glossário do esquema conceitual do possível serdual - fantasia

Fantasia

“… que é basicamente o desejo pelo desejo, mais especificamente o desejo pelo desejo do outro, de ser o próprio desejo que o outro tenha ou ainda mais, em ter alguma gerência ou influência sobre o desejo do outro. Esta é a dimensão conceitual da fantasia, que Jacques Lacan estabeleceu como um estado em que se deseja que o outro deseje a quem fantasie com isto, e, assim, é preciso possuir, enquanto ser desejável, possibilidades que o outro, enquanto ser desejante, verifique ou acredite que não tenha, ou até mesmo serem valiosas o suficiente para não acreditar que seja possível tê-las, mas a ambicioná-las, para surtirem o efeito de atrair tal desejo pra si, o detentor das coisas valiosas com a volúpia de ser desejado.

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O grande barato do ser é atingir este status de desejável, pelos demais, e muitos o fazem. Os VIPs, contudo, estão a parte disso, relativamente, pois são as maiores fortunas do mundo, e evitam serem desejados pelas massas e, por isso, passam a se esconder de todas as formas de exposição pública, pois não querem nem serem seguidos, nem terem seguidores, o que é o mesmo do mesmo, e por isso alguns nunca foram vistos publicamente. Mas, não significa que estejam imunes às fantasias, mas que as possuem em seu próprio mundo, inacessível às massas, e lá as exercem, ao competirem por quem será considerado mais rico, e mais desejável, portanto.

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Certa vez, no auge das temporadas de sequestros no Brasil, na década de 90, uma mediana cidade do interior de Minas Gerais elegeu a lista dos sequestráveis e, um certo conhecido, que tinha a pretensão de afirmar sua riqueza, se indignou por não estar na lista de sequestráveis da cidade, e se exaltou ao ponto de reivindicar que ele deveria estar nela, por possuir o que possuía. Sentiu-se diminuído frente a sua própria fantasia frustrada.

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Sim, não era um VIP global, mas aspirava a sê-lo, ao menos municipalmente, pois não tinha seu próprio mundo, obviamente, mas isto dá a dimensão do poder da fantasia, ao ponto de o sujeito não medir as consequências para fazer valer suas fantasias, ainda que quem o desejaria fosse uma quadrilha de sequestradores que eventualmente poderia lhe arrancar um dedo ou uma orelha como pressão pelo resgate, mas, ainda assim, seria para ele uma afirmação de seu status, e uma marca para o pós-sequestro, se a família achasse conveniente pagar pela sua liberdade. Muitas não o fizeram, e por isso nem sempre é bom lembrar daqueles tempos.

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Mas o desejo está dentro do indivíduo desejante e sempre estará, nestes entrecruzamentos dos desejos trocados que são chamados de relacionamentos. Desta forma, reflexivamente, o próprio desejo alheio do ser desejante (do seguidor, por exemplo) passa a ser uma possibilidade para o ser desejável (do influencer), e, por isso, igualmente desejado pelo desejável.

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Por isso, incrivelmente, o seguidor é também muito desejado pelo influencer, que até mesmo chega a “comprar” falsos seguidores, caso não os consiga pelos meios normais, e isso é exatamente fazer o mesmo que os seguidores fazem, a comprarem as falsificações dos produtos que os influencers possuem, quando não podem pagar pelos originais. Está a perceber a treta dos desejos? Não há quem fique imune, totalmente.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IX)

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