glossário do esquema conceitual do possível serdual - formas e conteúdos

Formas e Conteúdos

Sobre formas e conteúdos

pois a forma será o esqueleto da ideologia.

“Há que se perceber que após esta consciência acerca da própria alocação, haja a consciência da consciência, a autoconsciência, que é um afastamento de todo o relacional, pela abstração, para verificar as teias que existem entre si e todo o resto. Esta capacidade da autoconsciência é que irá definir se a relação é boa ou não – pois o que interessa, mesmo, é a forma como as relações estão estabelecidas que darão elementos para uma escala de valor do relacionamento, e não o conteúdo, que pode ser mais facilmente transformado e é extremamente volátil. E é isto que o sujeito completamente estruturado perdeu: a noção das teias que o está a prender à estrutura. Uma teia tão sutil que julga estar livre, ser livre, sem nenhuma ação para além das suas.

Assim, para percebermos melhor o que se está a colocar em causa, consideremos que uma boa relação amorosa, para devotos puristas ou idealistas, sempre se baseará no conceito de amor projetado pelos filmes românticos de Hollywood, quando tudo é perfeito, até mesmo o sexo, totalmente “convencional” e “moral”. Enquanto para outras pessoas, uma boa relação sempre será uma relação baseada no sexo selvagem e nas aventuras que façam em conjunto, sem limites para as experimentações do “Kama sutra”, com algumas pitadas de promiscuidade e outras doses esporádicas de extrema lascívia, para se quebrar a rotina que nunca haveria de existir.

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Poderá o casal purista ter uma vida dupla, cada um deles, pelas possibilidades que se privam na vida a dois, e por isso podem se arrependerem por estarem juntos, mas sem forças para sair do jugo religioso e social aos quais pertencem, que determinam que o sacramento do casamento seja, pelo menos, até que a morte venha para os separar. Daí, nunca se perceberão em uma relação realmente boa para eles, pela falta da autoconsciência acerca destes valores morais que castram seus desejos mais íntimos por, como sugerido, a castração simbólica para as experimentações sexuais.

Talvez, secretamente, até podem desejar por isso mais do que o casal lascivo amigo. Ou provavelmente nem seriam amigos deste casal, pois a moral, quando rígida, impossibilita até mesmo tais amizades entre os puros e os “pecadores”, que passam a serem combatidos como representantes diretos do mal, nem que seja pela maledicência, neste caso permitida pelas leis puristas. Não é a dissonância entre as estruturas o problema, mas sim a falta de uma autoconsciência lúcida sobre as relações estruturais – de suas formas e conteúdos.

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As formas, como sempre, são as determinantes. Os conteúdos, no futuro, para ambos os casais, poderão ser alterados e os que faziam sexo selvagem passarão a ter interesse em, por exemplo, algo inusitado como a observação selvagem de pássaros raros. E perdem o interesse demasiado que tinham na prática sexual “não-convencional”. Viverão, se dotados da autoconsciência, com a mesma cumplicidade de antes. A frequentarem, igualmente animados e felizes, um clube de birdwatching, ao invés de um clube de extreme sex. Pois a forma que se relacionam é exatamente a mesma e, por fim, os conteúdos não são tão relevantes para que se classifique uma relação como boa ou má, a longo prazo. As avaliações rígidas morais acabam sempre por frustrar os conteúdos e emperrar as formas, sem fluidez.

Os critérios categoriais passam por perceber, primeiro, a alocação do sujeito em questão, tanto como descobrir elementos a instanciarem o próprio modo de ser, bem como o modo de existir. Mas, sempre, todos os relacionamentos devem ser percebidos e interpretados como estruturas que são, e que, portanto, operam como tal, invariavelmente. E possuem todos os componentes que possui qualquer estrutura, que se forme assim e se consolide como tal. Ao perceber as dinâmicas dos relacionamentos de casais, ficará fácil perceber que é um padrão que norteará também as relações sociais, como um todo.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XII)

“A forma, novamente relembramos, é quase sempre única, e o que muda são apenas os conteúdos. E os valores destes conteúdos são considerados distintos para cada indivíduo na perspetiva considerada, para uma mesma ação, intenção ou proposição, que para uns são do bem, para outros não. Não se pode, e nem se deve, ser tendencioso ou pretensioso para buscar o entendimento acerca dos valores que são atribuídos para o que está para além de nossa própria realidade. Assim, seria difícil ou “impossível” algum conhecimento da realidade a qual estamos orientados a perceber.

Impossível? Sim, considerei mesmo a impossibilidade, ao ponto de escrevê-la. Então há, de facto, algo realmente impossível? Já que estamos a avançar, é preciso revisar isto, pois, se existe a palavra “impossível”, e eu próprio a usei, o que ela poderia representar?

Eis aqui mais uma subversão semântica que serve para ampliar esta compreensão. A palavra, assim percebida, é uma impossibilidade simbólica (e não a real). E isto significa considerar que ela seja uma instância dentro das possibilidades, projetada inversamente.

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A impossibilidade assim considerada é sempre aquela tola, inexpressiva e irrelevante. É uma proibição que as regras, através de seus ditames, colocam para que uma possibilidade possa vir a ser “desativada”, em nome da credibilidade do espírito obsessor, para haver alguma zona capaz de criar outras ilusões derivadas. É possível haver ali uma possibilidade renegada, mesmo que provisoriamente.

Para os cristãos, por exemplo, matar é uma impossibilidade simbólica dada pelos “Mandamentos” de deus. Não pela incapacidade de alguém matar outro, mas sim por haver uma regra em que matar seja proibido, ainda que matar seja aceitável quando as mesmas regras ou seus representantes o digam para fazer, nos casos das guerras, cruzadas, sacrifícios humanos, inquisições, jihads, penas capitais ou ainda outras situações extremas. Um impossível simbólico que se torna possível apenas quando pela ação direta das versáteis regras.

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Impossível mesmo – aquele algo ou ideia que não seja possível, realmente – é apenas para as questões fora das obsessões coletivas, ou conceituais. Como por exemplo as questões naturais, em que não se possa considerar possível que uma amputação de um braço humano levará à uma regeneração orgânica. E que um novo braço possa nascer no corpo do amputado, tal como “renasce” a cauda amputada de uma lagartixa. Só assim se dá a impossibilidade, a nível natural, ou quase isso. Ainda dentro da obsessão cristã, há a própria possibilidade de a ressurreição existir, de um morto voltar a viver. E que é o mesmo do que um defunto, um corpo inteiro decrépito volte a viver, e muito mais difícil de se imaginar do que um braço, que seria apenas suposto “renascer” de um organismo vivo, de uma mesma origem.

Ainda assim, é mais facilmente aceito pelos cristãos que este defunto possa virar um corpo redivivo. E sair de sua catacumba a perambular por entre os vivos do que aceitar que o braço ressurja em alguém. Mas não há uma negação total, declarada e contestatória sobre a ressurreição, pois ela já está estabelecida pela obsessão, por mais sinistra e estranha que possa parecer. Nenhum cristão contesta abertamente isto e, se o fizer, terá problemas e será atacado pelos demais, ou excomungado, ou ainda pior, será cancelado. No passado não tão distante assim, poderia até ter sido queimado vivo.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XIV)

“Mas, o quanto disto há em nós? O quão contaminados estamos? Por que é tão difícil percebermos a nossa própria imersão ideológica? Eis também a dificuldade de trabalharmos a partir dos nossos próprios valores, dos conteúdos qualitativos que temos, sem sermos parciais ou imprecisos.

Devemos, assim, e preferencialmente, deixar por agora estes valores à parte disto, e buscarmos meios mais eficientes para ultrapassar tais conteúdos morais. E e isto será viável se direcionarmos o foco para as formas relacionais, nas dinâmicas racionais e das interconexões existentes em seu estado mais puro. O que precisaremos, então, será adentrar às relações entre os conteúdos (sede da moral) e as possibilidades (diretoras ideológicas da moral). Isto nos levará a perceber as formas relacionais da estrutura. E por isso a importância central para uma dimensão ontológica da ideologia. Dar uma dimensão ontológica à ideologia é dizer que ela “é” algo, que existe e é capaz de atuar. Recorrer à forma nos possibilita isto, pois a forma será o esqueleto da ideologia.

E a forma é também, necessariamente, relacional e motriz, e assim transcenderemos ao estudo apenas do indivíduo, como comumente é feito. E consideraremos não apenas este indivíduo. Que nunca está isolado, mas sempre é considerado autossuficiente. Consideraremos suas relações com o meio no qual está inserido, nas teias que chamamos de interações sociais. Que possuem as ideias comuns e relevantes de nossa ideologia.(em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XVI)

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