glossário do esquema conceitual do possível serdual - perspetivismo

Perspetivismo

Relatividade é um termo mais conhecido, mais usual, que antagoniza com a universalidade. Pois enquanto a universalidade se aplica a tudo o que há, a relatividade pressupõe que a aplicação seja apenas ao que se está a referir. Nem um, nem outro, portanto, são lá muito assertivos. O melhor termo para superar este problema criado pela linguagem, já apontado por Nietzsche, é o perspetivismo. Pois, nem é algo meramente relativo, vazio e individual, tampouco universal, pois contempla algum grau aspiracional de universalidade (portanto, sem a universalidade em si) e algum grau aspiracional de relatividade, também sem ser totalmente relativo.

O perspetivismo considera sempre um contexto, um conjunto de condições e situações que são relevantes para o conjunto considerado. E, como a universalidade é uma aspiração quase que comum, há um tanto desta aspiração coletiva, o que não quer dizer que a universalidade exista incondicionalmente, e de facto, mas não podemos negar que é um ideal que muitos pensadores buscam. Por isso, os sentidos dos termos que utilizarei serão sempre estes: uma universalidade convencionada, mas em perspetiva, ou uma relatividade conceitual, também em perspetiva, ou apenas a própria perspetiva.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

“Mas, ainda assim, os teóricos devotos desprezam isto e presumem que o que seja desconhecido tenha também uma universalidade intrínseca. O grande sonho deles seria a própria imobilidade, tal e qual, em que nada mais se alterasse qualitativamente. Pois estariam sempre certos.

Por isso, o que é tomado como desenvolvimento filosófico já emerge com uma universalidade presumida, antes mesmo de se perceber o que resultará daí. É como um atributo outorgado de um destino que todo o pensamento precisará cumprir sobre seus frutos não dados ainda, embora prometidos. E, subversivamente, o conhecimento prévio das coisas, a priori, passa a ser requisito para se atribuir a universalidade a determinadas predicações comuns, e isso deveria se dar a posteriori. Eis o erro dos pensadores não dados à humildade da perspetiva e completamente rendidos à supremacia da universalidade. Portanto, a universalidade deveria ser uma mera construção epistemológica de um conceito que é estruturado ontologicamente, mas não é assim que ela tem se dado. Se o universal deveria atuar no sentido epistemológico lato, a universalidade deveria atuar no sentido ontológico stricto.

Mas, afinal, por qual razão ficaram (e ainda ficam) os filósofos a renegarem a humildade da perspetiva por tanto tempo?

Pois, na antiguidade, o objetivo do conhecimento estava praticamente todo voltado para os objetos. Conhecer algo significava, portanto, explorar a dimensão das coisas e de suas características, e demais abordagens relevantes, como suas qualidades, e se estas faziam parte ou não de cada objeto. Buscava-se chegar a algo fundamental, essencial, substancial, pelo que poderia explicar-se todo o resto, sem recorrer aos conceitos de criações feitas pelos deuses, ou por deus, ou qualquer outro modo em que havia a necessidade da fé para fundamentar o conhecimento.

Foi preciso transcender ao objeto para um “algo” metafísico, como uma qualidade exterior e superior ao objeto, mas igualmente intrínseco a todos os objetos, seria uma dimensão que abrigava sob seus domínios uma certa essência primordial, e todos os objetos que continham um pouco desta essência estariam ligados nesta dimensão e, se isso ocorre, a discussão sai da física e adentra ao que é considerada como a metafísica, e também à ontologia, na busca da essência primeira, da causa primeira, ou do ser.

Isto ainda perdura mais fortemente na mente cristã da civilização ocidental, visto que os conceitos das “qualidades boas” estão atrelados (e “amarrados”) a certas dimensões que ofereçam as possibilidades – as “boas” obsessões ou influências, como a própria “divina e boa influência” cristã.

E, as más qualidades nunca poderiam estar ligadas às influências tidas como desejadas e aceitas, pois, as tais más influências projetam apenas todas as impossibilidades reais que nunca seriam aceitas pelos seus influenciados – pois estes nunca projetariam, obviamente, uma impossibilidade real para seus futuros prováveis ou desejáveis. Pois, impossibilidades podem ser reais, mas nunca atuais, a partir de uma leitura kantiana. Neste caso, nem reais permitam que sejam.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XIII)

“Todas as obsessões dentro de uma perspetiva do bem serão necessariamente tidas como boas, em suas naturezas funcionais ou utilitaristas. É justamente como tudo sempre se dá em cada uma das perspetivas, ao encerrarem em si apenas o que seja o bem. Se até mesmo o diabo cita as escrituras quando lhe é conveniente, o devoto do espírito universalizador também apela para a perspetiva quando percebe lhe mais ser conveniente – e instantaneamente abandona a defesa da predicação universal que antes cultuava, por não lhe ser mais conveniente em sua perspetiva. Na verdade, continua na mesma situação, na mesma perspetiva, mas assume visões diferentes sobre uma mesma coisa, a focar mais em si ao invés de focar mais no espírito.

Por tais motivos as obsessões coletivas históricas mais temidas ou combatidas, como as nazistas, fascistas, extremistas, fundamentalistas ou as facções terroristas, por exemplo, ou outras do gênero scary, agregaram nelas pessoas que dizem que apenas projetam o “bem” (que é o “mal”, para nós, que estamos de fora) como possibilidades para elas. Pois o “mal” só é visto a partir de uma perspetiva externa e também por todos os que sejam os seus alvos, por representarem ameaças travestidas como impossibilidades ao bem que elas julgam possuir.

As convictas mentes que se consideram agentes do bem mal percebem o que estão a atacar, pois atacam mais o que representa a coletividade do que a individualidade – é mesmo um processo irracional e messiânico. Pois elas pensam que destruir indistintamente tudo o que seja contrário às suas ideias seja o mesmo que fazer o bem: e por isto podem atacar o mundo, as organizações, religiões, as Ciências, as nações ou até mesmo as pessoas que considerarem como representantes do mal.

Ações doentiamente pervertidas e subvertidas, mas tais predicados só são dados por quem observa externamente à perspetiva doentia, pois para quem está dentro dela, nada disso se dá, pois cada um dos membros comprometidos em combater o mal se percebe como investido do poder ilimitado do bem, e nada o poderá parar até que realize o que julga ser o se que espera dele.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XIV)

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