. É mais uma hipótese, afinal.

    Há também o determinismo divino do filósofo holandês Baruch Espinoza (1632-1677), a partir de sua brilhante conceituação de causa imanente, em que a causa está no efeito, e o efeito está na causa, a contrariar as teorias causais de Aristóteles, que coloca uma causa final, transcendental, como responsável última dos acontecimentos. Assim, Espinoza constrói uma teoria racionalmente consistente acerca da imanência, em detrimento da transcendência do Uno[1] neoplatônico e da transcendência do Demiurgo[2] platônico, ao defender que o homem está em tudo, e este tudo está em deus, que tanto afeta quanto é afetado. E, dentro deste contexto, não haveria para o homem a liberdade, mas sim um estar dentro de algo maior do que ele, mas não superior, e sim integrador de tudo." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)


    [1] «Plotino ensinou que existe um ser supremo, totalmente transcendente o "Uno"; além de todas as categorias do Ser e Não-ser. Seu Uno "não pode ser qualquer coisa existente", nem é simplesmente a soma de todas as coisas [comparado a doutrina dos estoicos da descrença na não-existência material], mas "é antes de tudo existente". Plotino identificou o Uno com o conceito de 'Bom' e o princípio da "Beleza". O Uno engloba o pensador e o objeto. Até mesmo a inteligência autocontemplante (a noesis do nous) deve conter dualidade. "Depois de ter chegado no 'Bem', não adicione nenhum pensamento a mais: em qualquer adição, e em proporção daquela adição, você adiciona uma deficiência.". Plotino nega a senciência, consciência de si-ou qualquer outra ação (ergon) para o Uno». Poderá saber mais em https://pt.wikipedia.org/wiki/Plotino#O_Uno, de onde foi retirado este trecho, em 17/09/2022. Há também uma conceituação mais formal a partir da página 368 de: Reale, Giovanni. História da Filosofia. Volume l. São Paulo: Paulus. 2003.

    [2] «O uso filosófico e o substantivo próprio derivam do diálogo Timeu escrito por Platão em 360 a.C., a causa do universo, de acordo com a exigência de que tudo que sofre transformação ou geração (genesis) sofre-a em virtude de uma causa. Diferente do deus cristão, o demiurgo não cria ex-nihilo, mas a partir de um estado preexistente de caos, tentando fazer seu produto assemelhar-se ao modelo eterno das Formas, assim a atividade do demiurgo compreende observar as Formas, desejar que tudo seja o melhor ou mais similar possível ao modelo eterno e perfeito.». Poderá saber mais em https://pt.wikipedia.org/wiki/Demiurgo, de onde foi retirado este trecho, em 17/09/2022. Há também uma conceituação mais formal a partir da página 137 de: Reale, 2003, ibidem.

  • Dialética Hegeliana -

    "...o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel apresenta a história como a resultante da manifestação inteligente de um espírito racional absoluto – não, não é a mão invisível do mercado a que Hegel se referiu, caso algum leitor seja um neoliberal que esteja agora a suspirar, esperançosamente. E este espírito hegeliano é a própria racionalidade manifestada. E, assim, é este espírito integralmente racional que possui uma regência da vida e dos acontecimentos, de uma forma ou de outra, pela ordem que estabelece a partir de sua atuação fenoménica.

    Se pensarmos assim, como Hegel, a grosso modo, apenas, sem objetivos profundos de elaborar todas as questões que saíram e ainda saem destas impressionantes premissas hegelianas, podemos perceber que os grandes líderes das nações, responsáveis pelos acontecimentos de grandeza e magnitudes de transformações que fizeram “mudar” o rumo da história, sempre foram como marionetes, como atores a representarem papéis que lhes foram dados, ou quase isso, pelas mãos deste espírito e, por mais que eles quisessem “mudar” os rumos que a história tomou, nunca o teriam conseguido. Pelo contrário, eles lá estiveram, ou estão, pois fazem parte deste plano racional do tempo sucessivo, entre acontecimentos provocados para serem o que deveriam ser. Estavam no topo e, mesmo assim, não conseguiriam fazer diferente do que foi feito. Seriam eles (e nós) decisores ou meros executores?

    Hegel até pressupõe que exista um limite individual para as liberdades de escolhas, supostamente ilusórias, que é representado pela “astúcia da razão”, como oferta ou graciosa dádiva deste mesmo espírito absoluto, em que permite o sujeito fazer, no campo da vida individual, pequenas ações supostamente contrárias à razão, mas que estas nunca influenciariam o macro curso da história, sempre gerida com precisão por este espírito absoluto que então estabelece uma linha de destino dos acontecimentos, previamente traçada pela razão absoluta, e que é um desenrolar de desdobramentos e acontecimentos sucessivos e dialéticos que sempre ocorrerão, independente das individualidades. É como se a razão fizesse tolas concessões a cada um de nós, para que pudéssemos ter ilusões sobre nossas individualidades e capacidades de tomadas de decisões, mas todas inócuas, afinal. Na hesitação, ocorre algo semelhante, em que o sujeito passa a perceber que não estará a agir por sua própria vontade, ao perceber que deixará de comandar como supunha ser e passará a ser comandado, ou subjugado. É um assinte para o orgulho humano, todavia. E isto é um processo dialético, sempre, e Hegel apresenta, cirurgicamente, o mecanismo em que tudo se dá e como tudo se opera pela gestão direta da racionalidade histórica.

    A dialética de Hegel é composta por três partes e pode ser exemplificada e compreendida através do (1) curso corrente, a transcorrer, como a vida bem formada, estável e sustentável, em paz, com progresso e felicidade, bem ao estilo dos comerciais de margarinas de uma família de Orlando, Flórida. Uma rotina em que todos possuem seus lugares e o mundo progride lindamente. Esta é a situação imaginada e presente nas conceituações sobre uma vida desejável. É o possível. Mas, logo, (2) haverá algo que aconteça, e que seja considerado como ruim ou mal, como negação do bem, a causar desordem na ordem estabelecida, a ameaçar o status quo ou o establishment, a se mostrar como impossível, mas que se faz necessário para, pela (3) reação e superação, se elevar ao progresso, à melhoria evolutiva dos tempos, talvez com a família a viver no Dubai. E o que resultará de todo este processo será a síntese que supostamente será melhor do que antes, enquanto havia a suposta paz e progresso dos comerciais de margarinas, ou algo tão cringe como isto. Há sempre mais a se obter daquilo que já existe – eis a justificativa hegeliana, mas é preciso um conflito para causar o progresso. E, assim se dá a evolução, racionalmente.

    A partir desta dialética, que é mesmo convincente como processo de construção estrutural, em que as antíteses, estes “males” desestabilizadores e determinantes, que representam o mal das impossibilidades, ao chocarem-se com as teses, o establishment, provocam um nó espaciotemporal que levam a uma síntese, a se projetar como uma nova situação, que passará a ser a nova tese, e a reiniciar um ciclo melhorado e autossustentável, até que surja uma nova antítese, visto que apenas as forças objetivas ficam expressas e válidas e o ciclo se estabelece infinitamente, independente dos que atuem nesta estrutura dialética. E o mundo passa a ser operado da forma como o conhecemos, aos trancos e barrancos, muito hegelianamente. O “mal”, assim posto, passa a ser “bom” e útil, e não apenas destrutivo ou antagónico, pela função transformadora que opera na sociedade, e pelo resultado que emergirá de seu efeito." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)

e
  • Esquema Conceitual do Possível -

    É um modelo didático no qual se pode perceber a dinâmica constitutiva da vida estrutural: a existência, e como ela se dá no mundo. O esquema divide-se em sete esferas concêntricas, na qual a menor e mais nuclear é a (1) moral, seguida pelos (2) relacionamentos, (3) regras, (4) modos existenciais, (5) marketing ideológico, (6) ideologia e (7) real - o impossível. O esquema foi fundamentado filosoficamente e em detalhes no livro O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida.

  • Estranhamento -

    Uma anomalia, antes de tudo, de algo que diverge do esperado pela conformidade ideológica vigente. É uma quebra de fluidez que ocorre no devir, e faz parecer que o tempo pare de correr como antes e que o foco seja transferido para um acontecimento que parece anômalo, a ocorrer o estranhamento.

    "Pois este estranhamento acaba com a certeza sobre o sentido da própria vida e nos faz perceber uma grande dúvida sobre a realidade vivida no instante da apreensão da vitória, quando nossa consciência busca apurar se aquilo que se está a viver é mesmo real, a colocar nossa razão em dúvida, quando percebemos algo como um grande vazio interior e exterior, uma sensação de frio na barriga que nos diz que somos puro vácuo, e que por isso nos dificulta apreender o que se está realmente a nos acontecer em tais momentos. Ao buscarmos uma subjetividade elucidativa, somos tomados por um vácuo existencial e nos percebemos diferente de tudo o que há: como uma presa fácil e dócil a adentrar na arapuca." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. II)

  • Eterno Retorno -

    O eterno retorno é uma escala de validação da vida apresentada por Nietzsche, a partir das forças que há em você e que devem sair do mundo da lua para viverem tragicamente o que há para si, a enfrentar com todas as suas forças o que virá na vida. Seria como se, ao chegar ao inferno, o fizesse com alegria, a abraçar o demônio, a declarar as saudades existentes e a confraternizar com todas as celebridades e políticos que lá estarão, enfim acessíveis a todos nós, ainda que um pouco mais bronzeadas. O eterno retorno é isto, quando o sujeito precisa trazer para sua vida valores imanentes, facilmente percebidos e avaliados, para valorar o momento vivido e perceber se nele há a sua máxima intensidade, ao ponto de que este valores representem o melhor que o sujeito poderia desejar para si, nesta eternidade em que dura o instante vivido, da vitória ou da derrota, ao ponto de que deveria, ele mesmo, desejar um eterno retorno deste momento vivido.

  • Extremista -

    "Para outros, viver de forma totalmente determinada seria um sonho perfeito, muito desejado, por exemplo, para os neonazistas saudosos dos tempos que nunca viveram, ou também dos que querem abrir mão da democracia ao clamarem por ditaduras, pois são estes que consideram o passado como se fosse a paz absoluta no paraíso dos supremacistas. Sim, o que estes saudosos pelo que nunca viveram buscam é mesmo isso, e é também o que todos buscamos: possibilidades. Mas, ainda assim, de formas diferentes, e bastantes distintas, por sinal.

    Os nazistas não quiseram, assim também como os neonazistas não querem também, obviamente, apenas ascender na estrutura, mas sim quiseram rebaixar, ou extinguir os que consideraram (ou consideram) não estar de acordo com seus níveis distorcidos de valor, e que por isso acreditavam que deveriam ser expurgados da estrutura, ou da vida. E foi isso que fizeram num dos mais tristes e reprováveis eventos históricos que podemos considerar. E que não foi o único assim, pois tiveram outros, nos inúmeros genocídios que a História da suposta humanidade registou.

    Deliberam assim também os xenófobos, racistas, misóginos, homofóbicos, os fundamentalistas religiosos, os desportivos torcedores radicais e tantos outros grupos interessantes e atraentes para os muitos que desejam mais da vida e desejam atingir o topo sem, contudo, conseguirem ou precisarem dar mais de si, ou mesmo por perceberem que lá, bem lá no fundo, não poderiam competir em pé de igualdade com os que desejam eliminar, se estivessem em iguais condições de competitividade, pois se percebem menos capazes do que os que odeiam justamente por esta razão. E isto passa a ser amplificado mentalmente pelas suas próprias frustrações e geram pulsões por ações destrutivas que são direcionadas aos “oponentes” que elegeram como alvo de suas próprias agruras. Querem, como todos, as possibilidades mais próximas de si, mas não ao ponto de serem oportunidades – e quase tudo se resumirá a elas, afinal.

    Entender estes grupos é perceber que querem o topo sem o ônus do esforço, mas sim por rebaixarem a todos os demais, ou extinguirem as ameaças competitivas. São covardes e com um imenso complexo coletivo de inferioridade. O que seria de Adolph Hitler (1889 – 1945) sem o sentimento de inferioridade germânico depois do fiasco da Primeira Guerra? O que seria o sentimento de todos os movimentos políticos extremistas sem tal perceção de inferioridade? É uma questão, sempre, de perspetiva social de grupos atraídos (e traídos) pelos seus piores medos. O covarde é sempre um medroso extremado ao ponto de defender a posse de armas, as penas capitais e todo o tipo de agressão e segregação que poderá emergir de suas crenças." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

f
  • Fenomenologia -

    "Portanto, se há a intenção, há a existência na mente, que é o que importa, mesmo que na realidade o objeto não exista como coisa. Poderá vir a surgir, ou não. E isso, algo aparentemente simples, agora, resultou em uma nova revolução filosófica, quando o discípulo de Brentano, o filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), avançou com a sua fenomenologia.

    Pois, foi relevante a dimensão com a qual Husserl reintroduziu o objeto, como forma de relação entre este e o sujeito, em seus estados conscientes com seus conteúdos mentais para tudo o que consideramos existir no mundo, em estados intencionais e mentais. Husserl não priorizou, separadamente, nem o sujeito e nem o objeto, mas sim a relação que se dá entre estes.

    Para tudo o que possua conteúdo mental, no sujeito, existe em uma dimensão própria, intencional, a qual este se conecta, quando este sujeito é quem passa a responsável pela manifestação intencional do existente, especificamente do objeto ao qual atribui algum conteúdo mental, pelas sensações ou formas diversas de perceção, por apreender algo sobre este objeto, e tudo o mais, ou por assim dizer, estabelece sua declaração de existência, em dada relevância. A partir deste fenómeno, aprende-se sobre o objeto e forma-se um juízo acerca dele, ou do quer que seja, e é assim também acerca das próprias emoções, do próprio sentir, que sempre tudo isto pode ser atualizado, pelas apreensões de novas interações que acontecerão, e que alterarão as representações mentais, os juízos constituídos e significações das emoções.

    Portanto, desde Brentano, ter consciência não é a mesma coisa de ter conhecimento – uma especialidade kantiana, que inspirou a ideia de que o mundo, ou o modelo de mundo, é formado dentro da mente e por isso a racionalidade é tão conforme com certas avaliações epistemológicas. O conhecimento, assim, depende das particularidades de cada coisa conhecida, da identificação profunda do que cada objeto tenha consigo, e isto se dá através de uma exigência de linguagem, de uma ordenação categorial que precisa descrever, conceitualmente, o que está a ser conhecido, até a exaustão, se possível. Ter consciência, não. Não é preciso a linguagem para que tenhamos consciência que estamos conscientes, que estamos a pensar, como apurou Descartes, e, portanto, a existir, segundo ele.

    O problema é que a linguagem não oferece uma certeza do que é definido por ela, ou ainda, uma pureza acerca das informações conceituais, ao menos. Por isso, a lógica entre o sujeito e o objeto se faz necessária, e foi o que Husserl buscou, e o saber ficou estabelecido entre a relação do sujeito com o objeto, nem em um, nem em outro, mas na relação, em si, estabelecida como tal." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)

h
  • Hesitação -

    Surge com o acontencimento do estranhamento e é manifestada pela paralisação do agir, anomalamente ao esperado.

    "A hesitação é um estado de inferno pessoal, de insatisfação e perplexidade, tudo junto e misturado e que pode levar facilmente ao pânico. É essa hesitação que iremos dissecar, conceitualmente, a partir daqui, visto que não é assim tão raro ela aparecer, antes de se aceitar (ou não) a nova condição dada pela vitória conquistada, pois seguir adiante significa também aceder a um novo lugar na estrutura da vida, geralmente um lugar mais elevado, mais pretensiosamente ao topo." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. II)

    "A hesitação é, portanto, o resultado de uma resistência de si mesmo, ou uma manifestação inconsciente de uma cilada em andamento. Mas, geralmente, também é uma dor, pois impede a suposta alegria da realização de uma vitória obtida. E toda dor possui uma função denunciadora de algo que não está bem, algo que precisa ser tratado, por vezes oculto ou bem nas profundezas de algum sistema, ainda que funcional, mas que começa a desintegrar-se." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)

i
  • Imobilidade Estrutural -

    "O determinismo é dado pela sensação vindoura de imobilidade. Ocupar um status mais alto será, também, possuir menos mobilidade, por não poder se afastar da posição que se ocupará. Responsabilidade, pressão, expetativa, desempenho, etc. É uma projeção para o futuro que causa um sentimento de tristeza, como se estivesse a deixar de ser o que se é, e o que se foi, para trás. E isto nem sempre parece sem bem assimilado pelas pessoas mais sensíveis, pois é entendido como uma grande perda de si, verdadeiramente. Há o sentimento de que tudo já está dado no futuro, que existe um mecanicismo que esteja a absorver toda a capacidade criativa que se origina da liberdade que se tem, e que não mais terá como antes." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)

  • Impossibilidade -

    "E não será difícil uma rápida reflexão para perceberemos que, na vida, o que consideramos serem impossibilidades não duram por muito tempo, pois estas nunca são dadas como definitivas pela mente humana. Impossibilidades são consideradas assim apenas por brevíssimos momentos, pois para toda situação de impossibilidade detetada, há sempre a seguir uma possibilidade de anulá-la, ultrapassá-la, de fazê-la possível, como tudo o que há, seja pela busca criativa humana ou esperança em algum agente externo que esteja presente ou ainda que seja apenas uma mera promessa, uma possibilidade. Ou seja, há uma crença instantânea, quase um gatilho que para toda a impossibilidade há ou haverá um remédio. Se o remédio funciona ou não, passa a ser irrelevante, mas só a consideração dele faz a impossibilidade deixar de ser impossível.

    A impossibilidade é sempre uma resistência a algo, a alguma possibilidade existente. A impossibilidade nunca é original, mas sim derivada de algo. Antes da impossibilidade, já há a possibilidade à qual ela se refere ser impossível. Por isso, não é permanente, mas sim transitória. E é assim que a mente humana aplica o mecanismo das impossibilidades impossíveis. Afinal, temos a famosa e clássica frase da autoajuda que explica bem sobre este ponto: 'por saber que não era impossível, foi lá e fez'. Tão profundo quanto inspirador, que até pode comover para se continuar a ladainha da superação. Não de se deve ceder a tais perigosos apelos e, por Sócrates, precisamos voltar ao cerne filosófico." ...

    A força que se encontra para ultrapassar a impossibilidade é tão poderosa que nem mesmo importará a veracidade do meio considerado capaz de anulá-la, pois apenas é suficiente existir algo, seja verdadeiro ou falso, para que possa anulá-la por completo na mente do sujeito sempre possível. Eis o motivo de a autoajuda adorar o tema da impossibilidade, pois já está plantado na mente humana desde sempre que tudo é sempre possível. E não precisam muito para excitar este pensamento de superação. Pois a impossibilidade é a kryptonita humana, a única entidade capaz de retirar todas as forças humanas e por isso ela é sempre anulada, até pelo próprio sentido de autopreservação, de uma forma ou outra, pois conviver com o impossível é algo extremamente destrutivo.(em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)

  • Intencionalidade -

    "As discussões prosseguiram, sempre a exaltar a racionalidade humana como diferencial existencial, até que o filósofo alemão Franz Brentano (1838-1917) propusesse[1] que o conceito do conhecimento fosse a inexistência intencional, em que o sujeito “conhece” cada objeto apenas em sua mente, primordialmente. Os objetos não seriam, então, coisas materiais, necessariamente, mas sim o que há na mente, que contenham conteúdos de informações, intencionais, que são direcionamentos aos objetos, que até podem ser uma coisa, mas não necessariamente. Ou seja, conhecer viraria uma relação entre sujeito e objeto, com a gestão do próprio sujeito.

    Por exemplo, você está a ler este texto em um livro ou em um dispositivo eletrônico, por exemplo, e estes objetos são coisas, mas possuem um conteúdo que os determinam como são, em sua mente. Mas não necessariamente, pois você pode conhecer sobre algo que “seja algo” sem que este algo exista, como no clássico exemplo do unicórnio, um dos fetiches epistemológicos prediletos da Filosofia do Conhecimento. Mas é bom perceber que o seu dispositivo nem sempre existiu como coisa, mas talvez tenha tido uma existência prévia como conteúdo.

    O cofundador da Apple, Steve Jobs (1955-2011), primeiramente estava consciente acerca do tablet em sua mente, ou melhor, intencionalmente, como um computador digital de tela plana e sensível ao toque, antes que se consubstancializasse em um produto que fosse ao mesmo tempo um computador, navegador de internet, acesso ilimitado às músicas e filmes e livros digitais. Depois desta existência mental, e muitos milhões de dólares, veio o processo de desenvolvimento e produção, pela Apple, até se chegar a um protótipo que fosse possível de ser manipulado e aprovado como o produto idealizado, o resultante de uma intencionalidade, tal e qual. O protótipo aprovado já era o iPad. A seguir, apenas seria necessário reproduzi-lo em escala industrial e comercial o que era a “coisa” iPad. E dar-se-ia o fenómeno, como suposto, e como acontecido.

    Jobs tinha consciência do todo (prévia, intencional) e conhecimento das partes (sobre cada função, separadamente), sobre tudo o que viria a ser o iPad, antes mesmo de o iPad existir como coisa. Mas ele, ou não, apenas a equipe de criação da Apple, ficou tão consciente de tudo o que seria o iPad, de forma tão única e consolidada, que abriu uma nova dimensão ontológica para os tablets ao integrar tudo em um único dispositivo, de forma tão diferenciada, em que as partes deixaram de existir isoladamente para dar lugar a um todo, que deixou de ser apenas visto através de suas partes.

    Depois, todos os consumidores tiveram a mesma consciência e conhecimento acerca do que resultou, e passaram a atribuir um imenso valor às funcionalidades que vieram intrínsecas ao conceito do iPad, com suas imensas possibilidades, enfim, a conhecê-lo como um todo. Se algum dia, algum unicórnio for “produzido”, geneticamente modificado e biologicamente reproduzido, será um processo similar ao iPad. E tudo começa sempre de forma germinal com e como algumas possibilidades: a matéria-prima valiosa da criação. Portanto, se há a intenção, há a existência na mente, que é o que importa, mesmo que na realidade o objeto não exista como coisa. Poderá vir a surgir, ou não. E isso, algo aparentemente simples, agora, resultou em uma nova revolução filosófica, quando o discípulo de Brentano, o filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), avançou com a sua fenomenologia." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)


    [1] Brentano, Franz. Psychology from an Empirical Standpoint. Tradução de A. C. Rancurello, D. B. Terrell, L. L. McAlister. Introdução de Peter Simons. Londres: Routledge, 1995.

l
  • Lapso Temporal -

    "O sujeito hesitante revive este passado presente quando começa a questionar-se se o percurso feito até ali foi o mais apropriado, se era mesmo esta vitória e esta nova posição que queria realmente para si, pois estranha o que está a receber como vitória. O sujeito questiona-se a si mesmo, ao hesitar.

    Este evento de lapso temporal passa a ser uma deslocação compulsória da situação inusitada em que se vê no presente para uma zona das impossibilidades que está projetada no futuro, pois não se pode mais desfazer o que já fez, e assim abre-se um abismo do tempo sob si, entre o passado e presente que passam a ser quase a mesma coisa a se distanciarem abissalmente do futuro, visto como impossível de ser viável. Pois, o que se percebe neste futuro é que será claustrofóbico, mais restrito, com menos possibilidades. E o futuro, sempre algo otimista e positivo, se transfigura e passa a ser o que assombra o sujeito. E isto é a contradição manifestada em forma de lapso temporal, ou simplesmente é o que se chama de 'perder o chão'." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IV)

  • Livre Arbítrio -

    Há um ensaio escrito sobre o a ação humana, em relação ao determinismo, livre arbítrio e compatibilismo, especificamente. Clique aqui para saber mais.

    "Quem defende o livre arbítrio defende que a pessoa tenha sempre o poder exclusivo de deliberar apenas segundo os seus próprios desígnios, e apenas desta forma. No livre-arbítrio radical e ativo, todas as ações são deliberadas, sem exceção, e de única responsabilidade de quem as executa. Na modalidade passiva, menos radical e latente, é possível que a pessoa, ainda que execute algumas ações que lhe sejam determinadas por uma instância exterior, ou superior, continuará a ter consigo capacidades suficientes para não as fazer, se assim desejar. E este é um campo minado, em especial nas questões cívico-hierárquicas e de responsabilizações jurídicas como, por exemplo, nos crimes de guerra cometidos por quem estava convicto de apenas cumprir ordens." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

m
  • Modo de Existir -

    A parte transcendente da quarta esfera do esquema conceitual do possível.

    O modo de existir pode ser comparado à presença heideggeriana, física, material e suficientemente orgânica, superficial, em atos limitados, em potências reduzidas, resistentes, por vezes – é o corpo que envelhece com o tempo enquanto aprisionado na estrutura, a ser absorvido lentamente, consumido aos poucos, a entregar sua existência em troco de nada, enquanto é digerido pela estrutura. O modo de existir precisa, assim, fazer as questões, mas estas não lhe são próprias, afinal, e lhe são dadas incompletas ou insuficientes. O sujeito precisa, assim, investir no modo de existir para que possa, afinal, ser. É no modo de existir que a batalha se dá.

  • Modo de Ser -

    A parte imanente da quarta esfera do esquema conceitual do possível.

    O modo de ser pode ser comparado ao conceito de existência heideggeriana, a ocupação plena do próprio eu, com muita potência e pouco ato, que se expressa pela imaginação do sujeito a se direcionar às possibilidades, todas a níveis profundos, que são as que existem de forma relevante em cada uma das individualidades, caoticamente dispersas, viscerais. O modo de ser é a alma que subverte a linearidade do tempo, que se rejuvenesce com o passar deste, enquanto está a percorrer os caminhos do mundo, nas suas mais loucas viagens, a apreender tudo o que lhe é afim. Este modo se dá no devir, quando se vive este devir com toda a potência que se pode tirar de si mesmo.

n
  • Neocinismo -

    "Pois o verdadeiro Cínico não quer mesmo convencer ninguém, quer é que todos tenham em si todo o discernimento que ele julga ter e a dúvida, assim posta, é algo sempre desejável. O argumento bom é aquele contrário, que não leva a nenhuma certeza, mas sim a um maior exercício das capacidades intelectuais. Se o cético não acredita ser possível alcançar a verdade, e o sofista não acredita que exista a verdade, o neocínico acredita que os dois, tanto o cético quanto o sofista, podem estar certos conforme a perspetiva em que estejam, assim como também todos os outros que discordam destes, e possuem suas teorias acerca da verdade.

    ...

    O Cinismo foi um movimento, antes de tudo, de anticultura. E a cultura, naquele tempo, era a investigação teórica e abstrata, de estabelecimento de conceitos e modelos sobre o conhecimento e sobre o mundo. Os Cínicos queriam algo essencialmente pragmático. O mais famoso dos Cínicos foi mesmo Diógenes de Sinope (412 a.C. – 323 a.C.), que diziam viver em um barril e nada possuir, e era este o seu marco anticulturalista, de negar todas as convenções sociais e reduzir suas posses ao mínimo possível. Foi o primeiro minimalista da história e o precursor dos movimentos da contracultura, assim reconhecidos nos anos 60, como por exemplo os dos hippies. Para Diógenes, a liberdade para agir e se expressar era o maior bem, além da liberdade de tudo o que pode prender alguém a uma estrutura, que é fortemente negado por ele.

    Mas, há que se considerar que uma vida fora da estrutura é difícil, árida e complexa. Além de arriscada e com quase nenhum prazer. O Neocinismo propõe uma vida na estrutura, mas com consciência, lucidez e capacidades de ter, sempre, as saídas todas disponíveis. O que o Neocinismo propõe é o mesmo que queria Diógenes, que saía com uma lanterna acesa, à luz do dia a procurar o “homem”. O que ele queria era destacar que ninguém mais poderia ser, ali, humano, pois deixara de viver de acordo com sua essência. Era a distância antropológica que ele já estava a verificar, entre o modo de ser, em essência, e o modo de existir, em determinada posição na estrutura. Para o Neocinismo, a consciência acerca destes estados é benéfica e desejável, dado que o “homem” já não o temos mais, desde há muito. Uma batalha que já foi dada como perdida." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

o
  • Objetificação -

    "Sim ou não: apenas estas duas decisões possíveis, sem chances nem sequer para um talvez, nem ao menos ocasionalmente. Surgirá, provavelmente, do progresso da estrutura o surgimento do homo algorithmus, oriundo do processo do reducionismo que terá imensa corroboração dos avanços tecnológicos, principalmente da inteligência artificial, que sempre deixará uma suposta margem para o humano pensar que é ele quem está a decidir sobre sua própria vida, enquanto está a ser manipulado pelas suas próprias crenças e desejos, em processo similar a uma hipnose.

    Sim ou não: eis as únicas escolhas prováveis para um futuro que não está tão distante assim. Mas, nada é tão ruim que não possa piorar ainda mais. Pois pode ser mesmo ainda pior e mais radical, ao supor que poderá existir outro cenário resultante ainda mais restritivo, mas até mesmo mais real, quando só se restará uma das opções, que será sempre o “sim”, como atribuir sempre este sim para tudo o que virá, sem nada poder negar ou nem resistir, nem mesmo criar o novo ou ter ou querer a ilusória liberdade dada pela astúcia do espírito diretor para apaziguar o ânimo da peça funcional que um dia foi o sujeito que pensava ser um agente autónomo de deliberação, em seus tempos felizes do passado.

    No limite, ao se perceber na mais completa absorção da individualidade que algum dia pensou ter, totalmente absorvido por um ente maior, externo, perceberá que deixou completamente de ser um sujeito – quando estará a dizer sim para tudo, até para a própria situação. Saberá que passou a ser um mero objeto da estrutura, inerte, que não reconhece nada de si naquilo que se tornou um membro de um rebanho, um eficiente objeto funcional inserido e dirigido por uma estrutura dominante. Ou, ainda, nem se perceberá parte de nada, mas o próprio todo, quando a própria consciência se transforma, pela sua dissolução, no todo, sem se diferenciar de mais nada entre sua essência e a estrutura que se tornou. Tudo é possível, a cada perspetiva dada.

    Se algo assim lhe parece ser o verdadeiro inferno, não duvide de si. Mas é isto que é vendido como o melhor dos mundos por muitas das religiões e “filosofias” como o ápice da vida, que consiste na dissolução do eu, a partir de um ascetismo que afronta toda a intensidade de valor que só pode ser medido pela vontade de potência, que é a expressão corpórea do poder da própria vida, tal como Nietzsche buscou argumentar como todo ascetismo deveria ser indesejado, em sua genealogia da moral. Todos os simpatizantes do new age, do zen politicamente correto, querem buscar esta forma de transcendência sem saber o que significa exatamente.

    Esta integração do pós-sujeito ao todo é um objeto de desejo para a maioria, algo considerado cool, e não é incomum, ao menos para esta maioria desejante em não ter mais desejos, se submeter incondicionalmente às formas dominantes da ordem que existe, em nome de um imaginado “sucesso” transcendental. E é curiosamente esta mesma maioria corresponsável pela criação da estrutura para a qual se voluntariam viver em sacrifícios, e de sua manutenção, como veremos adiante. Criam seu próprio suplício, e o defende ferozmente enquanto se sacrificam por algo idealizado." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

  • Oportunidades -

    Enquanto opções deliberativas:

    "É justamente por existirem tais opções que são provocadas as discussões acerca da atitude deliberativa. E por isso, quando a própria consciência acusa que há sempre várias opções, assume também que exista uma relação estabelecida, tal como conceituada por Husserl, entre o sujeito e todas estas opções, com conteúdos mentais que cada sujeito intenciona a cada uma destas opções, conforme seus próprios critérios, juízos, valores e experiências. São construções mentais, em última análise.

    Opções são, portanto, uma certa criação da própria razão humana a nível ontológico, a partir de seus próprios critérios. Eis o nó estabelecido. E, com estas opções, emerge a possibilidade de se escolher algumas delas, seja a deliberação ilusória ou não. São, afinal, oportunidades – que são as possibilidades que se mostram ao sujeito pelas próprias circunstâncias do agir, também possibilidades, e com as quais expressam os meios como este se relaciona com o mundo, em conteúdos e intencionalidades. Todas as opções fazem parte do sujeito, pois são seus ativos de oportunidades. Eliminá-las, renunciar a uma ou algumas delas passa a ser, assim, o mesmo que eliminar parte de si. E esta eliminação é transpor o que está nas dimensões oníricas das possibilidades para as dimensões das inconvenientes e desconfortáveis impossibilidades." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

p
  • Pânico -

    O pânico é, dentre tantos fatores e abordagens distintas, decorrente do aprisionamento ao momento do estranhamento, que poderõ levar ao pânico e à fobia do agora (agorofobia). Não seria correto retringir tais efeitos sempre a uma razão tão simplista, mas também não podemos dissociar que há um gatilho (ainda que não imediato, mas também com efeito retardado) possível nestes estranhamentos que ocorrem na matriz ideológica afetada pelas fissuras do real.

    "O pânico emerge do vazio percebido, do nada que consome tanto por dentro como por fora. O Pânico vem da sensação de inconformidade de não poder ocupar o que está destinado a ocupar, pois passa a perceber que é uma arapuca.

    E, assim, chegamos ao ponto exato que desejamos atingir na selva: o constante estranhamento do nosso racional humano, pois sempre somos pretensiosos acerca de nós próprios e nos levamos demasiadamente a sério, mas que por vezes decidimos não prosseguir adiante quando este estranhamento vira uma bela de uma hesitação, e contrariamos tudo o que esperam de nós quando este prosseguir adiante se transforma em um sentimento muito forte provocado por uma ameaça desconhecida." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. II)

  • Perspetivismo -

    "Relatividade é um termo mais conhecido, mais usual, que antagoniza com a universalidade. Pois enquanto a universalidade se aplica a tudo o que há, a relatividade pressupõe que a aplicação seja apenas ao que se está a referir. Nem um, nem outro, portanto, são lá muito assertivos. O melhor termo para superar este problema criado pela linguagem, já apontado por Nietzsche, é o perspetivismo. Pois, nem é algo meramente relativo, vazio e individual, tampouco universal, pois contempla algum grau aspiracional de universalidade (portanto, sem a universalidade em si) e algum grau aspiracional de relatividade, também sem ser totalmente relativo. O perspetivismo considera sempre um contexto, um conjunto de condições e situações que são relevantes para o conjunto considerado. E, como a universalidade é uma aspiração quase que comum, há um tanto desta aspiração coletiva, o que não quer dizer que a universalidade exista incondicionalmente, e de facto, mas não podemos negar que é um ideal que muitos pensadores buscam. Por isso, os sentidos dos termos que utilizarei serão sempre estes: uma universalidade convencionada, mas em perspetiva, ou uma relatividade conceitual, também em perspetiva, ou apenas a própria perspetiva." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

  • Positividade Tóxica -

    Um excesso de positividade que restringe a existência a uma parte diminuta e idealizada do todo, na qual as inconsistências rejeitadas não deixam de existir e, assim, causam seus estragos aos que não a querem perceber, e acaba-se tudo em algo muito mal, invariavelmente, com a realidade a atropelar as tentativas de um mundo ideal e harmonizado que apenas existe nos romances mais adocicados.

    "...Tudo direcionado para a positividade, que alguns mais esclarecidos já acrescentaram um sobrenome, e virou a «positividade tóxica», que felizmente começa a ser combatida, mas que infelizmente pela forma como se combate a toxicidade a fortalecerá ainda mais.

    Os positivistas crônicos nunca veriam por esta perspetiva, pois questionariam: “Mas é para se falar de coisas negativas? Como se poderia vender algo assim?”. E estão certos, pois as pessoas não compram coisas negativas, ou ruins, mas apenas promessas. E é justamente isto que se está a colocar em causa, sobre a exacerbação do genérico-positivo. Sempre há que se caminhar em frente? Sempre, para todo o sempre? Sempre é preciso apenas fazer algo? Sempre assim? Pois há coisas, em certas situações, que serão muito más se assim forem feitas, incondicionalmente. Mas, isto evidencia que as mensagens positivas ecoam nas mentes dos que possuem as mesmas diretrizes delas, visto que é um processo progressivo de programação para a adesão estrutural, para o comprometimento incondicional de tudo: consumir, reverenciar, obedecer, procriar, produzir, submeter-se, etc." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. III)

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  • Relativismo -

    Ver Perspetivismo.

    "Relatividade é um termo mais conhecido, mais usual, que antagoniza com a universalidade. Pois enquanto a universalidade se aplica a tudo o que há, a relatividade pressupõe que a aplicação seja apenas ao que se está a referir. Nem um, nem outro, portanto, são lá muito assertivos. O melhor termo para superar este problema criado pela linguagem, já apontado por Nietzsche, é o perspetivismo. Pois, nem é algo meramente relativo, vazio e individual, tampouco universal, pois contempla algum grau aspiracional de universalidade (portanto, sem a universalidade em si) e algum grau aspiracional de relatividade, também sem ser totalmente relativo. O perspetivismo considera sempre um contexto, um conjunto de condições e situações que são relevantes para o conjunto considerado. E, como a universalidade é uma aspiração quase que comum, há um tanto desta aspiração coletiva, o que não quer dizer que a universalidade exista incondicionalmente, e de facto, mas não podemos negar que é um ideal que muitos pensadores buscam. Por isso, os sentidos dos termos que utilizarei serão sempre estes: uma universalidade convencionada, mas em perspetiva, ou uma relatividade conceitual, também em perspetiva, ou apenas a própria perspetiva." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

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  • Subversões Estruturais -

    "No primeiro ano de seu governo, um Vladimir Putin (1952 – ) ainda inseguro e titubeante concedeu uma entrevista[1] que reclamava justamente disto, do prazer de ser um desconhecido e poder fazer tudo o que lhe calhasse fazer, inclusive tomar uma cerveja anonimamente em um bar qualquer. São possibilidades que deixaram de existir, para ele, ainda que tolas, se assim percebermos o que veio depois de tais privações. Mas ele percebia que eram opções que não mais tinha, e nem teria, pois tinha consciência delas já naquela altura. Em contrapartida, se passasse a considerá-las existentes, teriam cada uma delas uma infinidade de ameaças atreladas. A “conta” não fecha, e sempre será a ameaça que emergirá mais forte de tais restrições.

    Outras possibilidades, contudo, estão a se materializar atualmente, pelas suas mãos, talvez bem na linha hegeliana, ou não, a ser ele próprio a manifestação da antítese contemporânea, ao menos para as nações ocidentais presentes na OTAN, pelo caminho que ele trilhou para ocupar a posição em que foi possível colocar a Rússia onde está, atualmente, nos jogos geopolíticos e nos conflitos armados: guerra e poder. A história, no futuro, dirá com exatidão acerca dos factos, mas sempre conforme quem estiver a contá-la, todavia. E é também por esta possibilidade de se ter a primazia para contar a história que desejar que é pertinente somente aos “vencedores”, que faz com que as nações se movimentem, afinal, sejam para conquistarem novos mercados, sejam para tomarem-nos à força. Tudo, ao final, cinicamente, a despeito de Žižek, se reduz em sexo, dinheiro e poder. Ou tudo junto, em uma pretensão de criar regras comportamentais geopolíticas na orgia dos mercados globais, através do embate do neoliberalismo ainda vigente e um novo capitalismo que está a emergir como arma letal e é uma grande aposta das nações orientais: o capitalismo de estado, em que as organizações políticas perceberam bem que o poder é maior para os que tem o capital, e não apenas as ogivas.

    O capitalismo de estado está para o neoliberalismo assim como as milícias estão para o tráfico de drogas nas favelas cariocas. São igualmente organizações criminosas, mas que pensam que não são consideradas assim, e que assumem o controle do poder financeiro e logístico de um país ou de uma favela. Operam da mesma maneira, corruptamente. Mas, inegavelmente, consolidam o poder e fecham as vulnerabilidades de forma tão eficaz que até assusta pensar contra eles, intimamente, visto que todos os seus inimigos são rapidamente eliminados. Tudo o que há na dança geopolítica das nações, ao final, para além das possibilidades, são obviamente pelos mercados. E não é ingênuo pensar assim. A riqueza é uma das mais básicas materializações das possibilidades, pois é o meio de se atingir o que se deseja geopoliticamente, uma forma de relações internacionais que se desenvolve entre as mais ricas nações, como uma dança em que os mais desejosos pares se formam, enquanto outros se desafiam por algo escasso. Quando materializada a riqueza, obtém-se o ingresso para a dança geopolítica e então passa-se ao desejo de se obter e de se consolidar no poder, a maior das materializações. São muitas ou infinitas as materializações buscadas como podemos perceber, atualmente, pelos passos que grandes nações como a China esteve e está a fazer, principalmente quando muitas outras estão a se consolidarem ou mesmo manterem-se no topo." (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)


    [1] As Testemunhas de Putin, 2018, de Vitaly Mansky. Documentário em que o realizador revela as verdadeiras causas e consequências da "Operação Sucessor", o esquema político que levou Vladimir Putin ao poder. Um documento de extrema atualidade e urgência, segundo a crítica. Acedido em 20/06/2022 no link https://www.imdb.com/title/tt8647924/ e visto em https://www.filmin.pt/filme/as-testemunhas-de-putin.

u
  • Uno -

    Há um artigo escrito sobre o Uno, especificamente. Clique aqui para saber mais.

    «Plotino ensinou que existe um ser supremo, totalmente transcendente o “Uno”; além de todas as categorias do Ser e Não-ser. Seu Uno “não pode ser qualquer coisa existente”, nem é simplesmente a soma de todas as coisas [comparado a doutrina dos estoicos da descrença na não-existência material], mas “é antes de tudo existente”. Plotino identificou o Uno com o conceito de ‘Bom’ e o princípio da “Beleza”. O Uno engloba o pensador e o objeto. Até mesmo a inteligência autocontemplante (a noesis do nous) deve conter dualidade. “Depois de ter chegado no ‘Bem’, não adicione nenhum pensamento a mais: em qualquer adição, e em proporção daquela adição, você adiciona uma deficiência.“. Plotino nega a senciência, consciência de si-ou qualquer outra ação (ergon) para o Uno».

    Poderá saber mais em https://pt.wikipedia.org/wiki/Plotino#O_Uno, de onde foi retirado este trecho, em 17/09/2022. Há também uma conceituação mais formal a partir da página 368 de: Reale, Giovanni. História da Filosofia. Volume l. São Paulo: Paulus. 2003. (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

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  • Visceral -

    O visceral é uma dimensão - um estado existencial - bem mais forte e superior ao obsceno. Enquanto o obsceno se manifesta na estrutura, como veremos, o visceral se manifesta no abismo, no caos, e é sentido nas próprias vísceras, que se remexem ao ponto de causarem sensações percetíveis, talvez a se comunicarem com o abismo. No abismo, não há linguagem, nem idioma, nem palavras, apenas sentimentos viscerais, apenas uma nova consciência desconhecida. É o corpo que fala, a cair, e a mente que escuta, ao sentir a queda.

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