glossário do esquema conceitual do possível serdual - cancelamento

Cancelamento

“A luta fundamentalista se dá em todas as instâncias, desde as terroristas até as acadêmicas, seja através da escrita infame de livros ou mesmo produção de bombas, clandestinas ou não. Todos – sujeitos, seitas, religiões, países, etc. – acreditam serem capazes de superar o impossível, que passam a considerar como tal tudo o que há de ameaça às causas que possuem. Aos que são considerados como rebeldes, mas sem serem tidos como inimigos, estes “impuros” nunca poderão chegar perto de contestarem o que está estabelecido e, se o fizerem, mesmo que em um país com liberdade de expressão assegurada pela Constituição, lhes restarão, no mínimo, a excomunhão contemporânea mais cruel que pudemos conhecer – que é o cancelamento.

Eis a triste sina da vida estrutural, para alguns, que se veem perdidos dentre uma insanidade generalizada, e são estes que são geralmente taxados de insanos, e assim afirmados como párias pelo cancelamento. Não se anime muito, pois você talvez seja um destes “insanos”, mesmo sem saber o que está a fazer. Afinal, todos temos os nossos “botões”.

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A forma, novamente relembramos, é quase sempre única, e o que muda são apenas os conteúdos. E os valores destes conteúdos são considerados distintos para cada indivíduo na perspetiva considerada, para uma mesma ação, intenção ou proposição, que para uns são do bem, para outros não. Não se pode, e nem se deve, ser tendencioso ou pretensioso para buscar o entendimento acerca dos valores que são atribuídos para o que está para além de nossa própria realidade. Assim, seria difícil ou “impossível” algum conhecimento da realidade a qual estamos orientados a perceber.

Impossível? Sim, considerei mesmo a impossibilidade, ao ponto de escrevê-la. Então há, de facto, algo realmente impossível? Já que estamos a avançar, é preciso revisar isto, pois, se existe a palavra “impossível”, e eu próprio a usei, o que ela poderia representar?

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Eis aqui mais uma subversão semântica que serve para ampliar esta compreensão. A palavra, assim percebida, é uma impossibilidade simbólica (e não a real), e isto significa considerar que ela seja uma instância dentro das possibilidades, projetada inversamente.

A impossibilidade assim considerada é sempre aquela tola, inexpressiva e irrelevante. É uma proibição que as regras, através de seus ditames, colocam para que uma possibilidade possa vir a ser “desativada”, em nome da credibilidade do espírito obsessor, para haver alguma zona capaz de criar outras ilusões derivadas. É possível haver ali uma possibilidade renegada, mesmo que provisoriamente.

Para os cristãos, por exemplo, matar é uma impossibilidade simbólica dada pelos “Mandamentos” de deus. Não pela incapacidade de alguém matar outro, mas sim por haver uma regra em que matar seja proibido, ainda que matar seja aceitável quando as mesmas regras ou seus representantes o digam para fazer, nos casos das guerras, cruzadas, sacrifícios humanos, inquisições, jihads, penas capitais ou ainda outras situações extremas. Um impossível simbólico que se torna possível apenas quando pela ação direta das versáteis regras.

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Impossível mesmo – aquele algo ou ideia que não seja possível, realmente – é apenas para as questões fora das obsessões coletivas, ou conceituais, como por exemplo as questões naturais, em que não se possa considerar possível que uma amputação de um braço humano levará à uma regeneração orgânica, e que um novo braço possa nascer no corpo do amputado, tal como “renasce” a cauda amputada de uma lagartixa. Só assim se dá a impossibilidade, a nível natural, ou quase isso.

Ainda dentro da obsessão cristã, há a própria possibilidade de a ressurreição existir, de um morto voltar a viver, que é o mesmo do que um defunto, um corpo inteiro decrépito volte a viver, e muito mais difícil de se imaginar do que um braço, que seria apenas suposto “renascer” de um organismo vivo, de uma mesma origem. Ainda assim, é mais facilmente aceito pelos cristãos que este defunto possa virar um corpo redivivo e sair de sua catacumba a perambular por entre os vivos do que aceitar que o braço ressurja em alguém.

Mas não há uma negação total, declarada e contestatória sobre a ressurreição, pois ela já está estabelecida pela obsessão, por mais sinistra e estranha que possa parecer. Nenhum cristão contesta abertamente isto e, se o fizer, terá problemas e será atacado pelos demais, ou excomungado, ou ainda pior, será cancelado. No passado não tão distante assim, poderia até ter sido queimado vivo. Hoje, é condenado ao cancelamento.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XIV)

Cancelamento: Conteúdo Protegido.

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