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Ação-Mente-Linguagem Filosóficos

Leibniz através de uma hermenêutica lacaniana

Abstract

A proposta deste artigo é uma releitura focada na epistemologia, ontologia e, por que não, ética a partir dos escritos conhecidos de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), a partir de sua teoria estabelecida na Monadologia, mas não só, e a busca da compreensão acerca do conceito de “possibilidade” na conceção do “melhor dos mundos possíveis”.

Este artigo tem por objetivo explorar uma conexão do legado filosófico de Leibniz com a contemporaneidade, ou mesmo a pós-modernidade, talvez não em buscas de respostas definitivas, se existirem, mas sim com o desejo de elaborar novas questões, com diferentes “pontos de vistas”, no melhor estilo leibniziano.

Como ponto de partida de uma hermenêutica contemporânea, a escolha central foi pelas extrações filosóficas das teorias acerca da realidade, do espaço simbólico e da intersubjetividade de Jacques Lacan (1901-1981).

Palavras-chave

Ontologia, epistemologia, ética, realidade, intencionalidade;

Introdução

Foi noticiado[1] que uma mulher adulta, em gozo de suas plenas capacidades físicas e intelectuais, que estava de forma voluntária a morar isoladamente em uma barraca de campismo nas montanhas de Utah, nos Estados Unidos. Enquanto a vida lhe corria tranquila, apraz entre os riachos, gramíneas e flores da primavera que chegam neste período do ano, foi encontrada, “resgatada” e encaminhada a um hospital e, portanto, reintegrada à sociedade, ou seja, ao mundo em que ela decidiu se afastar. Uma cena tão surreal que poderia ser perfeitamente inserida em algum filme de Luis Buñuel (1900-1983), talvez com a trilha sonora de Ritt der Walküren, de Richard Wagner (1813-1883).

Tal facto contemporâneo nos remete às questões acerca do livre-arbítrio, das possibilidades verdadeiras de escolhas, além de questões éticas e também acerca do próprio conceito de realidade. E é a partir desta reflexão que iniciarei esta breve dissertação sobre o legado de Leibniz acerca da verdade, a desenrolar por outros pontos de sua filosofia.

Por um suposto bem, os agentes socias (a mão visível do Estado) existentes “salvaram” a mulher considerada “desaparecida”, mas que não estava de todo desaparecida, pois se preparou para exercer sua liberdade de escolha ao viver em um “mundo alternativo” (e a “desaparecer” do mundo “real”) no qual estaria integrada apenas à natureza, talvez em busca de um sentimento estético do sublime, talvez apenas pela deceção do passado, longe da sociedade humana e suas sufocantes expectativas, apenas a viver da forma que melhor lhe apetecia. Foi “salva” sem nunca querer ou pedir (ou precisar) ter sido salva, pois nunca havia se perdido e talvez mesmo estivesse, pela primeira vez, a se encontrar existencialmente, tal como Zaratustra assim o “fez”.

Pensemos como seria o mesmo processo intelectual se este facto tivesse ocorrido com a personagem Zaratustra, antes que chegasse ao final de suas formulações e sem que decidisse, por compulsória intervenção do poder constituído, descer das montanhas, a abortar toda a sua construção filosófica que foi anunciada aos quatro ventos. O que diria, então, Zaratustra?

A verdade, o que é?

Para percebermos que a verdade, em Leibniz, pode ser única ou múltipla, é preciso perceber antes sobre as mónadas. Se as mónadas são conceitualmente como uma espécie de unidade total indivisível, única, idêntica somente a si mesma e diferente das outras, como um substrato da individualidade cósmica, a serem dispostas conforme uma sincronicidade harmônica e precisa com a matéria, em um processo regido por Deus, é bem provável que tenhamos como perceber facilmente que a verdade, em si, só seja possível, em sua totalidade, para Deus, e não para os sujeitos, limitados pelas suas próprias capacidades.

Leibniz escreveu que “se uma noção é completa, ou seja, tal que a partir dela possamos dar razão de todos os predicados do sujeito ao qual pode ser atribuída essa noção, será a noção de uma substância individual, e vice-versa”[2]. Mas há a questão se a “inconsciência” das mónadas podem ser também um mesmo reflexo de uma inconsciência de Deus, se este fosse concebido tal como o Uno de Plotino, que apenas se excede a si mesmo em puro pensamento, em puro ato aristotélico, ao transcender a visão do Nous de Anaxágoras. O sentido de perfeição absoluta seria, então, inconsciente? Inconsciência pode implicar em estar ausente de tudo, desconectado de uma dada realidade, mas ainda assim a sofrer e a causar impactos.

Deus e o Espaço Simbólico

Deus, portanto, para Leibniz, necessita estar fora[3] do tempo simbolizado pelos relógios sincronizadores. Pois o tempo é o primeiro e grande limitante do homem nesta sincronização harmônica, com o sujeito inserido nele e sem possibilidades de transcender a seu próprio momento. Deus, como princípio da razão suficiente, deve possuir em si todas as possibilidades, como que estas possibilidades fossem predicadas divinas, tal como Severino Boécio (480-524) concluiu, a considerar sobre a noção perfeita de Deus, contruída logicamente na sua obra magistral: A Consolação da Filosofia (De consolatione philosophiae).

Não é possível ao homem migrar para um outro mundo pois, antes de quaisquer outras limitações, há a impossibilidade de apenas “conhecer” um outro destes mundos possíveis, pois não é possível transcender às verdades para além das possíveis nestes fragmentos de tempo. Ao homem, já a considerar uma visão lacaniana, resta o desejo desta possibilidade. E tal desejo leva o homem a sonhar com outras possibilidades. Não que este sonho seja constituído para que seja um alívio à sua própria realidade, mas que a própria realidade seja construída como uma fuga necessária aos sonhos das possibilidades desconhecidas. Eis porque a conceção de inferno seja sempre mais realística, ou fiável, do que o conceito do paraíso. “Como permitir, afinal, que alguém possa residir em algum tipo de paraíso que “eu” não possa desfrutar?” Eis uma das verdades ocultas no resgate noticiado, a partir dos desdobramentos dos desejos, das ambições e invejas incorporadas na própria perceção da verdade e da realidade. O que Leibniz não priorizou, em si, foi acerca das características essencialmente humanas sobre a perceção.

A realidade

A realidade parece, então, uma prisão temporal, e de facto a é, mas que contém em si uma grandeza de verdade inclusa nesta fração temporal humana impossível de se conhecer, desde o momento do nascimento ao derradeiro momento da morte. Tal como os limites matemáticos dimensionais de um círculo em que os polígonos inscritos neste círculo se desdobram em lados infinitamente até que quase alcancem a igualdade com o círculo, mas sem nunca alcançarem a máxima possibilidade. O pensamento infinitesimal de Leibniz é um predicado contido em sua noção de verdade, e das possibilidades dos diversos mundos conjeturáveis.

A verdade da razão, que é uma verdade contida em todas as possibilidades de mundos, tanto deste que estamos confinados quanto de todos os outros possíveis, só percebidos por Deus, disposto a conjeturar sobre a ótima configuração em sua torre alta, é uma verdade necessária, que detém em si a certeza[4] e alcançar tal verdade requer uma habilidade técnica transcendente racional, ou simplesmente uma forma de arte de encontrá-la, pelo uso da lógica racional.

Mas Leibniz vai contra o empirismo radical em que a mente é uma tábula rasa, que pressupõe como forma de aprendizado as perceções do mundo, tal como John Locke (1632-1704) considerou. O inatismo desta capacidade racional humana, hierarquicamente superior aos animais, é previamente previsto e organizado por Deus, faz parte da mónada anímica, daquela que continuamente percebe e dá sentido aos factos, e que diferente do monismo em si, interage enquanto humano com outros humanos, através da linguagem.

Com a experiência vem as proposições sintéticas acerca da verdade, ou da verdade contingencial, válida apenas para este mundo possível. Mas, pela incapacidade já descrita de se conhecer plenamente este mundo possível, imanente, é necessário se considerar que habitamos não o círculo, em si, mas os polígonos em suas diversas formas e desdobramentos. Estes são, na verdade, os verdadeiros mundos possíveis, pois são relativos e menores do mundo máximo possível, que não poderemos alcançar.

Não seria equivocado dizer, por exemplo, que um determinado ser vivo, talvez uma bactéria, estivesse a ocupar um triângulo inscrito no círculo, enquanto um animal mais inteligente, um cão, gato, golfinho ou outro qualquer estivesse a ocupar um quadrado ou talvez pentágono. E por aí seguiremos, até um polígono de n lados, tentendo ao infinito, talvez a ser ocupado a algum humano considerado um sábio, intelectualmente superior, ou mesmo um génio estético de Schopenhauer, capaz de percecionar e “traduzir” algo superior, como o belo, por exemplo.

O que importa é que tais mundos relativos são instanciados, relativos, e dependem de uma interligação subjetiva, nada objetiva, da relação humana, pois a realidade passa a ser constituída por tal intersubjetividade, tal como Lacan pode ser percebido ao descrever o espaço simbólico como o mundo possível de se perceber, habitar, com uma verdade superior, transcendental, que o constitui, além da imaginação humana. Esta verdade superior transcendental é, para Lacan, o “grande outro”, que pode assumir formas diversas que sempre incorporam algum tipo de ideologia, que é a ordem simbólica vigente e cuja verdade está impressa nela, traduzida.

Pouco importa que tal ente superior transcendental exista apenas por causa daqueles que a criam, e que passam a receber uma razão existencial desta mesma criação, e sentem-se com espelhos que filtram o desejo deste grande outro como os desejos desta coletividade, e com isso abre um espaço incomensurável entre si e este grande outro, ou Deus, ou Capitalismo, ou mesmo uma ideologia hedonista qualquer.

Enquanto a verdade leibniziana da razão pressupõe que o predicado é uma justificação do sujeito, que incorpora em si a própria predicação, e que pode ser alcançada pelas proposições lógicas, puramente racionais, que independem das instâncias mundanas, a verdade leibniziana do facto, do mundo percebido, precisa de algum tipo de identidade e não-contradição para que haja algum tipo de convenção. A primeira grande discussão, passa, então, a ser sobre a própria existência de outros mundos possíveis, ou mesmo sobre a própria existência de Deus.

Labirinto da Racionalidade

Eis que própria verdade contingente coloca (ou permite colocar) em causa a própria realidade. E, as questões colocadas pelo livre exercício das razões individuais levam ao questionamento e passam a tramitar por incontáveis outros mundos possíveis, ainda que formados pela imaginação, mas não transcendentes ao que está, pois são possibilidades interiores, simplificadas, como se fossem cópias platônicas de alguma ideia superior que nem sequer existe para além do espaço simbólico comum.

Esta forma de racionalizar, mesmo a partir de uma lógica modal aristotélica, a considerar o que é possível ou necessário ou impossível ou contingente, com alguns arranjos excludentes, passa a variar dentro de um universo em que a intersubjetividade constrói o espaço simbólico que passa a ser a realidade para todas as pessoas inseridas neste compartilhado e construído pacto, para além da linguagem em si como elemento de conexão a tal espaço.

Portanto, se uma instância superior e transcendental, como Deus, configura o melhor dos mundos possíveis, abrem-se duas alternativas acerca da realidade, que pode ser ou (1) real, ou meramente (2) pensável. A complexidade acerca da liberdade humana é justamente a ascensão que este poderá trilhar nesta possibilidade interna de mundos possíveis, acessíveis somente pela capacidade da própria complexidade humana de perceber a intersubjetividade em que está inserido e transcender aos limites eminentemente humanos, tal como uma necessidade íntima e metafísica de um direcionamento a uma instância superior pelo uso das próprias capacidades.

Conclusões

Assim, posso enfim abordar a realidade (para além da coisa em si kantiana) como algo a penetrar pelas fissuras desta intersubjetividade do espaço simbólico, a mostrar que nem sempre o melhor mundo possível é de facto o melhor mundo possível, como Voltaire partiu da premissa ao questionar sobre as desgraças da natureza ou outras questões que afrontam a harmonia e a beleza imaginada. Tais fissuras são a realidade que está contida para além dos limites dos polígonos, mas dentro do círculo. A realidade vem e “rasga” com as ilusões humanas, e assim os homens criam os sonhos para que possam se refugiar dentro destes mundos verdadeiramente perfeitos, utópicos, a justificar um “melhor dos mundos” para si próprio.

A mulher resgatada das montanhas de Utah partiu para seu mundo perfeito e a realidade veio implacavelmente resgatá-la deste sonho desejado de uma vida alternativa. Não lhe foi possível, a partir do seu resgate, viver mais desta forma. E assim acontece com toda a humanidade, em diversas instâncias, como o defensor do liberalismo (uma espécie de religião[5]) em que se vê fora do mercado (retirado pela mão invisível) ou o comunista (outra instância religiosa, como todas as ideologias) que se percebe com órfão marxista, ou mesmo o crente que se defronta com as injustiças da vida cotidiana, em que a crueldade assola a humanidade, em especial os menos favorecidos, e a questão teleológica do grande outro vem à mente, abafada pela necessidade de continuar a coabitar o espaço simbólico que se encontra. Sempre há uma brecha para a realidade afrontar os sonhadores que estão a lhe negar a presença.

Portanto, o simples inatismo das pequenas perceções que Leibniz nos trouxe nada mais é do que a intersubjetividade deste espaço em que habitamos, compartilhamos e definimos como o melhor dos mundos possíveis, embora cada individualidade desconfie profundamente que haja algo de errado, a questionar-se profundamente ao ponto de partir para uma discussão filosófica ou mesmo abafar a questão e aceitar as ilusões do espaço simbólico, até que a realidade seja percebida pela brecha, ou até que não seja mais possível viver com a dimensão da brecha.

Tanto para Leibniz quanto para Lacan, a realidade se mostra impossível de ser percebida em sua totalidade, para os humanos. A diferença, em si, é que os outros mundos possíveis, em Leibniz, estão além da verdade do facto e, para Lacan, os outros mundos possíveis coexistem e já os habitamos, conforme as nossas próprias capacidades e disposições. Para a mulher resgatada de Utah, o melhor mundo possível não lhe foi mais possível, mas existe, mesmo com fissuras em que a realidade permeia, implacavelmente. Mesmo que volte para lá, será diferente.

Bibliografia

Aquino, Tomás de. Peri hermeneias et Posteriorum analyticorum. Editora Marietti Ltd. Itália, 1955.

Lacan, Jacques. El triunfo de la religión – Precedido de Discurso A los Católicos. Traducción de Nora González. Editora Paidós. Buenos Aires, 2006.

Leibniz, Gottfried Wilhelm:

Discursos da Metafisica. Apresentação de Tessa Moura Lacerda e tradução de Marilena Chaui e Alexandre da Cruz Bonilha. Editora Martins Fontes. São Paulo, 2004.

Escritos Filosóficos. Coletânea organizada por Ezequiel de Olaso. Editora Charcas. Buenos Aires, 1982.

Monadologia (1714, póstumo), tradução portuguesa de Luís Martins, Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Lisboa, 1987.


Notas

[1] https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/mulher-esteve-desaparecida-em-utah-durante-cinco-meses-foi-encontrada-viva-numa-tenda-num-desfiladeiro

[2] Leibniz, 1982. Página 348.

[3] Esta já é uma consideração em Tomás de Aquino (“posicionado em alguma torre alta (excelsa turri) onde, naturalmente, pudesse vislumbrar todo o caminho, certamente veria simultaneamente (simul) todos os que se encontram no caminho, não sob a razão precedente e subsequente” – Aquino, 1955, página 73). Leibniz, profundo conhecedor da Filosofia precedente, sintetiza-a e cria ao perceber tal premissa como uma forma de atingir a solução ao problema dos futuros contingentes, não necessários, que serão um tema quase central na sua obra Teodiceia.

[4] Talvez, em livre pensamento especulativo, seja por isso que Bertrand Russel tenha notado que as pessoas não querem o conhecimento (o contingente), mas sim a certeza (o necessário). Em última análise, buscaríamos a equiparação, ou promoção, à qualidade de Deus, da perfeição. Ou mesmo apenas nos movimentemos devido a este desejo oculto, em busca deste motor imóvel e inconsciente, aristotélico.

[5] “(…) É para isso que a religião foi criada, para acudir os homens, ou seja, para que eles não percebam o que está errado. Houve uma pequena instanciação entre estes dois mundos (…)” (em minha livre tradução, em que Lacan trata do passado e do futuro, como que um alargamento do espaço simbólico). Lacan, 2006, página 86.

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