glossário do esquema conceitual do possível serdual - consentimento

Consentimento

Afinal, era uma relação sexual e comercial bem estabelecida, ao menos como podemos supor. E aí há o problema do consentimento, o ponto crucial de tudo isto.

Pois não se pode deixar de mencionar que se há o consentimento entre as partes, tudo é válido. A questão conflituosa, nestes casos, e gravíssima, é que para haver o verdadeiro consentimento deve haver equilíbrio entre as partes e isto significa que a fantasia não pode ser usada como relação desigual de poder, miseravelmente, e de forma covarde. Nenhuma das partes pode estar vulnerável, em desvantagem em nenhuma forma. E, por isso, são raros os casos de prostituição que sejam relações equilibradas e devidamente ajustadas e assim devem mesmo serem combatidas todas as formas de exploração sexual, caraterizadas por serem não voluntariosas ou desiguais.

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Pois, havendo a exploração, há um abuso evidenciado que transcende à própria fruição pela fantasia. Uma pessoa em condições de imensa vulnerabilidade, seja a que “paga” ou a que “recebe”, e geralmente a que recebe, pode ser facilmente dominada não pelo que está a fantasiar, mas pelo mínimo que precisa como necessário para sua sobrevivência, ou sobreviver à coerção, em uma instância em que não deveria haver nada mais do que elevar esta pessoa à uma condição de dignidade mínima e liberdade para considerar o que fazer, sem nada mais lhe exigir até que possa decidir por si, ainda que dentro de todos os pontos exteriores que sabemos influenciar tal decisão.

Por isso, há uma dificuldade para se perceber a diferença entre o que é fantasia como um jogo de sedução, em que o prêmio é o próprio proveito da relação, e o que é estritamente um jogo mesquinho e egocêntrico de poder, em que o prêmio é a mesquinha aquisição e subjugação, que não se constitui como uma verdadeira relação. É um crime, e dos piores. Mas, para os puritanos, ou puritanas, que desejam menosprezar quem se prostitui, é bom perceber antes que isso também se dá em muitos casamentos firmados nos mais “dignos” templos religiosos, lamentavelmente.

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O objetivo maior de tudo o que se está a apresentar aqui é apenas a forma como os relacionamentos se estruturam, realmente. O efeito colateral é que algumas ilusões acerca das próprias relações poderão se desfazer. Mas, também, poderão ser fortalecidas quando se passa a perceber que é possível nutrir relacionamentos de forma a aumentar sua duração e intensidade. Nós, os neocínicos, não julgamos moralmente nada, pelo contrário, buscamos expor o que há, criticamente, mas sem os juízos que devem ocorrer apenas pelas perspetivas de quem está envolvido nas situações analisadas. Pois, universalizar verdades ou procedimentos é algo totalmente oposto ao Neocinismo.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IX)

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