glossário do esquema conceitual do possível serdual - cinismo

Cinismo

“A melhor postura do Cinismo é quando se discursa sobre algo, argumentativamente, em termos que vão á exaustão conceitual, dentro de todos os recursos possíveis, mas, ao final do seu discurso, quando todos estão convencidos de sua argumentação, como se estivessem, enfim, em contato com a verdade última das coisas, e o filósofo é aplaudido efusivamente, de pé, por longos minutos, com brados e flores jogadas a seus pés, numa comoção generalizada e, após todos cessarem os aplausos, este se volta novamente à fala, antes de deixar o púlpito, e diz à plateia que ainda o aplaude, depois de pedir silêncio, na mesma “voz confidencial e discreta” como foi descrita por Žižek que enquanto filósofo e orador, por vezes, nos discursos proferidos, ele filosoficamente mente um pouco, mas só um “pouquinho”.

Pois o verdadeiro Cínico não quer mesmo convencer ninguém, quer é que todos tenham em si todo o discernimento que ele julga ter e a dúvida, assim, é algo sempre desejável. O argumento bom é aquele contrário, que não leva a nenhuma certeza, mas sim a uma maior capacidade intelectual. Se o cético não acredita ser possível alcançar a verdade, e o sofista não acredita que exista a verdade, o neocínico acredita que os dois, tanto o cético quanto o sofista, podem estar certos conforme a perspetiva em que estejam, assim como também todos os outros que discordam destes, e possuem suas teorias acerca da verdade.

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Para o Cínico, as frases precisam estar vazias, para que haja o perspetivismo desejado. Frases perfeitas são formas funcionais sem conteúdos tidos como verdades absolutas presas a elas. Há que se perceber bem que a ingenuidade, se definida como credulidade excessiva, por vezes, é algo mais aceitável do que a presunção pela apreensão de alguma credulidade absoluta e irrefutável que, mais cedo ou tarde, acabará por cair à terra. O ingênuo é caracterizado por ter uma credulidade excessiva em algo. Um Cínico, verdadeiramente Cínico, assim, não poderia ser ingénuo, pois não se apega a nada, pelo contrário, é um desapegado por definição. Há uma inconsistência conceitual na crítica de Žižek ao atribuir ingenuidade aos Cínicos, visto que todos, exceto os Cínicos, estão atrelados a seus papéis na estrutura.

Há muitas histórias sobre os filósofos Cínicos do passado, mas de onde vem o Cinismo?

Sócrates foi, sem dúvida, o marco da Filosofia, o que a divide entre antes e depois dele. Ao aceitar passivamente sua pena de morte por envenenamento e, assim, pelas suas ações, a inspirar os pilares do que consideramos ser a Ética, teve em seus discípulos o seu maior legado, pois, se antes os desafetos políticos teriam de lidar apenas com ele, Sócrates, depois de sua morte seriam seis os discípulos que estariam efusivamente a falar por ele. Platão foi o mais famoso, obviamente, mas todos os outros cinco vieram a fundar escolas filosóficas.

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Depois de Platão, o mais relevante foi Antístenes, que veio a fundar o Cinismo. Sócrates, assim como Antístenes, tinham uma coisa em comum: não davam nenhum valor às escritas, pois desprezavam o valor de tudo o que não fosse uma filosofia prática, verbal, feita no devir, argumentativa, em que a verdade emergia tal como um parto, pela maiêutica, a elaborar questões que levariam o interlocutor a duvidar de suas próprias certezas para, assim, atingir um conhecimento mais próximo do que seja a verdade, se não ela própria. Mas, ainda assim, existem diversas obras que foram atribuídas a Antístenes, mas que se perderam no tempo, em sua maioria.

Seria o trabalho de Platão tão rico e valioso se Sócrates tivesse se dado ao trabalho de escrever seus próprios pensamentos? E o que seria se os trabalhos escritos de Antístenes tivessem sido poupados e chegados até os dias atuais, tais como os de Platão? Algo que nunca saberemos, mas a questão é tentadora, para aquém de toda a magnitude e relevância de Platão, que é incontestável. À época, havia uma predileção pela oralidade, em relação à escrita. Platão, inclusive, dividia-se entre as duas e foi assim que passou a dar relevância à escrita, felizmente, que nos possibilitou seu imenso legado. Outra questão, seria se Platão tivesse escrito tudo sobre sua Filosofia verbalizada, o quanto mais não teríamos hoje. Eis o paradoxo da oralidade: é tão mais excelente pela qualidade quanto mais efémera.

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Mas o que sabemos que tanto Sócrates quanto Antístenes e seus discípulos Cínicos davam imenso valor a uma filosofia prática, funcional e aplicada às questões reais e verdadeiras da vida, que dela surtissem ferramentas para lidar com os problemas que é o viver, tal como o que ocorreu com Sócrates, por exemplo. O Cinismo, aliás, é tido por muitos como o “pai” do que veio a ser conhecido como o Estoicismo, que atualmente é a mais “queridinha” escola filosófica, ao menos para os mais afins com o neoliberalismo, embora muitos não desconfiem desta velada dupla condição.

Por isso, o conceituado historiador da Filosofia, Giovanni Reale, destaca que «Antístenes destacou sobretudo a extraordinária capacidade prático-moral de Sócrates, como a capacidade de bastar-se a si mesmo, a capacidade de autodomínio, a força de ânimo, a capacidade de suportar o cansaço. Limitou ao mínimo indispensável os aspetos doutrinários, opondo-se duramente ao desenvolvimento lógico-metafisico que Platão imprimira ao Socratismo»[1].

Há um reducionismo natural em toda a filosofia Cínica, em que o conhecimento é colocado sempre em perspetiva, onde tudo é explicado a partir de analogia para que, assim, seja explicado um determinado contexto em que o conhecimento se dá, a partir de um nome que cada coisa particular possui, e nada mais além disso. As coisas complexas são explicadas pelas composições das coisas simples e, sempre, como dito, em perspetiva. E isto não agrada aos crédulos filósofos que acreditam na precisão conceitual e na exatidão da verdade que pode ser atingida, tal qual uma demanda pelo Graal que estão a empreender desde sempre. Mas, como um neocínico, digo que eles estão certos, ainda que sob a perspetiva deles, embora tanto eles, quanto eu, poderemos mentir um pouco, às vezes, mas só um “pouquinho”.

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O Cinismo foi um movimento, antes de tudo, de anticultura. E a cultura, naquele tempo, era a investigação teórica e abstrata, do estabelecimento de conceitos, de estabelecer modelos sobre o conhecimento e sobre o mundo. Os Cínicos queriam algo essencialmente pragmático. O mais famoso dos Cínicos foi mesmo Diógenes de Sinope, que diziam viver em um barril e nada possuir, e era este o seu marco anticulturalista, de negar todas as convenções sociais e reduzir suas posses ao mínimo possível. Foi o primeiro minimalista da história, e o precursor dos movimentos da contracultura, assim reconhecidos nos anos 60, como por exemplo os dos hippies. Para Diógenes, a liberdade para agir e se expressar era o maior bem, além da liberdade de tudo o que pode prender alguém a uma estrutura, que é fortemente negado por ele.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)


[1] Reale, Giovanni. História da Filosofia. Volume l. São Paulo: Paulus. 2003, pg. 106.

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