glossário do esquema conceitual do possível serdual - desejo

Desejo

“O poder dos motores-imóveis da vida, como as celebridades, é o maior de todos, pois causam sem causar, impávidas, a atraírem tudo o que há. Todas as portas se abrem, todos os tapetes vermelhos são acessíveis. E, ao atrair tudo o que há, atraem também todas as possibilidades, ou passam a serem reconhecidos pelo conjunto de possibilidades que julgam possuir. É disso que se trata, em última instância. A dimensão simbólica do poder é o da atração, numa dimensão supraerótica, que só as celebridades ou influenciadores conseguem atingir, ainda que em pequenas frações. Eis a grande síntese da atração: poder como meio, possibilidades como fim. E nisso, o desejo, e principalmente o desejo pelo desejo do outro, pois isso significa que o outro, a desejar, estará a dar ao desejado o status de poder almejado.

.

Pois sempre é assim: o verdadeiro interesse pelos sobre-humanos (ou pelos sobre-pets influencers) é a fantasia dos simples mortais. Desejam o desejo dos seguidores e, assim, a relação da fantasia também é inversa. É, afinal, um relacionamento, entre os deuses e os mortais, como sempre. Ainda que atualmente, os sobre-humanos existam mesmo, que é a versão atualizada dos semideuses, diferente dos deuses, que nunca existiram realmente, até porque nunca tiveram um perfil próprio nas redes sociais, e que nossos contemporâneos sobre-humanos possuem fartamente, e todos muito bem produzidos. O homem evoluiu, ficou mais ambicioso, e está a criar os sobre-humanos, e não se satisfaz mais apenas com os semideuses. Percebe-se cá a imensa pretensão do imaginário atual.

.

Pois estes seres sobre-humanos perfeitos e imperfeitos possuem também, neles, toda a transcendência gerada pela necessidade do consumo e da saciedade, em que buscam realizar-se em puro ato, de tudo o que seja legítimo e original, e querem apreender todas as outras qualidades e atributos que um produto possa ter. Mas, se assim não for possível apreender o que é autêntico, há uma transposição, feita pelos incapazes de apreender estes produtos autênticos, para uma ilusão das réplicas que podem adquirir. Se não é possível o original, busca-se um equivalente. Passam a acreditar que o que é falso e inferior em qualidade possa ser a mesma coisa do que o autêntico, desde que apreendido devidamente, quando postado nas suas próprias redes sociais.

.

É sobre isso mesmo que estamos a tratar: das possibilidades, até mesmo da transposição de atributos, em que o falso possa vir a ser o verdadeiro. E tudo pela falta, pela diferença, pelas possibilidades, da necessidade de se ir da potência ao ato. Este é o nome da dinâmica principal que estamos a presenciar, dos que querem poder ter possibilidades para tudo. E é deste jeitinho mesmo.

.

E assim, tudo o que existe como possibilidade é o que faz o sujeito se movimentar para chegar próximo desta aquisição – de ser ou de ter, e que passa a ser seu objeto intermediário para saciar seu desejo. A possibilidade contém em si o belo, o perfeito, o desejável e é o gatilho para fazer surgir o ser desejante.

.

Mas o desejo não está na possibilidade. Pois quem deseja mesmo é o desejante, aqui considerado como humano, mas não apenas, e que tem em si a sede deste desejo, que é próprio de si, e que assume como parte de sua individualidade, pois o desejo passa pelo crivo de seus juízos mais profundos – a diferença fica, assim configurada, como a própria essência da individuação, da correlação de si para com os outros, em cujo vácuo se percebe a possibilidade, que será sempre algo que poderá preencher este vazio. Mas vale, então, uma breve consideração conceitual acerca da diferença.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. VIII)

Conteúdo Protegido.

Deixe um comentário

X