glossário do esquema conceitual do possível serdual - transcendência

Transcendência

“A transcendência é a manifestação intencional que emerge da busca pelas possibilidades. É uma resultante, uma força derivada de uma assunção das necessidades por algo ou alguém que esteja além da imanência do sujeito. As necessidades são relativas à ultrapassagem de uma condição dada, limitada e resistente que separa o sujeito de seu objetivo, alterando a relação entre estes e dotando o sujeito com capacidades transcendentais, que é o mesmo que dizer que o sujeito se desfaz intencionalmente, a deixar de ser imanente para passar a ser projetado para além de si, pelas suas próprias capacidades e intencionalidades rumo às possibilidades necessárias para ele.

E as possibilidades são a assunção consciente da falta, relevantes ou não, oriundas dos objetivos ou subjetivos de desejos não apreendidos. A transcendência, portanto, é um estado intencional com base na crença da diferença e no desejo da supressão desta, que leva à ação e à busca do poder. A transcendência, portanto, é o motor do progresso, e da vida como a conhecemos.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. X)

Portanto, tudo o que há para fora do indivíduo, seja pela falta de conteúdos mentais, pela incompletude dos conteúdos, ou pela incompreensão ou desconhecimento de tudo o que não consegue conhecer, do que pode haver, são transcendentes, ao menos como estaremos a conceituar, doravante.

Por isso, todas as transcendências dadas a partir do que se conhece acerca de si são também, necessariamente, possibilidades, pois possuem, intrinsecamente, a assunção das diferenças entre o observador e o observado, entre si e o outro, entre o que se é imanentemente e o que se pode ser transcendentemente. A transcendência é a possibilidade de se ampliar ou expandir a própria imanência. Pois, afinal, ninguém quer transcender e deixar de ser imanente. Ninguém quer morrer para conhecer o deus ou o messias em que acredita. Não mesmo. E a transcendência assume um importante papel motriz nas ações humanas, orientadas então em busca dela.

Aristóteles, na sua hercúlea tentativa para achar a causa primeira de todas as coisas, considerou que esta fosse um motor imóvel, eterno e que existe em puro ato, sem nenhuma potência pois está todo realizado, em perfeição, completamente autossuficiente. Assim, é este motor imóvel que indiretamente, e passivamente, move, como causa primeira, tudo o mais que há, para aquém dele, e que por estar aquém não está em puro ato e por isso tem em si alguma potência de ser.

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Se há a potência, não há a completude, há uma deficiência com a qual a natureza trabalha para anular. A mente humana percebe isto e assumiu este esforço de ser ela mesma um motor imóvel. E a potência se dirigirá ao ato a partir do trabalho agregado a ela própria, como elemento transformador.  Percebemos isso no exemplo aristotélico do artesão, que é alguém que possibilita a passagem da potência ao ato, da madeira que tem potência para uma mesa que está em ato. E é capaz de fazê-lo por algum propósito prévio que se refere a si próprio, que foi tornar-se artesão, e que para isso precisou ir de alguém sem habilidade para alguém com habilidades, sair de um potencial para um estado em ato.

Muitos pensam que agir é algo isolado, mas na verdade o agir é uma busca para se atingir um estado, um ato, sempre. E assim, todo trabalho é uma ação, e toda ação é uma transformação. E tudo o mais, tudo o que carrega consigo meios para agregar à capacidade humana – capaz de serem gatilhos para se agir – passa a se mover em direção a este puro estado de pleno ato, com a intenção de eliminar suas faltas, ou melhor, consumir todas as suas potencialidades, até exauri-las por completo. Se há potência, ainda há a diferença, e ainda haverá a falta.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. VIII)

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