glossário do esquema conceitual do possível serdual - interesses afetivos

Interesses Afetivos

“Há que se considerar, desta forma, os motivos ou interesses afetivos que levam algumas pessoas a defenderem licitamente as formas de relacionamentos amorosos comerciais entre duas pessoas, mesmo quando acordados de forma comercial não formal, como por exemplo na prostituição, que em certos casos não deixa de ser uma forma sincera e civilizada de relacionamento entre adultos conscientes.

Apesar de contrariarem alguns preceitos morais tradicionais, os relacionamentos amorosos comerciais parecem, em tese, ocorrer positivamente por cada um saber exatamente o que está a ser acordado, pela parte que paga pelos “serviços” para obter o que a outra parte possui e, se for um “serviço” realmente profissional, competente, terá ainda a ilusão, nos poucos minutos, ou horas, da relação, de uma simulação de estar realmente a ser desejado, fantasiosamente. A parte que recebe pelos “serviços”, prioritariamente, está interessada no pagamento, e a cumprir sua função. É um tema complexo e perigoso, mas necessário de se abordar, pelo extremo que é uma afinidade declaradamente interesseira, a priori.

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Para além das questões morais, qual a diferença, a rigor, entre a prostituição e um casamento no qual exista um contrato pré-nupcial? Não há, aqui, uma condenação moral, pelo contrário. Nem o desejo de “rebaixar” o casamento à prostituição. Não é isso. A questão é elevar os relacionamentos comerciais da prostituição, se dentro de mínimos padrões de liberdade de escolha, de gosto e, principalmente, de consentimento, ao mesmo nível dos casamentos dados sob condições contratuais legais e formais, pois são todos relacionamentos firmados com base nos interesses e em normas estabelecidas, afinal, quando as partes estabelecem tudo o que queiras, previamente, e o que não queiram. A rigor, qual a diferença, sob esta perspetiva?

Para além da moral e do romantismo abalado, há algum mal verdadeiro nisso? Tudo é uma questão de avaliação, de juízos, de valores e de feedback que um espera receber do outro. Nem todos aceitariam isto, desta forma, exceto quando se apaixonam e ficam cegos para todas as convenções sociais. Se for a única opção para se realizarem afetivamente, não hesitarão em ceder às exigências, ou farão as suas também.

A controvérsia vem por causa de que o amor acabou por ser também um produto, idealizado como padronizado pelas obras literárias de ficção e mais recentemente pelas produções de Hollywood, que alguns apreenderam como verdadeiras fontes de obrigações de finais felizes e declarações apaixonadas em estações de metro entupidas de gente, prontas a apoiarem a todos que queiram se manifestar amorosamente. Mas o que acaba por importar, em toda relação, é mesmo o feedback do outro, da fantasia que está em jogo. Isso dá a qualidade, a intensidade, e é o que todos querem realmente.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IX)

Interesses Afetivos: Conteúdo Protegido.

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