glossário do esquema conceitual do possível serdual - autoajuda

Autoajuda

A autoajuda é uma seita neoliberal – provavelmente a maior anestesia disponível no mercado mundial, que tudo resolve e soluciona, a formar humanos superiores e adaptados a quaisquer cenários, desde que continuem a consumir incondicionalmente o que ela propõe como problemas e soluções.

“A contemporânea e onisciente seita da autoajuda é uma destas promessas, por exemplo, sempre a ter uma alternativa de “solução” precisa e universal para tudo o que ocorre com qualquer pessoa no Universo, e talvez fora dele, se houver mercado para tal, afirma que este problema do mal – a tal inconformidade com o mundo – é um legítimo processo de autossabotagem. Pronto, resolvido! Daí o sujeito passa a acreditar que não fica feliz em prosseguir pois quer se autossabotar, se destruir, por alguma mazela não superada incrustada em seu passado ou na visão distorcida que tem na nobre e suposta humanidade. Mais um caso resolvido, mais um cliente conquistado e encantado e que continua a culpar-se por tudo, como antes.

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Ainda que fosse verdade tal hipótese e que seja mesmo um autossabotador da melhor estirpe, por qual motivo que não deseja mais prosseguir adiante rumo ao sucesso a aguardar por ele no topo dos topos? Há que se ter razões claras, no mínimo! Por que ele não consegue prosseguir ao menos movido de uma vontade forte o suficiente para reparar o que supostamente fez de mal no passado, por exemplo, ou ainda para fazer melhor e deixar a sua marca da vitória? Por que optar por um ato de terrorismo aplicado a si mesmo?

São estas algumas das questões que a autoajuda nunca permite serem feitas, pois ela funciona sempre como algo inconsciente, que apenas emite informações que são perguntas já com respostas prontas, sem nunca interagir com questionadores. A autoajuda faz a pergunta e dá as respostas. Estabelece um problema, formata-o e dá uma solução. E tudo tem de se adequar ao que ela estabelece. E, como há uma indústria para produzir problemas e soluções, sempre terá alguma que se adequará ao indivíduo. Para isso há a produção das soluções universais e incondicionais que vão direcionadas para todos os necessitados, sem deixar ninguém de fora.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. III)

Mas, afinal, por que razão haveria de ser todos os problemas originários deste mundo? Por que limitar tudo a nossa dimensão existencial? Para quem seja capaz de supor isso também existem outras anestesias disponíveis e igualmente bem sedutoras. Pois são muitos os que defendem, efusivamente, que os problemas não são mesmo deste mundo, e assim, todas as tretas da vida «e por que não também todas as tretas herdadas das vidas passadas?» passam a ser atribuídas ao além do mundo, ao além da vida e do existente no presente. O passado vira produto, assim como o além, e tudo é comercializado aos que desejam consumir anestesias.

Então os problemas atuais passam a ser resultantes de factos que viajaram no tempo e no espaço, por algum problema anterior que o sujeito teve algures, com o Universo – esse malvado e insensível Universo que nunca esquece do que mal que fazem nele e que, a dado momento, fará com que a justiça seja feita. E logo chega-se às questões sobrenaturais, espirituais, cármicas, astrais, astrológicas, quânticas ou equivalentes.

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Mas é preciso perceber que quem chega a procurar soluções no aquém ou além do mundo foi por não ter encontrado soluções no mundo atual, ou talvez seja mais um desiludido pelas promessas da autoajuda e que foi buscar algo mais potente para si. Se as anestesias fossem drogas como já sugerimos – e talvez até mesmo sejam – não seria errado dizer que a autoajuda é a droga de entrada, daquela que pode levar às drogas mais poderosas e inusitadas, como o terraplanismo, por exemplo, ou ainda mais hardcore, como os esquemas multiníveis e pirâmides de cryptos.

Nenhuma busca, afinal, resultará em nada concreto e acertado como uma justificativa pelo que se está a sentir, pois nenhuma lidará com o real, com o abismo. A estranheza continuará a acontecer, da mesma forma, ou cada vez mais intensamente, mesmo depois de dezenas de livros lidos sobre autossabotagem, crenças limitantes e tudo o mais que lhe recomendarem, como retiros de finais de semana com gurus, experiências de andar sobre brasas, romarias e procissões, sufocar até quase morrer em tendas esfumaçadas ou até mesmo os famosos banhos gelados às primeiras horas das manhãs que os coaches fazem para afirmarem sua superioridade térmica, pois, se eles fazem tais ritos é sinal que devem ser eficientes. Mas nada resulta como deveria ser, ao menos para os simples mortais.

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Por sorte, o mercado é imenso e criativo, e logo surge um novo produto com a promessa de solucionar através de uma nova forma de lidar com as mazelas existenciais, tais como tretas healings da vida, conspirações quânticas, constelações intestinais, conjunções astrológicas e tudo o mais, pois sempre surge algo que dará respostas “precisas” e levará ao olimpo da vida. E, para fugir da dor existencial, tudo vale. Quem quer queimar no deserto da realidade? Quem quer adentrar em um caos impenetrável? Pois, ninguém quer isso para si, nem mesmo para seus piores inimigos. Portanto, vamos às benditas anestesias.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. VI)

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