glossário do esquema conceitual do possível serdual - moral

Moral

“Contrariamente a isto, para Espinoza – o filósofo ainda renegadoo bem não seria uma causa final. Pois não se deseja o que seja bom (em si), mas sim o que se deseja passa a ser bom na medida em que é desejado. É o desejo, portanto, que deveria parametrizar o bom. Mas isto nunca ocorreria no mundo estático dos devotos, mas apenas funcionaria em um mundo que fosse tomado por dinâmico, fora de nossa alçada. E tudo o que não é compreendido neste mundo estático em que vivemos passa a ser projetado neste míope cenário dual-moral. Que a tudo classifica ou como bem ou como mal, lamentavelmente. O espírito, assim, passa a “agir” desta forma, dentro da mente do que foi “possuído” por ele, já perdido de si próprio.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XII)

“A ideologia é uma entidade que precisa mesmo ser compreendida completamente, pois sua existência está para além dos básicos valores duais que alguém mais facilmente identifica em si mesmo, e nos outros, como o bem e o mal, o certo e o errado, enfim, os mesmos valores que estão atrelados na moral e que são igualmente conteúdos, de tão adensados que se encontram, quase sem que se consigam distinguirem-se das formas. Pois a moral possui os conteúdos mais profundos e simples: rústicos, ou selvagens, propriamente. Aqueles predicativos que já não são muito movimentados, nem questionados, pois se tornam os mais estáticos e centrais do que todos os outros. Na verdade, se forem movimentados até podem se “desintegrarem”, e causarem problema ao que o indivíduo entende de si mesmo, pois são os “filtros” primários que os levam a agir.

.
.

São os conteúdos morais que sustentam a perceção de existência e de identidade da individualidade, que estabelecem os parâmetros da diferença, da falta, pois isto ocorre mesmo assim: o “melhor”, ou o “positivo”, precisa sempre estar comigo, e o “pior”, ou o “negativo”, com os outros. Basicamente, este é o primeiro fator de relevância moral aos que apreendem, desde tenra idade, o que é ser a si mesmo. Tão natural quanto isso: a fome é comparada a um estado em que se estava saciado – há falta e, portanto, se está pior. E se aprende a chorar. Um exemplo reduzidíssimo, mas que logo desenvolveremos mais. A dor, a sede, etc… tudo é falta, assim como a pobreza, a feiura, etc. Vale tanto para a comparação em relação a si, quanto para os outros.

São estes valores o chão dos mais crentes, em que tudo “desabaria” se fossem bruscamente alterados, pois são estes tipos de indivíduos que estão mais alocados nos níveis mais centrais da existência, ou morais, e que não consideram nada mais relevante do que estes valores – nem mesmo as evidências que possam vir a contrariar as crenças morais existentes, por exemplo, e por isso é que passam tais individualidades mais crentes a se confundirem com os seus próprios valores.”

.

“Se os átomos se agrupam para adquirirem alguma estabilidade, assim também nós, indivíduos, o fazemos. Mas nem nós (nem os átomos) somos estáveis sem estarmos nessas ligações, ou o que as valham. Isolados, certamente não existiríamos. Pois sucumbiríamos nas primeiras horas de vida sem os cuidados necessários. Como estamos a trabalhar filosoficamente na dimensão das causas imanentes, já podemos perceber que a ideologia tanto é causada pela moral, quanto causa a moral. Mas estão em níveis diferentes: a moral é mais densa e concentradora, a ideologia, mais etérea e expansiva.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XVI)

Conteúdo Protegido.

X