glossário do esquema conceitual do possível serdual - deliberação

Deliberação

Sobre a deliberação: “Não se deve esquecer, portanto, que ter a consciência sobre algo é suficiente para que haja a intencionalidade acerca deste algo. Ter a consciência da existência, das possibilidades, não requer que a coisa exista como oportunidade. Assim, alguém que esteja no topo, poderá não ter mais algumas opções para si sobre algo, mas saberá que este algo existe, pois carrega consigo esta consciência e também a própria consciência acerca da privação deste algo, o que não pode ser tão confortável assim para quem julga ter condições de possuir tudo o que desejar. São as complexidades humanas, afinal, que habitam em nós em suas contrariedades.

Mas, pensemos nesta suposta vida dos que estejam alocados no topo. Quando se precisa agir, ainda que sob a tutela da astúcia da razão, o que ainda propicia uma suposta sensação de liberdade, mesmo assim pode-se sempre contratar uma outra pessoa que decidirá por si, que é um “personal professional deliberator”, alguém capacitado para escolher por alguém que não quer ter este esforço deliberativo. E supostamente, assim, o número de decisões do abastado sujeito que não quer mais decidir cairá, tanto mais se esteja no topo ou próximo a ele.

A estrutura a sua volta, pelas ações dos subordinados ou empregados, tratará da maioria dos assuntos cotidianos que lhe dizem respeito, e pouco sobrará para decidir ou escolher, como se tudo viesse automaticamente ao seu encontro. A vida no topo parece correr de forma que supostamente terá todo o tempo do mundo, ao que parece, sem as rotineiras e desgastantes decisões que todos os simples mortais precisam tomar. Mas, os decisores profissionais, ainda assim, estarão na instância de deliberarem, pois a deliberação precisa ser realizada, sempre, haja o que houver, seja por quem for.

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O estatuto de deliberar pode, então, mudar de mãos, mas não se extingue, todavia. Ainda que as escolhas não sejam feitas pelo sujeito, ele tem consciência de todas elas, e são deles as consequências, as resultantes. Ele escolheu não escolher, mas nunca poderá escolher não agir, pois, se nega uma deliberação que feita para si, já está a renunciar sua escolha anterior, de não escolher diretamente, ou não escolher nada mais, ao mudar de atitude e deliberar a favor de outras escolhas, que sempre estiveram consigo, e sempre estarão, pois não há como fugir delas. E isto pode ser considerado como ilusão, portanto, pois o sujeito sempre estará a lidar com suas possibilidades, obrigatoriamente. A vida “fácil”, sem escolhas, é uma ilusão trabalhada à perfeição pelas obras literárias e teledramaturgias.

A facilidade da vida, no imaginário popular, passa a ser considerada como proporcional à ociosidade, que resulta da menor complexidade de se deliberar sobre questões diversas. Pois escolher é sempre correlacionado aos desejos, ao que se quer. E, como se sabe, este é um campo minado e complexo de se lidar. Por isso, a felicidade suprema pode ser interpretada como o não mais desejar nada, ou não mais deliberar sobre nada, pois será assim quando tudo se tem ou quando nada mais lhe faz falta. Foi exatamente assim que os Cínicos da antiguidade buscaram como sua melhor forma de viver a vida, ao virarem as costas para todas as formas organizadas de estruturas que os levassem a ocupar posições deliberativas.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

“O facto é que a estrutura não se curva às idealizações de ninguém, e é isto que leva às dissonâncias nos acontecimentos. E isto ocorre não apenas no mundo comum e popular, mas também nos campos académicos, especialmente nas Humanidades, quase que sem exceções.

crenças académicas profundas acerca da máxima autonomia do sujeito que supostamente possui capacidade para deliberar todas as suas escolhas e estabelecer modos de agir, individualmente, como origem primária[1] de seus próprios movimentos existenciais causados apenas por si mesmo, sem nenhuma influência para além de si, a priori. Uma herança da ideia da máxima racionalidade, capaz de tudo fazer e promover. E isto passou a ser defendido genericamente desde as teorias do livre arbítrio agostinianas e mais acentuadamente com o Iluminismo, a chegar aos nossos dias, como se nada mais houvesse para além do indivíduo a interferir em suas intenções ou ações. E vem a ser reproduzido exponencialmente entre a pretensão humana em relação a si mesma e a fé extrema na autossuficiência da sua própria racionalidade, tudo sempre como uma forma de afirmar uma liberdade já tão combalida de uma individualidade que nunca operou como desejada.

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Pensamentos assim são como as viagens psicadélicas coletivas com as drogas mais alucinógenas que existem ou já existiram, tomadas em dosagens concentradas, visto que estamos no terceiro milênio depois de Cristo e com todo um manancial de dados e factos que nos possibilitariam uma reveladora releitura de nós mesmos antes mesmo de buscarmos uma tese última sobre algo, ao menos nas Ciências das Humanidades.

Se assim for feito, em revisão, rapidamente poderemos perceber que o sujeito autônomo e deliberativo não será nada mais do que aquilo que sempre foi: uma utopia – e das mais obscenas que existem, pois nunca foi colocado em causa que há sempre algo mais presente nas deliberações tomadas e tidas como individuais, e que a própria autonomia seja ela mesma uma outra idealização bestial. Somos todos, mais ou menos, replicadores e reprodutores de algo que nos transcende, o que não é fácil de se aceitar, ainda mais quando se imagina profundamente racional.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. VII)


Notas sobre a deliberação:

[1] É justamente a existência desta “origem primária” a premissa que leva ao erro conceitual de uma causação primeira, mas já fugimos deste risco ao evocarmos o conceito da causação imanente de Espinoza.

Sobre a deliberação: Conteúdo Protegido.

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