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O Esquema Conceitual do Possível

Uma brevíssima introdução

O que é o possível?

O possível é a parte conhecida do impossível. É a ínfima parte do caos que pudemos ordenar, de alguma forma, a nos dar uma falsa impressão de o termos decifrado, nossa verdadeira intenção.

O possível é tudo o que conhecemos, que nomeamos, que compartilhamos entre nós pela linguagem, que definimos e damos valores. O possível não está separado do impossível, e sim completamente inserido neste, e por isso, dentre tantas operações que realizamos, algumas vezes surgem fissuras ou brechas que nos coloca em contato com o impossível, quando nos surgem os “problemas” existenciais.

O impossível é a realidade que nos angustia, nos afugenta e nos amedronta. Criamos o possível para evitar o impossível. E este processo criativo muitas das vezes falha, e nos surgem as tais brechas ou fissuras que nos expõem ao caos do impossível. E é isto o que ocorre quando percebemos os nossos abismos existenciais entre tais dimensões – quando surgem as nossas crises, e as nossas maiores vulnerabilidades existenciais.

Simples assim, mas nada fácil de percebermos à primeira impressão, pois construir tudo isso foi nara não termos de lidar com o caos.

Por isso, para que possamos perceber como tudo isto funciona, adotamos aqui um esquema conceitual deste possível que criamos, deste que conhecemos bem. Um esquema que serve tanto para um indivíduo – para você, como para a estrutura à qual pertence. Pois, a bem da verdade, não somos mesmo indivíduos autônomos, mas sim parte de uma estrutura – somos causa e efeito, simultaneamente, e desde sempre.

 

Quais os fundamentos do possível?

Todos os fundamentos do esquema conceitual do possível estão filosoficamente construídos e apresentados, em detalhes, no livro «O Guia Cínico e Obsceno dos Jogos da Vida» a partir de construções realizadas nos mais conhecidos conceitos filosóficos e psicológicos existentes, mas conectados a darem sentido ao todo existencial, e não apenas às partes, como tem sido mais comum na Filosofia.

Chegar a este modelo foi um trabalho de quase toda uma vida, realizado pelo filósofo Leandro Ortolan, a partir de uma profunda observação da existência e também da crítica positiva de como as Ciências das Humanidades têm se desenvolvido de forma insuficiente, pois ainda são incapazes de responderem a muitas das questões que nos afligem existencialmente, seja enquanto indivíduos, seja enquanto sociedades.

O problema, argumenta, sempre foi não considerar o movimento de tudo, mas sim buscar analisar apenas o indivíduo, enquanto se analisava apenas a sociedade, ou apenas o mundo, e não o todo, integrado e dinamicamente interativo. O esquema conceitual do possível busca isso: a dinâmica, o movimento e a fluidez. Por isso, é tão eficaz em nos fazer perceber mais sobre tudo o que há, e sobre tudo o que é, obviamente, possível de se perceber.

Assim, apenas para considerar um modelo que possa ser compreensível didaticamente, o possível é apresentado como um conjunto de camadas formado por esferas concêntricas, de diferentes tamanhos, na qual a menor é a mais densa ou imanente e a maior é a mais sutil ou transcendente. Gradações, como camadas distintas entre si, mas que na prática se fundem como uma – tal como percebemos o mundo. Para além destas esferas, há a representação de uma última – mas que não é mesmo uma esfera, pois não possuímos contato com ela – é o impossível, que permeia a todo possível e vai para muito além dele, e para muito além do nossa esquema.

Didaticamente, como é o esquema do possível?

As três esferas imanentes – materiais:

1ª esfera – a moral – que são os valores mais profundos e fechados que temos em nós, apreendidos dos relacionamentos, da educação formal e informal e de todas as convenções que existem na sociedade;

2ª esfera – os representantes / relacionamentos – todas as relações são baseadas no poder. Uma das partes domina a outra, e por isso, passa a representar algum tipo de autoridade baseada em algumas regras, mesmo que simples;

3ª esfera – as regras – que não existem por existir, mas sim pela preexistência de relações, de conflitos e da necessidade de se estabelecer uma ordem viável do possível, a coibir as vulnerabilidades sociais;

Abaixo, a esfera transitória – entre a imanência e a transcendência:

4ª esfera – os modos existenciais – o modo de ser, que representa uma suposta essência de cada um, de seus próprios valores, uma perspetiva própria e o modo de existir, que representa o que este projeta para o mundo, para a estrutura, interactivamente;

E, finalmente, as três esferas transcendentes:

5ª esfera – o marketing ideológico – que são as possibilidades transformadas em oportunidades pelas teias de relações que existem no mundo, de acordo com as ideologias mais dominantes que existem;

6ª esfera – a ideologia – quase impercetível, mas que representa tudo o que é conhecido. Como cada um é limitado pela sua própria perspetiva individual, a ideologia passa a representar o tamanho do “universo” de cada um;

7ª “esfera” – o real – o impossível, que é todo o resto, para além da ideologia. Por não ser conhecido, não é uma esfera, propriamente. É o caos, completamente inacessível mas no qual nos dirigimos alucinadamente para dominá-lo, para expandirmo-nos e domá-lo, contra a nossa própria razão. É impenetrável, todavia, mas que pode facilmente nos permear e atingir de forma impactante pelas fissuras ideológicas que temos em nossas frágeis criações ideológicas.

Qual a importância do esquema do possível?

É a partir do esquema do possível que perceberemos as dinâmicas da nossa própria existência.

Nós somos estruturas, mas não independentes ou individuais, como julgamos ser, pois estamos todos interconectados em teias de relações que configuram o possível, nossa criação mais importante, e para qual nossas vidas são direcionadas, ainda que não nos demos conta disso. É essa perceção que nos será tão valiosa, e se dará através do esquema do possível – a maior razão para sua conceituação.

Assim, podemos perceber não apenas o que somos, mas principalmente o que podemos vir a ser – pois o modelo não é sobre o que se é, como algo parado e definitivo – mas sim sobre as possibilidades, sobre o movimento, e por isso é tão valioso a quem busca conhecer mais sobre a própria existência, sobre si próprio.

Mas, é muito mais do que isso, pois também permite se perceber alocado dentro da estrutura social, perceber qual a sua posição atual no jogo da vida – que chamamos de alocação existencial. Assim, a individualidade e a sociedade passam a serem igualmente importantes e interconectadas, como devem ser, pois instanciam os modos de ser e existir, respetivamente.

Entre o modo de ser e o de existir, há o abismo – a origem e o destino do possível. E este é o ponto obscuro que nos é indesejado que passa a ser suprido por elementos mais sofisticados da existência. Aprender a lidar com este abismo é garantir uma boa qualidade existencial, mais conhecida como “uma boa vida”, o que todos buscam, mas sem saber bem o que seja isso, ainda.

Eis uma das muitas possibilidades do esquema conceitual do possível, pois existem tantas outras que ainda não foram citadas, mas que logo serão, construtivamente.

Nos esquemas ao lado, está a representação didática das estruturas do possível, todas estudadas em nossos conteúdos mais avançados – nos escritos ou nos diversos cursos que temos.

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