glossário do esquema conceitual do possível serdual - espírito obsessor

Espírito Obsessor

As regras ainda são um grande problema para as mentes contemporâneas, adormecidas e vigiadas por algo externo: por um espírito obsessor transcendente a elas, justamente a parte oculta que faz com que a soma das partes visíveis não seja o mesmo que o todo, e assim percebemos que o todo é maior do que suas próprias partes constituintes. Há algo muito suspeito nisto tudo aqui considerado.

É preciso, portanto, sempre estar dentro destas regras ocultas, pois há uma sensação de sempre se estar sob vigília deste ente oculto, ao ponto de se sentir mal se infringir qualquer uma destas regras, ainda que ninguém descubra. Este espírito, afinal, parece querer algo de si, mas ele também quer algo de todos os que vivem na estrutura. Mas a única coisa que se consegue perceber, mesmo, são que as regras dele existem, ainda que não se saibam exatamente quais sejam elas, mas lá estão, sempre na posse de seus representantes, nos quais as regras passam a serem conhecidas, a buscarem definir o que deve ser percebido nesta importante relação transcendental na qual os representantes assumem a centralidade.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XII)

“Esta maioria, apesar de ser ela própria a criadora de um nada substancial, nunca perde a sensação de que há algo desconhecido, completamente estranho, que sempre está logo ali, bem à sua frente, mas que é invisível, embora sempre presente, a aguardar por isto que ela está a fazer. É quando o nada substancial passa a ser sentido, percebido, mas apenas em pensamentos, em assombrações, a ditar uma nova ordem que passa a ser nutrida coletivamente. Mas a maioria não apenas aguarda esta nova ordem se manifestar, como também tem imensa atividade intencional-interpretativa deste nada, a resultar em decisões que a levará a agir, a se movimentar, mesmo que não saiba para onde ou porquê.

Mas se entrega incondicionalmente a isto: às possibilidades que este nada substancial parece possuir. E passa a ser viciada nele, pela exacerbação dos próprios desejos que veem ganhar vida e legitimidade a partir da associação deste projeto de possível não ser mais seu, mas sim do nada substancial, e isto passa a ocorrer até que se perceba sem nenhum domínio sobre suas próprias vontades, ao menos em relação às possibilidades. Já se encontra dominada pelo que não conhece, embora este desconhecido seja fruto de sua própria criação.

Em resumo: cria-se um nada, dá a ele substância própria de si e, por fim, projeta sua vida neste nada. E o nada passa a reger tudo o que há. Intrigante, no mínimo, mas é assim mesmo. É assim que formas ganham vida, a se servirem de conteúdos, e a gerarem valores que são recebidos pelos verdadeiros criadores do nada existencial.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

“Quando não se pode consumir, se sonha em poder. Quando se pode, opta-se por não se fazer como se sonhou. É, no mínimo, mais uma inusitada contradição humana.

Supor que pode existir uma gestão externa e superior sobre si, assim como sobre todos os mortais decisores e consumidores, coletivamente, a partir de um agente oculto tal qual um espírito da mão livre capitalista, é o primeiro passo para tirar de si a raiz dos problemas. Daí, pode-se livrar das culpas, dos arrependimentos e colocar tudo na conta desta divindade promotora do consumo. Exceto para as faturas das compras já feitas.

Assumir que existam, alguns ou muitos, ou apenas uma, destas entidades extrafísicas mandantes, não apenas consumistas, mas da mesma forma ativas e ocultas, como se fossem um poder superior que dita secretamente o que decidimos em nossas vidas, e que influenciam ou dirijam as nossas escolhas é perceber que existe, também, ou provavelmente, uma certa inteligência central a ditar e a coordenar estas sutis atuações que se tornam muito eficientes para nos fazer decidir sobre o que pensamos ser uma decisão individual. Deveria haver uma hierarquia.

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E, por isso, além de influenciar os indivíduos, esta suposta inteligência superior deve ser eficientemente capaz de se ocultar, pois há na maioria das pessoas a verdadeira certeza de que toda a ação é mesmo fruto de suas próprias escolhas, e raramente duvidam disto. Até muitos filósofos, a maioria monista, onde o monismo é o trend filosófico da contemporaneidade, para além dos gurus da autoajuda, e até mesmo os coaches, apregoam que seja mesmo assim, que tudo venha do indivíduo, e somente dele.

E o que surge desta certeza sobre a total responsabilidade da individualidade, supostamente autônoma, para ser a única responsável pelas suas deliberações é que sempre se possui uma escalas de valores para avaliar as escolhas que precisam ser feitas.”

“Por enquanto, o que podemos alegar é que a hipnose funciona a partir das crenças que todas as pessoas possuem acerca do que está a ser abordado. Quem leva alguém a ficar hipnotizado não precisa criar crenças na pessoa que será hipnotizada, pois usará das próprias crenças que esta pessoa hipnotizada já possui, e de seus desejos, para produzir o que se queira produzir, até chegar aos estados alterados de consciência. Isto é o básico em hipnose. A capacidade deliberativa e autônoma é um processo de hipnose coletiva, viável e sustentada desde sempre, que são utilizadas crenças comuns, já existentes, para serem trabalhadas convenientemente pelo hipnotizador. Resta perceber quem, ou o quê, é o tal do hipnotizador.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. VII)

“Em analogia, o espírito obsessor sempre dependerá do seu antagónico ameaçador para ser o tomador das almas que passam a vangloriá-lo, indiretamente, por ser quem este passa a ser, ou quem diz ser. E o antagónico é sempre subvertido pelo sistema do status social, quando o obsessor abre mão do próprio estrelato e passa a subverter a ordem para que o antagónico seja ele mesmo uma estrela renegada, famosa e cancelada, um coadjuvante marginal indesejado e temido por todos. Temido sim, mas não tanto quanto o espírito obsessor, que mesmo a se assumir como o bem sempre precisa ser o mais temido, maquiavelicamente, para se manter superior. E manipula a todos nós como se fôssemos fantoches. E, quiçá, talvez ainda o sejamos.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XIV)

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