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Ação-Mente-Linguagem Filosóficos

O empirismo, em David Hume

Abstract

A partir do empirismo de David Hume, este artigo visa a atender a poucos e restritos pontos temáticos em relação à apresentação, explicação e considerações das teses e dos argumentos principais encontrados no texto selecionado do filósofo.

Apresentação e explicação das teses e dos argumentos principais

No excerto considerado, David Hume inicia seu questionamento sobre a falibilidade dos sentidos, argumentada por todos os céticos, e que certamente é coerente quanto às possíveis limitações dos sentidos para gerar o conhecimento. Os céticos, contudo, condenam os sentidos e descartam o uso necessário da razão em conjunto com as impressões adquiridas pelos sentidos.

Hume não defende os sentidos de forma incondicional, dando aos mesmos uma infalibilidade. Ao contrário, ele conceitua tais falhas ao usar dos recursos das impressões recebidas e as subordina à uma análise racional da mente para que haja uma validação e conhecimento.

Entendo que Hume parte deste pressuposto considerando que todo e qualquer conhecimento seria impossível sem o concurso dos sentidos. Os sentidos, assim, assumem a única forma de se partir ao conhecimento sem, contudo, garanti-lo.

Considerar alguém sem qualquer dos cinco sentidos ativos, a vida, sendo possível acontecer, seria de forma puramente vegetativa, sem que pudesse, assim, o ente privado de todos os sentidos adquirir conhecimentos de quaisquer tipos, não manifestando nada além da própria existência não percebida, sabe-se lá até que ponto, sendo difícil até abstrair sobre tal possibilidade que se assemelha a uma aberrante patologia.

Em sentido oposto, todos os sentidos em operação que geram impressões seriam insuficientes para gerar o conhecimento, visto que estes são falhos, aceitando o argumento da falibilidade dos sentidos pelos céticos, como por exemplo em ilusões de óticas, confusões auditivas ou sensoriais, ou mesmo relativização das impressões recebidas em relação a outras impressões constantes da memória ou determinados hábitos.

Por isso, Hume adota uma espécie de subordinação dos sentidos à razão, sem prescindir de nenhum destes. Segunde ele, os argumentos céticos da falibilidade dos sentidos servem apenas para atentar sobre a necessidade de algo a mais do que os sentidos isoladamente – e isto é, para Hume, o uso da razão como elemento aferidor das impressões que são causadas pelos sentidos, sem nenhum tipo de independência dos sentidos em relação a esta.

Mas há, todavia, no homem, o instinto natural da credulidade irracional do mundo exterior, que seria independente de sua própria existência ou mesmo de todas as outras criaturas sensíveis que compartilhas as impressões do referido mundo. E isto só é possível por qual razão? Unicamente pela credulidade irracional nos próprios sentidos – ao se confiar cegamente em seus sentidos, não há uma espécie de filtro que coloca em xeque a própria realidade exterior – ou mesmo sua existência. Por isso, dissocia-se o mundo exterior do próprio observador levando a um equívoco ainda mais contundente.

O equívoco, então, seria que a partir desta confiança cega nos sentidos e a consequente credulidade no mundo exterior tal como é percebido levaria a equiparação das imagens como sendo os próprios objetos. Ou seja, poder-se-ia estar aceitando como verdadeira as falhas ocasionadas pelos sentidos, visto que o uso da razão não estaria sendo realizado.

E, assim, estabelece-se que imagens não são os objetos externos, pois possivelmente não estão analisadas devidamente por procedimentos racionais que poderiam perceber falhas nestas impressões, como por exemplo uma profundidade não favorecida ou mesmo uma distorção na forma pela observação em um ângulo desfavorável, por exemplo, além de inúmeras outras possibilidades de ilusões pela falibilidade dos sentidos.

Eis que Hume cita o exemplo sobre a mesa. A mesa é. E, sendo, é percebida por todos os que possuem os sentidos para a percepcionar. Suas cores, dureza, textura, dimensões e outras características intrínsecas são divididas por todos, e existirão independente da presença junto à mesa, que continuará a ser o que é, e a ter as características que possui. E assim, há a configuração da existência cabal do mundo real exterior, para Hume, e que é percebido pelos sentidos.

Considerando que as imagens sejam representações dos objetos, e estes objetos são reais, imutáveis independente do observador, o que está a se colocar em questão é justamente as imagens, visto que os objetos não podem ser motivo de dúvidas, exceto suas representações na mente – pela necessidade de a razão validar representações das imagens dos objetos e, consequentemente, não os objetos em si. Acontecendo isto, os supostos erros ocasionados pelas falibilidades dos sentidos seriam suficientes para serem corrigidos e o conhecimento acontecer de forma precisa. A falibilidade dos sentidos é justamente assumida como o fator necessário e suficiente para que a razão seja acionada para que o conhecimento aconteça.

E, em dado momento, Hume confronta o comportamento irracional humano, pelo instinto de acreditar irracionalmente em tudo o que consegue perceber. O erro, portanto, está no comportamento humano, e não nos sentidos, visto que somente pelos sentidos é possível alcançar o conhecimento. Mas não só pelos sentidos.

Esta posição é similar ao realismo indireto de John Locke, que defende que uma ideia é produzida como objeto imediato da percepção a partir de tudo aquilo que a mente pode e consegue perceber. E isto pode produzir qualquer tipo de conteúdo mental, como sensações, conceitos, crenças e paixões, por exemplo. O objeto imediato fruto da percepção não é o objeto físico, que existe, de fato, que independe do observador, mas que poderá ser acessado pelas impressões que foram geradas, e estas impressões são objetos de produção de outras ideias e novos conhecimentos.

Assim, se há a percepção da mesa branca de Hume (ou mesmo o conhecimento desta) a partir de perceber ou conhecer outra mesa e também a cor branca, então a mesa branca é o objeto indireto da percepção, pois assume as diferentes qualidades percebidas anteriormente e que já são conhecimento. A qualidade mesa e a qualidade branco causam a ideia da mesa branca. Mas, tais qualidade não são as únicas, pois existem outras como dimensões, formatos, solidez, etc que entram nesta ideia da mesa branca, bem além das qualidades mesa e branca.

Então, contrariando a natureza humana, que instintivamente delega aos sentidos a única fonte do conhecimento real, todo e qualquer pensamento filosófico facilmente refutaria tal argumento, pela sua insuficiência. Pois o espírito não poderia conhecer as coisas de forma direta sem as ideias que possui acerca de tais coisas. Se todas as ideias que são recebidas de determinados objetos estão no espírito, acontece o conhecimento intuitivo sobre o mesmo, mas não de forma direta, simplesmente pelos sentidos. É preciso o concurso das diversas ideias previamente percebidas, e que gerarão o conhecimento do objeto percepcionado.

E, havendo uma equiparação ajustada entre aquilo que é percebido pelas ideias atribuídas ao objeto e a realidade do objeto gera uma situação da realidade em si acerca do objeto, coincidindo as ideias às percepções.

Por isso, que Hume cita que a mesa branca pode ser percebida mesmo à distância, pois aparentemente seria menor que a uma distância próxima à mesma. Julgando pelos sentidos de uma observação direta nos dois casos – a mesma mesa quando observada a pouca distância e a mesma mesa observada a maior distância, ou mesmo a um ângulo distinto suficiente para alterar a disposição das impressões, apenas, seriam simplesmente mesas diferentes se a observação acontecesse de forma direta, o que não ocorre, pois o conhecimento acontece de forma indireta, de uma imagem que está impressa no espírito.

A realidade das coisas é uniforme e independe do observador – e até mesmo da existência deste. A razão faz com que os sentidos adquiram uma dimensão superior as suas limitadas e falíveis percepções.

Hume evoca, então, ao afastamento dos instintos puramente empiristas sem nenhum uso da racionalidade, fazendo com que o uso dos sentidos seja tomado pela racionalidade consciente que transforma a forma de observação passiva de uma realidade que passa a ser construída de forma racional.

Eis que, neste ponto, um ceticismo acentuado poderia levar a duvidar de tudo, novamente, e assim chegar a um ponto novamente de impasse sobre o que os sentidos poderiam fornecer. Pois a racionalidade poderia ser tomada por uma série de argumentos que se exponenciariam, sendo impossível para sua aplicabilidade prática, tornando o ceticismo acentuado como uma ameaça ao sistema proposto.


Considerações

Considero que as teses sejam coerentes e inteiramente plausíveis, pois a existência de um mundo exterior é o ponto de partida para algo que constitui uma filosofia prática mais próxima das experiências sensoriais que somos capazes de perceber e aprender, de conhecer e levar a vida de forma evolutiva.

A própria evolução humana, todavia, é repleta de fatos e acontecimento em que o conhecimento é compartilhado, ou seja, há uma espécie de construção indireta da realidade, na qual o conhecimento é obtido não diretamente, mas sim pelas ideias muitas das vezes formadas e absorvidas, construindo-se fortemente o que considero como a transformação da própria realidade, em civilizações e povos que mais conseguem aprender e superar seus problemas e desafios de sobrevivência.

O conhecimento então é algo que poderia ser percebido no ser e também na coletividade, e pode ser considerado em padrões semelhantes. Se aprendo sobre conceitos, aprendo sobre o que percebo e o que perceberei no futuro, próximo ou distante.

Hume, analiso, teve sucesso nesta abordagem em linha com Locke.


Bibliografia

David Hume, INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO, secção. XII, parte 1, §§ 6-10. Na edição IC-CM, Lisboa 2002 (trad. J. P. Monteiro), pp. 163-64.

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