glossário do esquema conceitual do possível serdual - valores

Valores

“E o que surge desta certeza sobre a total responsabilidade da individualidade, supostamente autônoma, para ser a única responsável pelas suas deliberações é que sempre se possui uma escalas de valores para avaliar as escolhas que precisam ser feitas.

Esta escala é uma ferramenta, possui uma função que é resolver sobre suas deliberações. E os valores da escala são os conceitos simples e sempre binários, que emergem da dimensão do que todos consideram como seus juízos próprios: bom ou mau, certo ou errado, legal ou ilegal, suficiente ou insuficiente, etc.

Vem mesmo daí a origem da certeza de que toda razão para agir sai das instâncias individuais, e apenas desta. Pois os critérios do que seja bom ou mau, certo ou errado, etc., estão mesmo dentro de cada um, e profundamente enraizados.

E se alguém decide, num ato de urgência, ir contra a escala de valores, como por exemplo ao atentar contra a vida de outra pessoa, agirá desta forma mesmo ajuizando que seja “errada” tal deliberação, mas deliberará pelo que seja necessário fazer, pelo que se mostra mais urgente e esperado, ainda mais se for para defender alguém que ama, ou mesmo a si, em níveis nos quais a sua perspetiva fará de tudo para manter as coisas como são e estão, para uma permanência do status quo.

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Estes valores destoantes (como «é errado matar» ou «é necessário matar») são profundos e próprios de cada indivíduo, por vezes opostos e conflitivos, e estão hierarquicamente sobrepostos de forma que, o que for necessário ser feito será feito, seja certo ou errado, por exemplo. Por isso, parece-lhe que não haja a necessidade de algo externo estabelecer o que precisa ser feito por ele, no primeiro momento de sua análise, que fica dependente apenas de seus próprios juízos sobre a urgência e a exigência da situação.

Assim, o sujeito crê que cada um saiba exatamente o que é para ser feito em suas ações, seja o certo, o errado, ou o necessário e tudo o mais, de acordo com sua própria escala de valores íntimos. E há até muita coerência nisto. A escala está aí, e cada um sabe da sua, e a conhece muito bem, desde sempre. Não há dúvidas acerca disso.

O que falta descobrir, afinal, é a origem destes valores íntimos, de como foram apreendidos e formados como seus. Se isto for mesmo por critérios da própria capacidade de autonomia do indivíduo, não será preciso discutir mais sobre este tema. Mas, se não foi, é preciso perceber como pôde o indivíduo adotar tais valores alheios a si como seus. E esta questão será exaustivamente tratada ao abordarmos a moral e a ética, pois carece de alguns cuidados para que se perceba a extensão dos desdobramentos que surgirão.” (em O Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida, Cap. VII)

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