glossário do esquema conceitual do possível serdual - propósito

Propósito

“…Se há um estado intencional, para além do imanente, há a transcendência. E só assim. E há, portanto, propósito.

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Também há, na imanência, a apreensão de todos os desejos realizados. Saciados na materialidade, a configurarem as sensações apreendidas, as memórias, a identidade e a própria história de vida.

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Nem toda imanência é oriunda de uma transcendência, pois pode ser dada ou tomada, quando estabelecida de acordo com as regras vigentes, naturais ou não, até mesmo no que seja a propriedade do “eu material”, que é a propriedade inalienável do próprio corpo humano, seja este corpo vivo ou morto. Nasce-se num corpo, que lhe foi “dado” e, mesmo que lhe seja tomado, pela morte, ainda será imanente ao sujeito jurídico, e ninguém poderá tê-lo para si sem autorização legal expressa, até que se desintegre, seja desintegrado ou mesmo conservado artificialmente, tudo se dará conforme os ditames prévios do falecido ou, na inexistência destes, de acordo com as leis vigentes.

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As leis, as regras, os costumes são imanentes e se referem à imanência do sujeito: à sua corporalidade, prioritariamente. Mas, enquanto se vive, busca-se ultrapassar a própria imanência corpórea, e às regras, e a tudo o mais, tal qual aquele que detém uma imagem de um santo em busca de um milagre, quando um milagre é uma ultrapassagem das limitações das regras naturais ou lógicas, das probabilidades e da normalidade – da mesma forma a ultrapassagem da limitação existencial do corpo ocorre intencionalmente, pois sempre se quer transcender à própria morte ou à própria finitude, conforme cada perspetiva. Se há a ameaça percebida da morte, ou do encontro com a finitude, isso leva a um movimento para encontrar possibilidades para superar estas ameaças que serão irremediavelmente imanentes, cedo ou tarde. E assim também ocorre para todas as outras ameaças.

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O transcendente, portanto, é também, ou talvez principalmente, uma criação mental humana voltada para sua própria superação da finitude e da morte. É um seu propósito, talvez o mais profundo. E, por isso, ou a consciência projeta a individualidade para a imortalidade (da oportunidade para uma possibilidade), mais improvável de ocorrer, ou busca trazer a imortalidade para a individualidade (da possibilidade para uma oportunidade), o mais comum. Mas sempre a primeira ultrapassagem passa a ser a superação dos próprios limites conhecidos, que são dados pela própria biologia do corpo.

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Não há inocência na transcendência, e nem despropósito. Há intencionalidade, muito propósito e uma carga elevada de conteúdo mental acerca dela. Ela existe, não como coisa, necessariamente, mas como intenção. Por isso, tem-se consciência dela, mas não necessariamente o conhecimento, tal como Brentano nos conceituou.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. X)

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