glossário do esquema conceitual do possível serdual - relacionamentos

Relacionamentos

“Podemos perceber, ao menos pelo aspeto das forças dos desejos, que os relacionamentos se estabelecem pelos entrecruzamentos dos desejos do desejante pelo desejável; e pelo desejável, quando assume igualmente um desejo pelo desejante e, assim, é ele próprio um desejante. Os exemplos dos seguidores com os influencers, como já citado, mostram claramente estas relações. Este ciclo fechado em que ambos desejam e são desejados são a tônica dos relacionamentos que, ao atingir a dimensão erótico-sexual configura-se o que pode ser percebido como a paixão, o delírio entre desejantes que se realizam a serem desejados, mutuamente, até que uma das partes mude seu padrão de desejos e, neste caso, para este, a paixão deixa de existir.

Mas, o que é desejado, nos relacionamentos, é tanto o “ser” quanto o “ter”. Pois primeiro emerge a dimensão do “ser” e, caso seja insuficiente, passa a ser suficiente a dimensão do “ter”. O “ser” é espacial e possui uma duração temporal maior, é mais profundo e intimista, ao conectar as subjetividades. O “ter” é temporal e possui uma limitada duração espacial, é mais superficial e ligado às sensações, ao conectar as objetividades.

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Desta forma, as relações entre pessoas podem se dar por diferentes formas, como por exemplo alguém que deseja ser desejado pelo que é, enquanto o outro deseje ser desejado pelo que tem. Não há conflitos, e algumas pessoas confundem e discriminam muitas das relações, como por exemplo, entre uma pessoa mais velha (a representar a falta de atrativos físicos) e outra bem mais nova (o contrário).

A pessoa mais velha pode possuir “sucesso” (deter as possibilidades): prestígio, poder e, talvez, alguns milhões de Euros guardados em sua conta bancária. Essa pessoa, “é” e “tem”, para muitas outras que a conhece. Mas, também, pode estar na velhice, a enfrentar a decrepitude do corpo que todos tem ou terão, e que ao chegar lá enfrentarão, pelo desgaste natural das articulações, falta de colágeno ou pela implacável ação da gravidade sobre as partes mais suscetíveis, que a tudo faz cair, quando solto no espaço, ou tudo isso ao mesmo tempo.

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E, a outra pessoa dessa relação, por seu jovem e estar no auge da vida, com uma pele exuberante e todos os atributos que um lindo corpo é suposto possuir. O que une estas pessoas em um relacionamento? As fantasias, sempre elas, atreladas às possibilidades, pois a pessoa idosa deseja ser desejado pelo que é, e também pelo que tem, pois sabe exatamente o que está a oferecer e o que está a buscar. Enquanto a pessoa mais jovem, poderá até mesmo desejar o que a outra tem, mas talvez se interesse pelo que também seja, por algum tipo de ligação maternal ou paternal.

Não há verdades absolutas, nem universais, embora os relacionamentos objetivos, com base no que as pessoas possuam, tendem a se desgastarem mais rapidamente, por motivos compreensíveis. E, depois, de garantido acesso às possibilidades, pode haver algum grau de farsa se o relacionamento continuar, ao menos para uma das partes. Por isso, os mais providos financeiramente celebram seus contratos pré-nupciais, se estiverem de plena posse de suas capacidades racionais, pois compreendem exatamente com o que estão a lidar. E não é uma crítica o que faço aqui, mas apenas uma análise fria sobre o que são os relacionamentos, nesta perspetiva e a grosso modo, sob a ótica das fantasias e das possibilidades.”

“Por isso é importante perceber que as experiências vividas nos diversos relacionamentos, compartilhadas, produzem excessivos conteúdos, para além das formas estabelecidas, e que farão com que os relacionamentos tomem rumos próprios e imprevisíveis. Não se pode definir o que virá, de cada relacionamento, independentemente de como ele foi iniciado. E é isso que dá o verdadeiro sabor da vida.

Assim, relacionamentos formados por “interesse” poderá se transformar em relacionamentos duradouros, com sentimentos de amor, tais quais os filmes românticos de Hollywood que todos cultuam ou, inversamente, relacionamentos iniciados por imensas afinidades e interesses sentimentais poderão se transformarem em objetivos e meramente funcionais, ou por vezes em surpreendentes tragédias. A vida na estrutura é sempre dinâmica e, por isso, o que une em relacionamento se transforma e, até mesmo, se reproduz, e é isso que torna os relacionamentos tão complexos e imprevisíveis.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. IX)

“Mas, se toda relação é uma estrutura, então, analisemos umas das mais simples destas relações diretas (como o exemplo de um casal) em que duas pessoas se afinizam por interesses nas possibilidades, nas fantasias, a oscilarem entre o “ser” e o “ter”, entre o dar e o receber, na troca que estabelecem como base de suas relações. O que ocorre é que, estabelecida a relação, haverá um acúmulo e sobreposição de conteúdos diversos, oriundos da convivência, das experiências, das trocas, das expectativas, surpresas, atitudes e muito mais.

A estrutura estabelece-se, historicamente, a tomar uma dimensão como se passasse a própria relação ser um ente autônomo em relação a cada um que compõe o que chamamos ser o casal. Haverá o “um”, o “outro”, e a “relação”. E, tudo se mesclará nesta estrutura, ou relacionamento, para muito além do que foi o estabelecido inicialmente.

Eis que um casamento por mero “interesse”, ou que seja arranjado, como em muitas culturas, sem que haja sentimentos esperados para justificar o matrimônio, que seja por uma ou ambas as partes, pode resultar em algo completamente diferente, como o amor incondicional e verdadeiro que poderá surgir, em que o centro do interesse de cada um passe de si para o outro e, por fim, passe para o próprio relacionamento, que terá melhor consistência e uma maior durabilidade, prováveis de serem assim. Tudo pode acontecer pela imprevisibilidade do desenrolar das relações.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. XII)

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