glossário do esquema conceitual do possível serdual - crenças

Crenças

“Quantos tratados morais ou éticos foram grandes promessas que acabaram por ficar destinados às poeiras das estantes? Logo ficaram obsoletos, pois tudo está nos movimentos, nas qualidades.

Pois, se há uma crença acerca de algo, como por exemplo “a vida vale mais”, há parâmetros acerca de muitas outras coisas. Pois uma crença, mesmo profunda, é sempre relacional, sempre suportada por outras crenças e desejos oriundos delas. E que igualmente vira suporte para tantas outras, sem se conseguir separar crenças absolutas, independentes e incondicionais. Estão conectadas em uma estrutura, totalmente interligadas. Não conseguiríamos tê-las, em estado absoluto, sem que as formássemos através de processos da autoconsciência: das informações, educação e experimentação, pois assim são todas as crenças que carregamos connosco.

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As crenças começam a serem formadas desde tenra idade, pela convivência e aprendizado, e iniciam a construção do que é chamado de subjetividade. Ou de mundo interior, para o que seja verdadeiro ou falso, bom ou mau, etc., seja apurado e se formem os primeiros juízos sobre a realidade. Estas crenças consistirão na capacidade consciente de se chegar ao conhecimento, ou no que seja desejável ou indesejável. As primeiras formas dos exercícios racionais dos juízos adquiridos, e que constituirão o primeiro filtro acerca de si e do mundo. Pelas crenças, surgem simultaneamente os desejos, que são oriundos das relações, do conhecimento do outro que se está a interagir, pela diferença, pela falta, como visto, na busca das possibilidades.

Como alguém poderia assumir uma crença em algo se não houvesse uma necessidade subjetiva de crer, que não deixa de ser um desejo funcional, de se fazer um juízo, ao menos, acerca de sua veracidade? E isso se dá no fluxo das oportunidades da consciência, a se ter pela contingência, ou se a desejar pelas pulsões, quando se precisa ou se quer apreender algo. É desta necessidade, de lidar com a escassez ou com a multiplicidade das oportunidades, que dá origem à nossa complexidade, ou da complexidade que passamos a atribuir ao mundo.

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Se o desejo for falso, pode-se descartar a crença prontamente, que vira periférica. Mas, o desejo de que algo seja verdadeiro, ainda que este algo seja desconhecido, mas que já exista algum conteúdo mental acerca deste algo, levará o sujeito a manter em si um vazio a ser completado pelas outras oportunidades que se apresentarão e que que precisam se adequar a tais necessidades de desejos. O que não se tem, mas se deseja, sempre se busca, ainda que seja um desejo pelo próprio desejo.

Se a crença for verdadeira, assume-se ser ela o caminho para a possibilidade, ou a própria oportunidade, e vira profunda e relevante. O processo nunca é em vão. O algo, ou o objeto considerado pelos juízos, precisa ser sempre acreditado, validado. E, se há necessidade de verificar a veracidade, já está aí um desejo constituído. Pois, se se deseja algo, é por que se acredita que há ali, no mínimo, a sua existência na mente, na intenção de existência. E, assim, assume-se previamente a sua condição de veracidade, ou validade, mesmo que a coisa, em si, não exista mesmo. Ninguém deseja o vácuo, embora muitos se sintam um. E é este vácuo a dimensão que aguarda ser preenchida, pelas crenças e desejos existentes.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XI)

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