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Ação-Mente-Linguagem Filosóficos

Hume, o empirismo, a subjetividade e a intersubjetividade

Abstract

A proposta deste trabalho é, antes de tudo, algo que pretende ser tão agradável como a própria leitura e compreensão do legado filosófico de David Hume (1711-1776).

E por isso será uma espécie de trânsito pelas abordagens, de forma livre e objetiva, dada a limitação de páginas, acerca dos conceitos de empirismo e da subjetividade, do sujeito, e também da intersubjetividade (a resgatar conceitualmente em seus escritos, principalmente acerca da moral, visto que é termo não utilizado por Hume), enquanto sujeito que se relaciona e que pode construir diferentes instâncias empíricas, em relacionamentos e comunidades.

Para tanto, é importante a contribuição de alguns de seus comentadores, como Gilles Deleuze (1925-1995) acerca de sua profunda análise (com a desejada parcialidade e genialidade de Deleuze) da obra de Hume, e também da visão em análise contemporânea, com viés não só filosófico idealista, mas também psicanalítico, de Slavoj Žižek (1949-) acerca das significações sobre sujeitos enquanto sociais.

Palavras-chave

Empirismo, ceticismo, subjetividade, intersubjetividade, epistemologia, ética;

Introdução

A profundidade da obra de David Hume está instanciada em diversas abordagens acerca do conhecimento, da moral, da estética e que outras questões que se mostram integradas ao empirismo cético que o referencia.

A questão, em si, a ser tratada neste trabalho é a abrangência da transcendência do sujeito, no processo empírico, que se obriga a ultrapassar a si mesmo, mas não só. Além desta auto ultrapassagem, desta transcendência, há também o que Gilles Deleuze definiu como o processo reflexivo, mas não só. Por qual razão o duplo uso da expressão: “mas não só”?

Pois nem a transcendência do sujeito nem sua autorreflexão podem ser consideradas suficientes para uma completa abordagem das questões morais (quando das ações e relacionamentos humanos), e mesmo acerca da epistemologia, na obra de Hume. Há algo mais a ser considerado em sua obra, tal como um resgate de algo disponível nas entrelinhas, que não contradiz ou anula em nada o que Hume nos legou, mas que sim dá um significado maior a partir da releitura de sua obra a partir de uma hermenêutica contemporânea, para além de uma mera exegese limitada a seu tempo, acerca de sua obra.

A obra de Hume não só permite a tal ousadia, mas também, em seu espírito instigador, convida-nos a ampliar o conhecimento de um tema que embora discreto, seja central em sua fundamentação, para além do empirismo: a subjetividade e suas derivações.

E, a partir desta subjetividade, abordarei a questão da intersubjetividade.

O Empirismo

O sujeito empírico é, antes de tudo, o sujeito crente. E tal crença é, todavia, algo transcendental ao considerar sua própria condição gnosiológica.

A configuração de um input, a partir de um dado que é percecionado pelo sujeito, em um processo que produzirá uma impressão, em sua fundamentação epistemológica e derivará em uma ideia, há um conjunto de significações subjetivas, entre juízos, sentimentos e emoções inerentes a este processo e difíceis de serem separados de forma autônoma, em limites indistintos. Tudo é uma mescla, um conjunto em que resulta uma significação na qual as partes não se mostram isoladamente. Mas, neste ponto, não é este o objetivo a ser tratado ou discutido.

O que está em causa é justamente a capacidade, ou o pendão, do sujeito para a crença, como uma necessária componente para seu processo cognitivo e relacional com o mundo interior e exterior. A crença é o ato epistemológico do sujeito, o produto do processo próprio do conhecer e do interagir, do mover-se seja para saciar suas necessidades básicas de sobrevivência, seja para atingir o mais alto nível de exercício da própria humanidade. A crença é a redenção do sujeito enquanto solipsista para uma comunhão com o mundo interior e exterior. Franz Brentano (1838-1917) considerou que a consciência independe da linguagem, assim como a consciência da própria consciência. E como se pode ter uma autoconsciência sem crer nela?

Há, contudo, uma necessidade essencial involuntária e também uma certa predisposição voluntária do homem para crer. E, certamente por isto, Hume parte para defender uma instância de crença cética, com o objetivo de mediar, ajustar, equilibrar as capacidades de melhor conexão com a realidade, a separar o que é essencial do que é uma busca do desejo de crer, pelo próprio desejo em si. O sujeito crente, sem qualquer grau de ceticismo enquanto ser puramente “desejante”, tenderá ao fundamentalismo, ao excesso, ao entorpecer seus juízos.

O fundamentalista é aquele que “sabe” diretamente, além do processo epistemológico, pois acredita cegamente, ao abrir mão de seus juízos, em algo que lhe é transcendental, como que pudesse beber diretamente o conhecimento de alguma fonte superior e exterior a si, tal qual uma revelação sublime, alheia a todo o processo racional que possui e abre mão de exercer sua própria intelectualidade, que o define humano, por algum tipo de benefício que acredita ter com tal fundamentalismo. Eis a fragilidade humana que Hume tão acertadamente considerou.

O sujeito, enquanto instintivo, sentimental e racional se divide e se compõe conforme o meio ao qual está inserido. É muito mais previsível que uma criança tenderá ao fundamentalismo em uma sociedade fundamentalista do que em uma sociedade democrática, multifacetada culturalmente e ideologicamente. As crenças levam, segundo Hume, aos hábitos, o que atualmente as Ciências Cognitivas consideram uma espécie de condicionamento comportamental.

Mas a crença não é nem o final de um processo, tampouco o início de outro. Não é possível criar um modelo estruturalista comportamental prático, a separar causas e efeitos, pois os comportamentos humanos são complexos e passivos, ativos ou mesmo reativos a diversos fatores internos e externos.

Crer é algo que está profundamente no processo de como o sujeito se identifica, se mostra e se relaciona. Como lida com as associações de ideias em sua mente, como percebe coisas como semelhantes, como entende sobre sua localização espaço temporal e, por fim, quais suas relações construtivas de causalidade, nem sempre aceitas como universais.

O que não podemos deixar de atentar é que o sujeito só é transcendental pelas próprias crenças que possui e pela necessidade de inferir significado a algo que está além de si mesmo, em seu processo epistemológico. A associação entre crença e simpatia é verdadeira, embora não seja possível determinar qual, de facto, surge primeiro, pois é uma construção progressiva entre as mesmas, que levará o sujeito a ser moral e a praticar o ato moral, todavia.

A Subjetividade

Se o sujeito empírico é aquele que crê, então será subjetivo quando estiver a criar, ou melhor, a inventar. Inventar: “verbo transitivo direto: elaborar mentalmente; urdir, arquitetar” nos dá a inicial dimensão lexicográfica para perceber este conceito.

Ao transcender a si, pela crença, o sujeito se reflete ao ir além de sua parcialidade, do seu egoísmo, rumo a uma conexão com o universal, com o múltiplo ou com o uno, ou qualquer coisa que lhe é externa. Transgredir à própria parcialidade requer habilidades nas quais as significações íntimas precisam se projetar ao mundo exterior, estabelecer conexões, adequar tais significações ao conjunto externo como que a aferir e a ajustar-se. Deste mundo externo fazem parte outros sujeitos a comporem um espaço em que as crenças individuais se atraem ou se repelem. E, assim, criam ambientes afins ou repulsivos ao sujeito que busca a interação.

Se o homem é um sujeito social, aristotelicamente, então é preciso perceber que esta sociedade não lhe é alheia ou independente, mas sim um ente em que todos os membros se fazem participar através de um determinado papel político, seja ativo ou passivo, mas principalmente pela comunhão de crenças comuns, em suas diversas instâncias. E quais são as instâncias? No mínimo[1], serão instâncias familiares[2].

É o momento de observar a sociedade como instâncias igualmente parciais, e não somente a totalidade. Assim, tais instâncias são formadas e sustentadas por crenças comuns de determinados sujeitos. Perceba, por exemplo, uma nação (ou comunidade, ou família) em que haja uma obrigatoriedade de participação involuntária, pois o indivíduo que nasce como cidadão desta estará inserido obrigatoriamente nela, enquanto necessário, e pelo desenvolvimento de seus juízos e sentimentos absorverá muitas de suas crenças e rejeitará outras, nem sempre possíveis de expressar abertamente sua inconformidade.

Nesta macro instância ele poderá ser menos parcial e por isso buscará exercer mais desta parcialidade ao participar de outras sociedades, ainda que inseridas nesta macro sociedade, em que sua parcialidade seja mais declarável, mais compartilhável e interativa. Quanto mais aderente às instâncias, mais significa que sua parcialidade seja igualada à universalidade, como se o sujeito representasse a ideologia em sua máxima expressão, em um estado fundamentalista.

É por isso que as ideologias, resultantes destas múltiplas e excessivas organizações sociais, se fazem presentes. Assim, um indivíduo se realiza ao participar de uma nação, de uma religião, de uma organização política, de uma ou mais causas, de algumas formas que a sua parcialidade seja saciada com o exercício da ideologia vigente em conjunto com sua capacidade de inventar, de refletir a si mesmo nesta entidade superior a si.

A dupla potência da subjetividade é tanto crer quanto inventar, pois leva o indivíduo a presumir, em si e nestas instâncias exteriores, poderes secretos em que pode alcançar, a transcender a si mesmo e atingir um grau maior de abstração. Da criação vem a normatização, os limites em que tais possibilidades parciais se chocam com a universalidade instanciada. As ideologias não são um lugar necessariamente harmônico e democrático, pois os membros ainda possuem algo de particular, algo de não aderente, que o incomoda e o distingue.

O processo de invenção do sujeito leva à distinção clara de poderes e à constituição destas universalidades, ou totalidades, que são funcionais pelos seus componentes, ou mesmo não funcionais, sem que o conhecimento epistemológico e racional se faça presente. Da invenção surgem o que é bom ou não, o que é moral ou não. Isso explica os movimentos de nobres causas, das políticas que lutam por justiça e igualdade para minorias, pelo combate às desigualdades econômicas ou o que o valha, mas também explica o fundamentalismo, o terrorismo, as organizações criminosas. Para o bem ou para o mal, a subjetividade sempre se faz presente e cria algo para além do individual.

Cerca de duzentos anos após Hume escrever sobre tal subjetividade, Jacques Lacan (1901-1981) resgata o conceito e aprofunda-o, ao considerar que a própria subjetividade criativa do homem, quando reificada, simbolizada, exteriorizada, estabelece vínculos entre sujeitos que não somente conectam-se, mas que criam e sustentam uma entidade ideológica, superior e transcendental, assentada nas crenças individuais comuns na qual passa a direcionar suas próprias vidas, assumindo um papel central de determinação para as crenças, com viés quase divino, ou totalmente divino, em um processo de retroalimentação contínuo deste simbolismo. Da subjetividade do sujeito origina-se esta intersubjetividade permissiva e igualmente criadora.

A Intersubjetividade

A simpatia, na Filosofia Moral de Hume, assume um papel central em que todas as necessidades do sujeito convergem para ela e que, a partir dela, o sujeito se realiza socialmente[3] e atinge níveis superiores de satisfação. A simpatia é uma relação de intersubjetividade, de conexão em que os subjetivos pessoais se conectam e interagem.

Esta simpatia leva o sujeito a abrir mão de sua particularidade e de buscar o prazer mais nobre e elevado do bem social, ao se afirmar como membro de uma comunidade e se destacar, recebe também um reconhecimento que retroalimenta a si e suas necessidades egoísticas de particularidades. Uma contradição[4]? Quanto mais universal, mais particular será, pois ampliará sua própria individuação e capacidade de atender às leis morais (ou imorais, tal qual o copo meio cheio ou meio vazio) da coletividade. Mas, nunca, será amoral, pois toda intersubjetividade é necessariamente moral.

Conclusão

Para além do que Hume considerou[5], as instâncias simpáticas da intersubjetividade possuem algum grau de reificação, de um espaço simbólico com vida própria e uma ética específica compartilhada e sustentada radicalmente pelos seus membros. Não há, portanto, a necessidade de uma liderança formal, ou um governo, para que esta sociedade seja gerida.

Há uma espécie de autogestão superior em que todos os sujeitos se mostram cumpridores e defensores naturalmente. É importante perceber que uma família, uma comunidade ou uma nação só existe, de facto, enquanto os sujeitos lá estiverem. Quantas culturas e idiomas, que antes eram exatamente esta intersubjetividade instanciada, estão atualmente mortas, sem existir?

Os graus de nacionalismo, se enraizados profundamente, levam ao sentido de patriotismo e a aversão ao alien (estrangeiro) de sua própria identidade. Mas, ainda dentro de sua comunidade concidadã, há outras instâncias, minoritárias, que levam a uma atitude semelhante à xenofobia, ou à exaltação. Os sujeitos não apenas são cocriadores desta subjetividade como também a defendem tal como fosse sua própria vida, e muitas das vezes até abrem mão da vida em troca de uma afirmação profundamente fundamentalista.

Portanto, David Hume está atualíssimo com a capacidade de o sujeito inferir, crer, inventar e usar dos artifícios para atingir um estado epistemológico e moral em que sua experimentação com o mundo interior e exterior leva a uma subjetividade natural e a uma intersubjetividade intencional, reflexiva e autoafirmativa. Assim, podemos perceber melhor e acertadamente a nossa dinâmica social e as possibilidades de intervenções em prol de uma melhoria comum.

Bibliografia

Deleuze, Gilles. Empirismo e Subjetividade – Ensaio Sobre a Natureza Humana Segundo Hume, 1953. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. Editora 34. São Paulo, SP, 2006.

Hume, David:

Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. 2003. São Paulo, Editora Unesp.

Obras sobre Religião. Traduções de Pedro Galvão e Francisco Marreiros. Introdução e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro. 2005. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

Tratado da Natureza Humana. Tradução de Serafim da Silva Fontes. Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro. 4.a Edição. 2016. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

Žižek, Slavoj (org). Um mapa da Ideologia. 1ª Edição. 4ª Reimpressão. 2010. Rio de Janeiro, RJ. Editora Contraponto.

Ainslie, Donald C. (ed). The Cambridge Companion to Hume’s Treatise. 2015. Londres. Cambridge University Press.


Notas

[1] “Quando a tendência natural das suas paixões a leva a ser prestável e útil na sua esfera, aprovamos o seu carácter e amamos a sua pessoa por simpatia pelos sentimentos das pessoas que estão em ligação mais particular com ela. Somos prontamente obrigados a esquecer o nosso próprio interesse nos juízos deste género, em razão das contradições perpétuas que encontramos na sociedade e na conversação das pessoas que não estão colocadas na mesma situação e não têm o mesmo interesse que nós.” (Hume, 2016, Página 692)

[2] Hume, assertivamente, aborda a questão do estado de natureza, a considerar uma análise a partir da propriedade privada, como situação de justiça ou injustiça, mas de forma não restrita a justificar as conexões da intersubjetividade existente, embora supostamente conflituosa, nas instâncias familiares em que muitos filósofos paradisiacamente romantizam, na pré-constituição ao Estado de Direito: “Farei apenas uma observação antes de deixar este assunto: embora afirme que, no estado de natureza, ou o estado imaginário que precedeu a sociedade, não haja justiça nem injustiça, não afirmo que fosse permitido, neste estado, violar a propriedade dos outros. Apenas sustento que não havia nada que se parecesse com a propriedade e por conseguinte não podia haver nada que se parecesse com a justiça ou a injustiça.” (Hume, 2016, Página 577)

[3] “É apenas através da sociedade que ele é capaz de suprir estas deficiências e elevar-se à igualdade com as outras criaturas e mesmo adquirir superioridade sobre elas. A sociedade compensa todas as suas enfermidades; e, ainda que nesta situação as suas necessidades se multipliquem a todo o instante, essas capacidades são ainda aumentadas e deixam-no sob todos os aspetos mais satisfeito e feliz do que poderia jamais tornar-se no seu estado de selvajaria e de solidão.” (Hume, 2016. Página 560)

[4] “Todavia, se a simpatia é como o egoísmo, que importância tem a observação de Hume segundo a qual o homem não é egoísta, mas simpatizante? De facto, embora a sociedade encontre tanto obstáculo na simpatia quanto no mais puro egoísmo, o que, entretanto, e absolutamente muda é o sentido, a própria estrutura da sociedade, conforme seja ela considerada a partir do egoísmo ou da simpatia.” (Deleuze, 2006. Página 23)

[5] “O estado de sociedade sem governo é um dos estados mais naturais do homem e deve persistir com a reunião de numerosas famílias e muito tempo após a primeira geração.”

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