glossário do esquema conceitual do possível serdual - acontecimento

Acontecimento

Ocorrência que é apreendida pelo sujeito, que pode ser algo provocado diretamente por ele ou não. Todo acontecimento se transforma em apreensão de acordo com a interpretação que lhe é dada, por isso é sempre algo individual, em última análise. A apreensão é a interpretação individual de um acontecimento e a forma como este acontecimento passa a ser significado. A apreensão se refere a valores, e não propriamente a conteúdos, dado que é uma síntese significativa do acontecimento.

“Assim nós apreendemos todas as nossas vitórias, pois elas passam a nossas, totalmente nossas, apenas nossas, de forma que ninguém poderá tirá-la de nós, pois, a vitória é um acontecimento e as guardamos bem no fundo do nosso ser. É o nosso troféu exclusivo e integra o que consideramos o melhor que temos e que somos.

Há as coisas que podem ocorrer individualmente, mas também podemos vencer juntamente com os esforços de outros, em diversas situações: quando nossas famílias conseguem a casa própria, ou o nosso time de futebol é campeão de algum torneio de ponta, ou o nosso candidato vence uma disputada eleição, por exemplo. Há inúmeros outros casos, e que sempre são apreendidos da mesma forma, como se fossem os nossos próprios troféus pessoais que se acumulam garbosamente em nós, todos apreendidos, pois estamos dentro da vitória e sabemos que tivemos alguma ação para que ela ocorresse.

Momentos destes, quando aproveitados intensamente, representam simbolicamente uma transição realizada, uma espécie de sensação de se ter atingido a eternidade, dado que o tempo parece ter deixado de correr nas frações de segundos que concentram todo o êxtase, ao unir passado e presente e ao projetar um futuro de excelência rumo ao topo. A sensação de leveza no corpo não deixa isto ser negado, pois é uma ultrapassagem entre dimensões.

E a sensação da eternidade que é vivida é libertadora, ainda mais para nós que vivemos sob a pressão da finitude do tempo que possuímos, dos prazos impostos no fluir do devir de acontecimentos que nunca são favoráveis. Isto faz com que toda a experiência da vitória se compare como uma pequena morte instantânea que vivemos, uma pequena morte testemunhada, sentida conscientemente, na qual parece que se deixamos de ser quem fomos, e o que foi se dissolve nesta breve eternidade que faz ressurgir uma nova versão melhorada de nós mesmo, com a sensação de sermos menos vulneráveis do que antes, ou de termos mais tempo do que antes.

Acontece como se os nossos passados fossem todos organizados e atualizados e passassem a estar muito mais próximo de nós, e isto nos renova os ânimos. Há uma satisfação consciente e poderosa pelo que se está a viver, o que é incontestável.

E é assim que todos estes acontecimentos ocorrem, exatamente desta maneira, mesmo que nunca continuem a existir nos instantes que se seguirão, mas a apreensão da vitória passa a fazer parte de nós, para sempre. Instantes que atingimos uma dimensão de eternidade, do gostinho da ultrapassagem da nossa própria finitude para se atingir novas possibilidades – somos imortais, por breves segundos.

Viver esta poderosa experiência nos faz questionar sobre a possibilidade de a própria vida ser direcionada apenas para atos como estes, como se fosse isto o próprio sentido da vida. Será? Mas, e se for mesmo isso que nos faz mover para criar tudo o que criamos?” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. II)

“Talvez seja por isso, ou o que o valha, que Friedrich Nietzsche escreveu[1], em suas anotações, mas que não foram publicadas, que «não há factos, só há interpretações», ainda hegelianamente, e que os pós-modernistas, em especial os franceses, dentre eles o filósofo argelino Jacques Derrida (1930 – 2004), levaram à risca a possibilidade de, não declaradamente, de limitar os Universos às possibilidades textuais.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XIV)


[1] «Que o valor do mundo está em nossa interpretação (…) O mundo, que em algo nos importa, é falso, ou seja, não é nenhum facto, mas uma composição e arredondamento sobre uma magra soma de observações. O mundo é ‘em fluxo’, como algo que vem a ser, como uma falsidade que sempre novamente se desloca, que jamais se aproxima da verdade – pois não existe nenhuma verdade”». Poderá saber mais no artigo de Vania Dutra de Azevedo, A interpretação em Nietzsche: perspectivas instintuais, disponível no linkhttps://periodicos.unifesp.br/index.php/cniet/article/view/7856.

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