glossário do esquema conceitual do possível serdual - consciência

Consciência

“A consciência nos parece um fluxo de muitas coisas – principalmente pensamentos – e que também nos parece que não pode ser apreendida completamente em toda a sua cadeia de acontecimentos. Ela é percebida como um fluxo constante que passa por infinitos pontos, lugares e dimensões, mas é mais percebida na parte que se situa entre os conteúdos mentais apreendidos no tempo e no espaço e as possibilidades que o sujeito tenha para si, e isto significa que a consciência está na imanência, mas a buscar a transcendência dentro do possível, ou quiçá para além dele.

Neste fluxo, estar consciente é perceber tudo o que nele acontece, que é o que é dado como existente, e que se constitui tal qual a intencionalidade brentaniana – a inexistência intencional – em que a existência de “x” se dá pela consciência acerca de “x”, e não necessariamente pelo conhecimento de “x”. E, a propósito, “x” pode ser tanto imanente quanto transcendente, tanto existente quanto não existente.

É exatamente isto que é feito pela consciência, em síntese: projetar tanto o mundo como o conhecemos e percebemos, de acordo com os conteúdos mentais que possuímos e, em relação às possibilidades, o que ela faz é transcender a estes mesmos conteúdos para atingir uma previsibilidade do que poderá vir a ocorrer – a consciência define tanto as possibilidades enquanto calcula suas probabilidades, no caso de uma possibilidade vir a ser uma oportunidade. Quando prevemos algo, partimos do que conhecemos (e temos) para o que também conhecemos (mas sem que tenhamos isto, necessariamente). E prever algo é se aproximar ou se projetar às possibilidades. Por isso a consciência é uma projetora de possibilidades – e isto nos deixa presos ao devir para que tenhamos a máxima afinidade com as possibilidades que poderão ser alcançadas, oportunamente.

O tempo, assim, é percebido pelos instantes apreendidos como uma oportunidade. E a consciência se deixa enganar, a acreditar que o tempo seja uma oportunidade eterna, pois assim ela está, a se instalar dentro do instante, como se este fosse realmente a própria eternidade. A consciência, portanto, é tola, tal como o pobre tolo, de Pascoaes, pois o que realmente a consciência “quer” é adentrar ou ultrapassar o devir e isto significa ampliar sua capacidade de prever as coisas que ocorrerão, de saber antes o que está para ocorrer.

Há uma função de sobrevivência nisto, de inteligência aplicada, e nada é despropositado, mas sim fruto de milhões de anos de evolução. É disto que estamos a tratar, como já vimos, de trazer a transcendência para a imanência, de trazer o futuro para o presente, de controlar e de mitigar ameaças. É o que é, mas não adentraremos às questões mais profundas acerca da consciência e seus mecanismos, ao menos acerca do muito pouco que já foi descoberto sobre isto. Enfim.

Se a consciência pode ser conceituada assim, a autoconsciência será a consciência da própria consciência, que são as relações racionalizadas do sujeito com seus conteúdos, consigo mesmo, com os existentes e inexistentes, que são todas as oportunidades que a consciência apreende para si.

E isto inclui a consciência não apenas das representações mentais das oportunidades apreendidas, mas também dos próprios juízos e das próprias emoções.

E, se a autoconsciência se baseia nas relações, é preciso perceber um tanto acerca das fantasias envolvidas, próprias ou projetadas. A autoconsciência é uma instância superior – a única capaz do mais alto exercício racional, moral e ético – e voltada para o que se defina, se busque e se aceite como o que seja considerado o bem maior.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XI)

“Mas, como se dá a diferenciação entre um indivíduo e a estrutura que o está a abrigar?

O que é preciso perceber são mesmo as relações percetivas e conscienciais de cada um em relação às estruturas as quais se está inserido. E o primeiro passo é definir seu estado de alocação existencial – se está a “existir” mais para si ou mais para a estrutura, ou ainda se mantém em equilíbrio entre a si mesmo e à estrutura. Posteriormente, será preciso perceber se possui uma atividade mais concentrada em sua subjetividade (sempre mais rígida) ou na objetividade (mais presente, flexível e com objetivos materiais), ou talvez tudo isto poderá estar também em equilíbrio.

São as primeiras questões cruciais para se reencontrar a si mesmo dentro de um cenário alegórico que pode ser produzido um mapa da estrutura e marcação do ponto de localização e dos trajetos que se faz dentro deste mapa, E isto significa uma possibilidade de saúde consciencial mais interessante a quem possui interesses no saber existencial.

Há que se perceber que após esta consciência acerca da própria alocação, haja a consciência da consciência, a autoconsciência, que é um afastamento de todo o relacional, pela abstração, para verificar as teias que existem entre si e todo o resto. Esta capacidade da autoconsciência é que irá definir se a relação é boa ou não – pois o que interessa, mesmo, é a forma como as relações estão estabelecidas que darão elementos para uma escala de valor do relacionamento, e não o conteúdo, que pode ser mais facilmente transformado e é extremamente volátil. E é isto que o sujeito completamente estruturado perdeu: a noção das teias que o está a prender à estrutura. Uma teia tão sutil que julga estar livre, ser livre, sem nenhuma ação para além das suas.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XII)

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