glossário do esquema conceitual do possível serdual - neocinismo

Neocinismo

Sobre o Neocinismo: Pois o verdadeiro Cínico não quer mesmo convencer ninguém, quer é que todos tenham em si todo o discernimento que ele julga ter e a dúvida, assim posta, é algo sempre desejável. O argumento bom é aquele contrário, que não leva a nenhuma certeza, mas sim a um maior exercício das capacidades intelectuais. Se o cético não acredita ser possível alcançar a verdade, e o sofista não acredita que exista a verdade, o neocínico acredita que os dois, tanto o cético quanto o sofista, podem estar certos conforme a perspetiva em que estejam, assim como também todos os outros que discordam destes, e possuem suas teorias acerca da verdade.

O Cinismo foi um movimento, antes de tudo, de anticultura. E a cultura, naquele tempo, era a investigação teórica e abstrata, de estabelecimento de conceitos e modelos sobre o conhecimento e sobre o mundo. Os Cínicos queriam algo essencialmente pragmático. O mais famoso dos Cínicos foi mesmo Diógenes de Sinope (412 a.C. – 323 a.C.), que diziam viver em um barril e nada possuir, e era este o seu marco anticulturalista, de negar todas as convenções sociais e reduzir suas posses ao mínimo possível. Foi o primeiro minimalista da história e o precursor dos movimentos da contracultura, assim reconhecidos nos anos 60, como por exemplo os dos hippies. Para Diógenes, a liberdade para agir e se expressar era o maior bem, além da liberdade de tudo o que pode prender alguém a uma estrutura, que é fortemente negado por ele.

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Mas, há que se considerar que uma vida fora da estrutura é difícil, árida e complexa. Além de arriscada e com quase nenhum prazer. O Neocinismo propõe uma vida na estrutura, mas com consciência, lucidez e capacidades de ter, sempre, as saídas todas disponíveis. O que o Neocinismo propõe é o mesmo que queria Diógenes, que saía com uma lanterna acesa, à luz do dia a procurar o “homem”. O que ele queria era destacar que ninguém mais poderia ser, ali, humano, pois deixara de viver de acordo com sua essência. Era a distância antropológica que ele já estava a verificar, entre o modo de ser, em essência, e o modo de existir, em determinada posição na estrutura. Para o Neocinismo, a consciência acerca destes estados é benéfica e desejável, dado que o “homem” já não o temos mais, desde há muito. Uma batalha que já foi dada como perdida.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

“Para um filósofo contemporâneo, declarar que a universalidade deve ser colocada em causa possui efeito similar a se condenar às fogueiras das modernas inquisições acadêmico-filosóficas, em que tudo está muito bem acomodado, embora nada tenha esteja a ser respondido ou esclarecido, pois o “Universo” permite uma distribuição em que o vazio é capaz de distar tudo, tal como galáxias separadas por incomensuráveis anos-luz, completamente desconexas e estranhas entre si. Nada, aliás, é despropositado, mais ainda venenosamente e novamente aqui destilada como reafirmação cínica.

E é justamente este impositivo universal filosófico que mais conflita com a visão neocínica, que contempla não um todo, nem um absoluto, nem um relativo, mas sim uma perspetiva que encerra em si tanto uma aspiração a ser uma universalidade, mas sem deixar de considerar suas relações. O que se busca com a dialética neocínica é o Universo em perspetiva, o todo considerado como um sistema funcional e operante e a conectar tudo o que há. E isto é facilmente um alvo atrativo para ser atacado, ainda mais pelos ditos filósofos puristas e crentes nas verdades universais, imbuídos de uma poderosa força quase fundamentalista de que o todo está por aguardar ser descoberto ou composto, e caberá a eles próprios fazer tal descoberta ou composição.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. X)

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