glossário do esquema conceitual do possível serdual - Movimento e Paralisia

Movimento e Paralisia

Mas, o fluxo de ida e de volta, de movimento e paralisia, entre qualidade e quantidade, se consistentemente realizado, chega a um ponto mediano, condensado, clusterizado, e que pode dar uma impressão de ser isto a universalidade. Muitos gostam deste estado transitório e se acham realizados, se dão por satisfeitos, ainda que por alguns instantes antes de as contradições e inconsistências ressurgirem mais fortes.

Mas, entre “ir” e “voltar” neste insano fluxo, já se está a errar profundamente ao assumir que quando se sai de “A” para “B”, depois só lhe será possível voltar de “B” para “A”. Mas “A” já nem existe mais como antes, pois tudo se movimenta, e o idealista fica, como sempre, perdido nas convenções que mudam incessantemente. “A” era “A” quando o viajante lá estava, ao sair, tudo mudou, como o rio do filósofo grego Heráclito[1] (~500 a.C. – ~450 a.C.), pois tudo está sempre a mudar. Tudo ou movimento ou paralisia. A mudança é o movimento. A imobilidade é uma apreensão feita do processo sempre em mudança, do ser que é o instante apreendido como um eterno presente, do filósofo grego Parmênides[2] (530 a.C. – 460 a.C.), que se faz necessária e útil ao conhecimento analítico. Mas se conhece apenas o que se consegue apreender e a se conceituar a partir desta imagem, enquanto o que está a ocorrer é eterna mudança.

Platão[3] foi muito feliz ao definir o tempo, e o fez com uma das mais belas frases da Filosofia, quiçá de toda a literatura, ao dizer que «o tempo é a imagem do eterno». E este eterno é também esta eternidade a se movimentar constantemente e a se transformar em algo novo, sem compromisso fixo com uma constância ou qualquer previsibilidade “eterna”, pois tudo pode deixar de ser, e deixar de existir. Mas há a eternidade que é apreendida em pequenas frações, em momentos, para que se configure assim a perceção do tempo. O tempo é um frame, uma película do instante da apreensão que é apreendida, mas nada continua a ser como tal, necessariamente.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. X)


Notas: movimento e paralisia

[1] «Os filósofos de Mileto haviam notado o dinamismo universal das coisas, que nascem, crescem e perecem, bem como do mundo, ou melhor, dos mundos submetidos ao mesmo processo. Além disso, haviam pensado o dinamismo como característica essencial do próprio “principio” que gera, sustenta e reabsorve todas as coisas. Entretanto, não haviam levado adequadamente tal aspeto da realidade ao nível temático. E foi precisamente isso que Heraclito fez. “Tudo se move”, “tudo escorre” (panta rhei), nada permanece imóvel e fixo, tudo muda e se transmuta, sem exceção. Em dois de seus mais famosos fragmentos podemos ler: “Não se pode descer duas vezes no mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, pois, por causa da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela se dispersa e se reúne, vem e vai. (…) Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos.». Reale, Giovanni. História da Filosofia. Volume l. São Paulo: Paulus. 2003, pg. 23.

[2] «…não tem passado nem futuro (de outro modo, uma vez passado, não existiria mais, ou, na espera de ser no futuro, ainda não existiria), e, portanto, existe em um eterno presente, e imóvel, homogêneo (todo igual a si, porque não pode existir mais ou menos ser), e perfeito (e, portanto, pensável como esferiforme), e limitado (enquanto no limite se via um elemento de perfeição) e uno. Portanto, aquilo que os sentidos atestam como em devir e múltiplo, e consequentemente tudo aquilo que eles testemunham, é falso.» Ibidem, pg. 32.

[3] «Enquanto eterno, o mundo inteligível está na dimensão do “é”, sem o “era” e sem o “será”. 0 mundo sensível, ao contrário, está na dimensão do tempo que é “a imagem movel do eterno”, como uma espécie de desenvolvimento do “é” através do “era” e do “será”. Por isso, implica geração e movimento.» Ibidem, pg. 144.

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