glossário do esquema conceitual do possível serdual - oportunismo

Oportunismo

“O animal irracional, assim considerado pelos que se consideram racionais, é ilibado de suas responsabilidades, pois sua racionalidade, embora exista, não possui juízos refinados ou conhecimentos suficientes que o permitam distinguir para além do mínimo que possui – e por isso está totalmente conectado às oportunidades, apenas. Não diferencia nada para além ou aquém além delas. Se há a fome e a possibilidade se apresenta como oportunidade, para sorte dele, através de uma suculenta presa desprevenida, lá está o seu almoço. E é este o estilo da selva. E, assim, os animais que servem como alimentos para outros tratam de não estarem desprevenidos, mas sim totalmente alertas, para não serem uma oportunidade para os outros. Nem sempre conseguem, todavia, pois o oportunismo é mesmo poderoso.

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Mas, diferente dos considerados irracionais, o humano deveria ser o único responsável pelos atos que serão advindos das orientações às possibilidades, dadas suas fantasias que podem ficar descontroladas, bem como suas crenças, seus desejos, suas vontades e tudo o que lhe seja possível provocar gatilhos, ou não, para suas ações. E tais gatilhos não deveriam ser, meramente, oportunistas. E isto é crucial para percebermos, ou começarmos a perceber, a verdadeira liberdade de ação. O oportunismo é a exacerbação da própria animalidade, da obliteração das próprias capacidades racionais, a buscar apreender tudo o que lhe seja conveniente, sem considerar que isto poderá representar o prejuízo alheio, ao consumar seu oportunismo.

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Eis que todo oportunista é mais próximo de uma vida mais animalizada do que humana, a sustentar uma indiferença pela diferença, visto que estão apenas atentos às questões mais terrenas ou objetivas, acerca de sua própria situação, muitas das vezes de vulnerabilidade. Assim, os oportunistas passam a possuir um instinto mais apurado de sobrevivência, tanto pelos seus próprios conteúdos, quanto pelos meios em que estão inseridos. Perceber isto é perceber o valor que há na diferença percebida, pois, se é a diferença que leva ao movimento, é também o que leva ao fluxo de ações mais bem engendradas pelo crivo de valores e racionalidades empregadas. O oportunista se priva de tais instâncias, a prezar por sobreviver, e nada mais.

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Ainda assim, este instinto de sobrevivência do oportunista não lhe é suficiente para se proteger do resto mais racional, sem que outros possam manipulá-lo, dados seus próprios interesses previsíveis em busca das coisas mais evidentes. Um animal, faminto, expressa sempre sua fome. Assim como o que está com medo e acuado. E estes acabam por serem os mais facilmente capturados, eliminados ou escravizados, sem perceberem, pois, passam as oportunidades a lhes serem colocadas bem à frente, mas distantes o suficiente para que nunca consigam pegá-las, tal qual um coelho com uma cenoura pendurada à sua frente, a correr exaustivamente em vão atrás dela.

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É o domínio sobre as oportunidades que diferenciará o humano racional do animal irracional, mas não apenas isto. É o domínio das oportunidades que formará a verdadeira cadeia alimentar da selva humana, em que o topo, dos VIPs, representará o completo domínio de tais oportunidades ao ponto de serem estes que segurarão a haste com a cenoura, a fazerem todos correrem atrás dela, insanamente. Portanto, se não há o domínio completo por seus próprios instintos, perde-se parte de sua suposta humanidade racional, de sua capacidade volitiva. Afinal, qual o sentido prático para a racionalidade enquanto motor do progresso comum? É preciso estabelecer uma nova abordagem estrutural e conceitual entre razão e ação.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. X)

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