glossário do esquema conceitual do possível serdual - aderência

Aderência

“A aderência é o nível ou a intensidade do comprometimento ideológico, independentemente se há ou não a perceção de tal influência transcendental realizada pela ideologia. Ou ainda indica quando há a manutenção voluntária do status quo quando se esteja em uma realidade artificial absurda percebida como tal. Neste caso, sabe-se que é uma ilusão, mas opta por tornar ela sua realidade, como fiz na diversão com os robôs neoliberais. Mesmo que haja algum estranhamento ou hesitação, uma boa aderência desprezará tudo isso e fará o indivíduo aderente seguir em frente, pleno de si. E sempre será assim se o interesse no que está fantasiosamente a ser apresentado for maior do que a realidade mais simplória da vida. Pois isto ocorre devido à ilusão apresentar mais possibilidades. Simples assim. E podemos afirmar que tanto maior for o deslumbramento ideológico, maior será a aderência à ideologia, pois lá estão as maiores possibilidades.

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São profundamente aderentes os devotos moralistas, mas não apenas estes, pois todos temos nossos pontos fracos, nossas vulnerabilidades, ou “botões”. Vale perceber que a aderência é voluntariosa e quase sempre consciente. Ela surge do que vem das possibilidades, e se potencializa quando há a capacidade de se perceberem as oportunidades presentes, obviamente, ao se estar aderente. Aderência é o estado e ato voluntário de legitimidade para se qualificar para receber os bônus pela própria fidelidade ideológica assumida. É a ilusão de que o bom comportamento ao longo do ano garantirá os melhores presentes no Natal. É um trade, uma barganha. Não é ela nada compulsória, mas sim fruto dos interesses mais profundos dos indivíduos, que chegam mesmo às bases morais mais obscenas.

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A fuga da aderência é impossível, pois sempre se acaba voltando para alguma ideologia, pois nunca se está totalmente fora dela. Mesmo que se adote uma nova ideologia, em detrimento de outra antiga, tal adoção se dá pela aderência maior que se terá. A aderência é inevitável, pois ela é o próprio jogo de linguagem e significações, no qual há uma comunhão com os conteúdos e valores ideológicos.

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Pois a ideologia não é a produtora primária de nada, ela é o próprio produto. Ela nasce, mas não morre. Se transforma, evolui, involui, se corrompe, é rompida, de tudo faz, mas continua a existir enquanto existir quem a reproduza. Não morre, pois mesmo se desaparecer, seu legado continuará a existir a reproduzi-la. Pode desaparecer, quando sua reprodução ocupa o seu lugar. Mas tal reprodução ainda é ela, sua origem, e que continua a existir de forma ainda mais oculta do que antes. Lá estará sempre ela, a nos acompanhar de longe. Se não há causa primeira, não há ideologia primeira, mas sim processos de causação imanente, na qual a ideologia é produto e produtora – mas não primária, e nem última também.

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Ela não vive, mas é vivida. É um produto que atrai, seduz, faz com que todos se movimentem por ela, e em sua direção, mesmo sem ser uma causa primeira aristotélica. Eis a diferença: não é causa primeira, realmente, mas assim somos tentados a promovê-la, pois sempre a personificamos freudianamente à nossa imagem e semelhança. Por vezes, é um fim. Por outras vezes, é um meio. Mas são ambos, a bem da verdade. (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XVI)

… aderência

“Mas, a cada vez que este espírito obsessor mais se sofistica. Esta determinação sutil oriunda das ideias deles se confunde como manifestação do que se entende por livre arbítrio do sujeito obsidiado. Depois de um tempo, a interagir com o espírito, a adesão é tão intensa que não se conseguirá diferenciar mais o que seja seu e o que não seja. Tudo passa a ser assumido como originário da própria individualidade, ou em alguns casos como do próprio espírito, quando se dá o fundamentalismo na vida do abnegado servo. E este deixa de ser ele próprio e assume-se como um representante que foi obscenamente cooptado. Isso é dizer, em ambos os casos, que a parte individual passa a ser o mesmo que o todo, ao absorver o espírito, o excedente exterior como a si próprio, ou ao contrário. Tudo será um, finalmente!”

“Resta confirmar, apesar disto tudo já exposto, o que ainda mantem a estrutura coesa, o que mantem a todos grudados nela, mesmo com todas as incoerências e irracionalidades que há em todas as estruturas consideradas. Há que haver algo mesmo poderoso que ultrapasse a própria capacidade racional humana, tolhida por alguém, igualmente humano, que se diz representante de uma entidade que nunca ninguém viu, a bem da verdade, mas que “sentimos” existir. É esta a mais impressionante história já contada para a suposta humanidade, e que continuamos a consumir, vezes por vezes. Mas, em nome da racionalidade, não deve, nem pode, ser apenas isso. Há que se ter algo mais. E há.

A racionalidade nos leva, pelo seu exercício, a deduzir que tudo, afinal, são relações. Do sujeito com ele mesmo, dele com outro, da relação de ambos com a estrutura, de uma estrutura com outras estruturas. E todas as componentes que se relacionam e se interrelacionam. Relações e possibilidades. Resta saber o que é uma boa relação, e como se valora as relações em escalas de desejos. Os valores precisam ser atualizados, todos, nestas dinâmicas que ocorrem nas relações. Não à estagnação moral, mas sim à fluidez que dará acesso a uma nova dimensão, que Espinoza atribuiu à Ética.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XII)

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