glossário do esquema conceitual do possível serdual - Subversões Estruturais

Subversões Estruturais

“No primeiro ano de seu governo, um Vladimir Putin (1952 – ) ainda inseguro e titubeante concedeu uma entrevista[1] que reclamava justamente disto, do prazer de ser um desconhecido e poder fazer tudo o que lhe calhasse fazer, inclusive tomar uma cerveja anonimamente em um bar qualquer. São possibilidades que deixaram de existir, para ele, ainda que tolas, se assim percebermos o que veio depois de tais privações – são parte do que chamamos de subversões estruturais. Mas ele percebia que eram opções que não mais tinha, e nem teria, pois tinha consciência delas já naquela altura. Em contrapartida, se passasse a considerá-las existentes, teriam cada uma delas uma infinidade de ameaças atreladas. A “conta” não fecha, e sempre será a ameaça que emergirá mais forte de tais restrições.

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Outras possibilidades, contudo, estão a se materializar atualmente, pelas suas mãos, talvez bem na linha hegeliana, ou não, a ser ele próprio a manifestação da antítese contemporânea, ao menos para as nações ocidentais presentes na OTAN, pelo caminho que ele trilhou para ocupar a posição em que foi possível colocar a Rússia onde está, atualmente, nos jogos geopolíticos e nos conflitos armados: guerra e poder. A história, no futuro, dirá com exatidão acerca dos factos, mas sempre conforme quem estiver a contá-la, todavia.

E é também por esta possibilidade de se ter a primazia para contar a história que desejar que é pertinente somente aos “vencedores”, que faz com que as nações se movimentem, afinal, sejam para conquistarem novos mercados, sejam para tomarem-nos à força. Tudo, ao final, cinicamente, a despeito de Žižek, se reduz em sexo, dinheiro e poder. Ou tudo junto, em uma pretensão de criar regras comportamentais geopolíticas na orgia dos mercados globais, através do embate do neoliberalismo ainda vigente e um novo capitalismo que está a emergir como arma letal e é uma grande aposta das nações orientais: o capitalismo de estado, em que as organizações políticas perceberam bem que o poder é maior para os que tem o capital, e não apenas as ogivas – e isto em si já são subversões estruturais.

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O capitalismo de estado está para o neoliberalismo assim como as milícias estão para o tráfico de drogas nas favelas cariocas. São igualmente organizações criminosas, mas que pensam que não são consideradas assim, e que assumem o controle do poder financeiro e logístico de um país ou de uma favela. Operam da mesma maneira, corruptamente. Mas, inegavelmente, consolidam o poder e fecham as vulnerabilidades de forma tão eficaz que até assusta pensar contra eles, intimamente, visto que todos os seus inimigos são rapidamente eliminados. Tudo o que há na dança geopolítica das nações, ao final, para além das possibilidades, são obviamente pelos mercados. E não é ingênuo pensar assim.

A riqueza é uma das mais básicas materializações das possibilidades, pois é o meio de se atingir o que se deseja geopoliticamente, uma forma de relações internacionais que se desenvolve entre as mais ricas nações, como uma dança em que os mais desejosos pares se formam, enquanto outros se desafiam por algo escasso. Quando materializada a riqueza, obtém-se o ingresso para a dança geopolítica e então passa-se ao desejo de se obter e de se consolidar no poder, a maior das materializações. São muitas ou infinitas as materializações buscadas como podemos perceber, atualmente, pelos passos que grandes nações como a China esteve e está a fazer, principalmente quando muitas outras estão a se consolidarem ou mesmo manterem-se no topo.(em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. V)

“Na vida cotidiana, como exemplo ilustrativo, há uma teoria defendida, ao menos por mim, de que os melhores supermercados são aqueles que apenas oferecem uma única marca para cada produto, e com nenhuma ou, no máximo duas variações de opções de tamanho e embalagens, que é muito melhor do que aqueles hipermercados que oferecem dezenas de marcas e cada uma delas com dezenas de variações para os mesmos produtos. É de endoidecer qualquer um.

Cá em Portugal, há o supermercado Mercadona, de uma rede espanhola muito popular por lá, que em tese reproduz uma experiência tal qual na velha Berlim Oriental, se esta tivesse dado certo e nada faltasse nas prateleiras, lá pelo auge da Guerra Fria. No Mercadona há, em relação a cada item da lista de compra, duas opções apenas para se deliberar: ou se compra, ou não se compra. Fazer compras lá é como no topo da estrutura, em que tudo é muito fácil.

Mas, se está no mercado a procurar um produto que já está na lista, então já decidiu que precisa dele, e o comprará, e então será sempre um lindo sim para tudo o que estiver na sua lista de compra, se possuir uma. Sem dor, nem desgastes, e quase terapêutico: ao ver o produto, basta colocá-lo na cesta e depois pagar por ele. Apenas isso, e nada mais.

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Ao se adentrar em um destes outros excessivos megamercados, já ao estilo de Berlim Ocidental, capitalista até o último fio de cabelo neoliberal, em que as opções são incontáveis, e pretender comprar algo tão banal quanto um molho de tomate, demoram-se minutos de longa e dolorosa ponderação, e que poderá ser muito pior caso não se conheça todas as marcas ou variações do produto que se precisa comprar. Fatiga-se por algo que não deveria ocupar mais do que poucos segundos. Apenas tomates amassados, condimentados e cozidos até um ponto consistente e cremoso, metidos numa embalagem esterilizada e etiquetada, e nada mais do que isso! É só disso que alguém precisa ao procurar molho de tomate!

Mas, por que haver tanta dificuldade apenas para uma simples necessidade coletora em uma gôndola urbana? Faz parecer que ainda somos caçadores, a caçarmos pelos corredores e gôndolas os produtos mais performáticos, como se estivessem em movimento atrás deles, que estão a se esconderem de nós. Tudo seria mais rápido se fôssemos lá apenas para colhê-los. O capitalismo subverteu as mais profundas noções evolutivas da natureza e fez surgir as principais das subversões estruturais.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. VII)


Notas: subversões estruturais

[1] As Testemunhas de Putin, 2018, de Vitaly Mansky. Documentário em que o realizador revela as verdadeiras causas e consequências da “Operação Sucessor”, o esquema político que levou Vladimir Putin ao poder. Um documento de extrema atualidade e urgência, segundo a crítica. Acedido em 20/06/2022 no link https://www.imdb.com/title/tt8647924/ e visto em https://www.filmin.pt/filme/as-testemunhas-de-putin.

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