glossário do esquema conceitual do possível serdual - milagres

Milagres

“Impossível mesmo – aquele algo ou ideia que não seja possível, realmente – é apenas para as questões fora das obsessões coletivas, ou conceituais, como por exemplo as questões naturais, em que não se possa considerar possível que uma amputação de um braço humano levará à uma regeneração orgânica, e que um novo braço possa nascer no corpo do amputado, tal como “renasce” a cauda amputada de uma lagartixa. Só assim se dá a impossibilidade, a nível natural, ou quase isso, pois ainda temos os milagres.

Ainda dentro da obsessão cristã, há a própria possibilidade de a ressurreição existir, de um morto voltar a viver, que é o mesmo do que um defunto, um corpo inteiro decrépito volte a viver, e muito mais difícil de se imaginar do que um braço, que seria apenas suposto “renascer” de um organismo vivo, de uma mesma origem. São os milagres! Ainda assim, é mais facilmente aceito pelos cristãos que este defunto possa virar um corpo redivivo e sair de sua catacumba a perambular por entre os vivos do que aceitar que o braço ressurja em alguém.

Mas não há uma negação total, declarada e contestatória sobre a ressurreição, pois ela já está estabelecida pela obsessão, por mais sinistra e estranha que possa parecer. Nenhum cristão contesta abertamente os milagres e, se o fizer, terá problemas e será atacado pelos demais, ou excomungado, ou ainda pior, será cancelado – e, para este último, ainda não são conhecidos milagres que foram capazes de reverter tamanha severidade. No passado não tão distante assim, poderia até ter sido queimado vivo, mas hoje é sumariamente cancelado.

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O fato de não se ter estabelecido nada sobre a possibilidade da regeneração de órgãos faz com que todos considerem isso como uma impossibilidade real, até o dia que houver alguma determinação “divina” contrária, a dizer que as escrituras possam, por milagre, regenerar um membro que tenha sido dizimado – tal qual o homem inerte que foi posto a andar novamente virasse uma diretriz para todos os que não possam andar. A omissão obsessiva permite a impossibilidade, e apenas ela. Se o milagre ocorre, e se este for atribuído a algum messias, santo ou santa, haverá uma multidão de mutilados a peregrinar à localidade dos milagres, em busca de um para si, pois o que antes lhe parecia ser impossível deixou de sê-lo.

Por isso, toda possibilidade é, antes de tudo, uma determinação, uma afirmação linguística e intencional convencionada sobre ela, seja crível ou não, seja mesmo ela mesmo possível ou não, seja lá o que for. A impossibilidade real é a declaração não feita, ou parte do que é desconhecido, é o silêncio e a falta de conceituação. Por isso, toda impossibilidade real está necessariamente fora da estrutura, e será desprezada como tal. É o espírito “quem” mais cria o mundo, afinal, e não apenas a mente individual, sempre uma acionista minoritária e irrelevante em relação ao espírito.

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Ainda assim, a partir desta impossibilidade real da regeneração de órgãos, criaram-se, pela inventividade humana, inúmeras próteses para ultrapassá-la, na estrutura capitalista, que tem pauta científica e, por isso, declarou que há sim uma impossibilidade para a “regeneração” de órgãos, em forma de produtos. E passou a ser uma impossibilidade simbólica pois, ao ser declarada, saiu do campo do real para o simbólico e, desta forma, virou um produto e, portanto, uma oportunidade para os mutilados e mais uma possibilidade para a estrutura.

O impossível simbólico sempre é, como tudo no capitalismo, um produto, pois isto já é uma outra obsessão coletiva, ainda mais presente, que é a predominância do capitalismo fetichista no topo de quase todas as estruturas existentes atualmente. São instâncias de obsessões, que se hierarquizam, e influenciam-se, mais verticalmente. Há outras possibilidades, mas o que está em causa é mesmo o sistema de crenças individuais e o cerne da questão: a inviabilidade da universalidade – do Universo aos predicados, das impossibilidades às possibilidades.

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Mas, não pense que não haja reações, pois houve eventos religiosos que incentivavam que os mutilados jogassem suas próteses para que recebessem o milagre de deus. O que estava em causa, ali? A briga pelo fiel, para que se mantivesse na estrutura religiosa. Assim, um espírito obsessor cristão passa a desejar combater um outro espírito obsessor capitalista e, ao fazê-lo, também se torna capitalista, e também está a formar o mercado e a concorrência, e logo virá a mão invisível.

A fidelidade do consumidor, ou do obsidiado, se dá quando mais aparentes impossibilidades forem capazes de serem derrotadas pelas intervenções protetoras do além. O fiel deseja sempre ter as máximas possibilidades para si. Recentemente, algumas igrejas brasileiras difundiram criminosamente a venda de artefactos religiosos, ditos ungidos, para que o fiel comprador pudesse combater o coronavírus, na pandemia. E muitos compraram, lamentavelmente, pois a promessa de marketing estava lá, e a credulidade deles, e o dinheiro, também. Em resumo, é isso.

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Por isso as impossibilidades simbólicas são tão atraentes, pois viram oportunidades, tanto para os representantes quanto para os sujeitos, justamente pelo desejo que fascina a todos, que passam a ver nas representações das proibições algo sedutor e desejável. No final, em que tudo acaba por se confundir na mente dos desprovidos de uma autoconsciência, a impossibilidade simbólica passa a estar para a possibilidade, assim como o diabo está para deus, e tudo dentro de uma grande viagem psicadélica que o sujeito entende como vida. Logo a possibilidade é subvertida, como produto ofertado, em oportunidade. E dá-se o consumo. E ocorre a fidelização.

Portanto, no caso do amputado, a obsessão cristã não estabelece nem uma impossibilidade real nem simbólica, e por isso, não há, ali, uma possibilidade, por não se ter declarado nada a respeito dela, abertamente. Mas, a obsessão capitalista oferta obscenamente a impossibilidade como possibilidade, pois nela a ciência declarou a impossibilidade real da regeneração e, por isso, sempre em contrapartida, há uma possibilidade, que é o produto da prótese. E o obsidiado humano, nada inocente, nem mesmo um coitado em sua maioria, se faz promíscuo entre as ideologias que melhor lhe apetecer, e passa a gostar (e a gastar).”  (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XIV)

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