fbpx
(degustação da introdução do livro)

O Primeiro Capítulo

do Guia Cínico e Selvagem dos Jogos da Vida

por Leandro Ortolan
"...Selvagem, pois, na selva, a declaração de ser bem-vindo pode ser tanto para aquele que virá a ocupar uma posição de membro do bando, como para aquele que virá a ser a próxima refeição. Na selva há utilidade para tudo..."

1.     Introdução à Filosofia Selvagem

A Filosofia Selvagem

Um colega moçambicano da turma do Mestrado em Filosofia perguntou, em certa ocasião, qual seria a data para a “defesa” de um determinado trabalho. Eu, quase instantaneamente, respondi que filosofar nunca poderia ser uma defesa, mas apenas um ataque.

Aquilo que ele perguntou me soou tão estranho, sobre alguém ter de defender algo que foi produto de seu próprio exercício filosófico. Como isto seria possível?

Percebi, ali, que a Filosofia sempre foi, para mim, não uma defesa de ideias ou a desejada prática política da idealizada convivência na vida urbana vivida na pólis grega ateniense, projetada pelos seus elitizados cidadãos, todos ociosos para pensarem sobre o ser, sobre a beleza, sobre a coisa em si ou nas formas de se atingir a verdade através do conhecimento.

Viviam assim, a filosofarem, é verdade, pois havia pessoas em situação de escravidão que os permitiam ser ociosos, sejamos justos. Não pensavam, desde os primórdios filosóficos, na rutura da desigualdade que já reconheciam existir, mas sim persistiram na manutenção, na universalização de seus padrões de vida fora do contexto da realidade que reflete o caos da existência, na qual a beleza perseguida facilmente se destaca. E olha que os gregos foram os melhores! Depois deles, a partir de Plotino, só piorou.

Por isso a Filosofia não deve ser conformativa, mas sim perturbadora, pois sempre há uma contraparte gigantesca que fica de fora de suas considerações, e é preciso resgatar o que esteve a faltar através do pensamento filosófico atual, ainda a refletir predominantemente a genealogia das elites.

A Filosofia possui, para mim, utilidade apenas para atacar, e atacar poderosamente tudo o que havia, e o que há. Mas não é um ataque meramente destrutivo, mas sim também reconstrutivo, de colocar os pingos nos “is”. Pois um sobrevivente, afinal, nunca para de lutar e precisa de armas, ou melhor, de argumentos, para esta luta. As novas armas serão os argumentos reconstruídos a partir daqui, por nós. Se parar de se argumentar, será o fim do jogo. O sobrevivente filosófico que surgirá quer o direito de saber que só parará quando decidir parar, e da forma que quiser parar. Se antes era o ócio que levava à Filosofia, agora será a Filosofia que deverá levar ao direito do ócio, e aos méritos de se chegar até lá enquanto se está a agir no fluxo. Por isso, a Filosofia não pode ser paralisação, mas sim movimento.

A Filosofia nunca deveria ser algo blasé, mas sempre visceral, obscena e profundamente inquietante. Nascia, assim, a partir daquele inusitado momento que respondi quase sem pensar à pergunta do colega Ernesto, ao menos para mim, o conceito da Filosofia Selvagem, ou da Filosofia do Contra, direcionada para aqueles desalocados, como eu próprio sou, que não dispuseram ou dispõem da ociosidade criativa dos senhores para si, desde a época clássica, mas que tiveram de proporcioná-la aos outros sem nunca pararem de se movimentar, pois precisam sobreviver. O mundo ainda é assim, selvagemente segregador. É uma vergonha que a Filosofia ainda possa ser permissiva e insensível a tal ponto, quase sempre. Mais do que nunca estamos a precisar da boa selvageria filosófica.

Selvagem por estar ainda nas periferias conceituais, fora das convenções sociais estabelecidas, por se forçar a ser uma instância pré-ideologia neoliberal, antes de todos estes absurdos neoliberais, e também por desenvolver uma certa psicopatia filosófica, em que todos os filósofos são bem-vindos, mas nunca idolatrados, privilegiados ou preservados.

Selvagem, pois, na selva, a declaração de ser bem-vindo pode ser tanto para aquele que virá a ocupar uma posição de membro do bando, como para aquele que virá a ser a próxima refeição. Na selva há utilidade para tudo.

E esses são os dois pontos altos da Filosofia Selvagem: sempre em movimento, no primeiro ponto, a buscar analisar o fluxo de acontecimentos e não apenas a imagem paralisada do momento, sempre parcial e desconexa da realidade; e, no segundo ponto, o desapego, em que a imprevisibilidade é parte nuclear desta selvageria, para que o fluxo dos acontecimentos cotidianos possa tanto ser explicado como objeto de análise, para o que seja relevante, ou, se não relevante, tratado com ironia e sarcasmo, com aquilo que seja dado como mais um caso perdido das divagações filosóficas irrelevantes.

Sim, esta Filosofia considera que existam casos realmente perdidos, por sinal uma considerável parte deles, e não acredita em uma utopia universal. Ou melhor, até acredita em utopias, mas só para as classes mais privilegiadas, para apenas uns poucos que já vivem nelas, completamente alienados das vozes que estão a gritar por dentro da maioria agonizante, que sempre aparenta ser calada e submissa, o que é ainda mais triste. Calados, mas mesmo assim todos possuem perguntas não respondidas. Aguardam por elas.

Esta maioria desprivilegiada é o restante da suposta humanidade, a parte mais desconhecida ou desinteressante, para os privilegiados – ou os que se iludem que sejam privilegiados, pois há muitos que pensam ser assim sem nunca terem sido mais do que mais um perdido em suas tolas ilusões. Mas é preciso cuidado para não cair na tentação de romantizar a desgraça da pobreza, na qual me incluo, pois o romantizar é mais uma das formas de anestesias existenciais que existem, como logo veremos, distopicamente.

Pois não haverá aqui a revelação de nem apenas uma utopia, nem de apenas uma distopia, mas inúmeras destas que nem sequer foram percebidas antes, pois até mesmo o conceito de universalidade também será atacado, como quase tudo o mais, ainda que não fará muito sentido por agora, sem se perceber todo o movimento que este livro tem por pretensão realizar para o leitor atento que realmente quer perceber mais sobre tudo o que está a ser tratado desde sempre, mas da forma equivocada.

Por isso, andaremos inseridos em tudo o que seja possível referenciar o que estamos a abordar, mas de forma mundana e cotidiana, como por dentro das notícias diárias dos sites e portais, dos lançamentos da Netflix, dos muitos filmes e livros, das ações políticas das extremas esquerdas ou direitas, nos memes do Facebook, dos pobres neoliberais, das travestis, das indiscrições do Putin, das discrições dos chineses, das inconsistências norte-americanas, das ideias de Kim Jong-un, da bancada da bala e da bíblia, das novas compras corporativas de Elon Musk e, principalmente, da criatura integrante de um mundo tão politicamente correto que, por vezes, fica tão tóxica e irracional quanto aquilo que está a tentar nobremente combater. Sim, o próprio politicamente correto também não ficará de fora de nossa selvageria crítica, ainda que tenha seu imenso valor, e que não é pequeno.

Depois de declarar que a Filosofia era para ser feita como uma atitude de ataque, busquei minhas reminiscências e percebi que sempre foi isso que fiz, inconscientemente, e pude compreender parte da estranheza dos amigos e professores quando estava a externar minhas exposições filosóficas, que nem sempre foram bem compreendidas pois também sempre buscaram expor o movimento do todo, e não a paralisação pontual de algo. Por muitas e muitas vezes, minhas exposições foram completamente desprezadas por atacarem justamente o status quo da própria Filosofia, da ordem estabelecida e, às vezes, do próprio sistema de ensino.

Mas as minhas críticas serão conscientes, lúcidas, com pitadas de deboche e algumas gotas de vulgaridades blasfemas sobre tudo o que há nelas, e é mesmo a melhor forma para se fazer, pois, se na política há os políticos caricatos, na Filosofia, há os filósofos igualmente caricatos, que até pedem para serem assim. Simples assim.

Sócrates, se renascido nos tempos atuais, seria atualmente avaliado pessimamente por muitos dos critérios atualmente vigentes não apenas nas Universidades, e tal como no passado, continuaria sem nada saber, mas agora realmente sem nada saber mesmo, reforçadamente declarado pelas péssimas avaliações que teria ou até mesmo cancelado nas redes sociais, se fosse a algum podcast exercitar sua maiêutica[1]. Seria academicamente massacrado pela sua oralidade ou pelo desprezo às normas estabelecidas, e pela irreverência. Ser genuíno passou a ser péssimo, pois todo o “bom” filósofo deve sempre operar “com o que há”, e isto é replicar o que já existe, trilhar caminhos que já foram estabelecidos. Sair de tais caminhos é algo que pode representar a morte acadêmica daqueles que “ousam” tal afrontamento.

O filósofo contemporâneo acredita que a Filosofia é uma ciência! E quer adotar seus métodos. Não é ciência! A Filosofia é a ameaça à ciência, a predadora, a provocadora, aquela que está a fazer a ciência se mover, por medo de ser a próxima refeição. A função da Filosofia deixou de ser apenas a que responde, e passou a ser a que mais pergunta. A Ciência deve responder, todavia.

Sócrates seria também reprovado por se negar ao uso do Power Point, e até mesmo por não gostar de escrever artigos ou ensaios, e muitas outras formas estabelecidas pelo método de relegar as dinâmicas e potentes ideias a rascunhos decompostos da realidade imobilizada. Sócrates, no máximo, seria considerado como mais um “comunista” barbudo e malsucedido na vida. Afinal, quem quer o movimento, o caos, e a desordem? Tudo atualmente deve ser bem previsível e monótono, em tons pasteis e com música lounge. Sexo? Só de meias, sem nunca se expor por completo, sem nunca se desnudar.

E isso não recai em crítica negativa às pessoas, propriamente, pois estas fazem o que é preciso fazer pois precisam sobreviver, e aprenderam ser assim, mas sim nas instituições como um todo, que serão atacadas também, a seu devido tempo. Mas as instituições são pessoas, mas há algo mais, pois neste caso o todo parece ser sempre maior do que a soma das suas partes. Além das pessoas, há os espíritos obsessores, que também estão nas instituições, e que veremos quem são eles no decorrer deste livro.

Tive a oportunidade de conviver nos últimos anos com algumas pessoas maravilhosas, dentre tantas outras nem tanto assim, e algumas destas maravilhosas pessoas até mesmo foram mais compreensivas do que eu mesmo teria sido, se tivesse de lidar com alguém como eu, pois foram capazes de formar um ambiente fértil e seguro, em suas aulas, dentro da comunidade acadêmica da Universidade do Porto, minha “casa”.

Pois foi assim que conheci a Filosofia, e pude perceber mais sobre tudo, a partir de mim mesmo, pois retornei à Universidade a partir de uma decisão “altruísta”, tomada lá pelos meus quarenta e seis anos de idade, em um momento da minha vida em que havia me transformado em niilista, sem nunca ter sabido o que significava isto.

E isso se deu para motivar minha filha, que estava a enfrentar resistências xenófobas em sua nova escola, ao chegarmos à Portugal, e decidi, com objetivo de ser um bom exemplo, ainda que de forma suspeita e questionável, ingressar novamente em um curso superior, e mostrar que se um “véio” conseguisse, ela também conseguiria. Não posso dizer que sou um bom exemplo para nada, mas dessa vez deu certo, pois naqueles tempos minhas próprias motivações eram praticamente nenhuma, e talvez ainda sejam assim.

Eram tempos de um completo vazio interior, para mim, desolado por ter deixado a Tailândia, sem entender muito bem como vim parar por cá em Portugal, arrasado pelos passos que o Brasil estava a dar na política, revoltado com a polarização eleitoral que emergiu e me fez acabar com diversas amizades virtuais nas redes sociais, o que me deixou muito mais triste, mas que foi preciso para que não afundasse ainda mais – precisei passar por isso e senti ainda mais a solidão em meio à multidão. Enfim, mesmo à distância estava a viver intensamente todo o processo que veio a ser confirmado como um retrocesso político, econômico e social do Brasil contemporâneo. E estava triste como nunca, e, mais do que tudo, chateado por minha filha estar a passar por isto tudo em um ambiente que deveria ser mais amistoso. Tivemos dias muito felizes na Tailândia. Surpreendi-me aqui com a resistência a nós brasileiros, enquanto imigrantes, naquele momento, e assim fiquei até que pudesse perceber o que realmente ocorre por aqui.

Ao ler uma notícia, daquelas de ultimato, sobre o sistema de acesso às universidades, para maiores de 23 anos, sem nenhuma complicação para além do que apenas algumas provas de conhecimento escolar, decidi me candidatar para retornar aos estudos acadêmicos, a acreditar que tudo se resolveria com isso, ou não. Precisaria escolher qual curso faria, e tinha apenas algumas poucas horas, literalmente, antes do término das inscrições.

Mas, o niilismo me dizia “tanto faz” para o curso que eu fosse escolher e, por isso, se o motivo era apenas motivar minha filha, decidi por um curso que não me daria nenhuma expectativa de vida, nem para mim, nem para ninguém. E logo surgiu a Filosofia como a melhor de todas as opções, justamente pela falta de opção que ela possibilita. Aliás, se eu quisesse ter soluções para tudo, partiria para o estudo do coaching quântico, sem dúvida alguma a grande promessa contemporânea de salvação da humanidade.

Na Filosofia, não há rankings, em si, pois os problemas nunca se resolveram, realmente, desde que começaram a serem discutidos, já a avançarem invictos no terceiro milênio de tentativas de todos os filósofos que foram vencidos pelos imortais problemas, um a um. Era tudo o que eu precisava naquele momento, de algo que nunca daria em nada.

E, assim, sem nunca ter lido um livro de Filosofia na vida, mas inúmeros de autoajuda, que considerava ser a mesma coisa, pois sempre estão na mesma parte das livrarias, ingressei na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Consegui a vaga e anunciei aos poucos amigos e familiares. As reações foram as mais diversas possíveis, mas sempre estranhas. “Filosofia?” Perguntavam assim. Ao dizer, feliz, para minha mãe que voltaria a estudar, ela prontamente ficou muito feliz também e me perguntou que curso eu faria. Eu disse a ela, e daí, depois de um breve silêncio, já triste e pesarosa me disse, com a voz embargada pelo lamento «meu filho, não faça isso, não vá andar com esses maconheiros» e isso refletia o que eu também tinha aprendido sobre Filosofia, na infância e adolescência. Que sina tem a Filosofia!

Mas, e a minha filha? Vai muito bem! Atualmente está a terminar sua licenciatura, a complementar créditos para uma segunda habilitação, e já a planejar o mestrado, ou um novo intercâmbio na Ásia, ou aprendizado de novos idiomas ou diversos planos que uma jovem com toda a vida pela frente é capaz de fazer, ainda que possa mudar isso tudo, de uma hora para outra, e fazer tudo diferente. Faz parte de seu legado selvagem, herdado biologicamente e agora filosoficamente, em nossas discussões temáticas à mesa onde muitas refeições e carteados são feitos. É uma mulher que assumiu o controle de sua vida e, acredito, já preparada para o mundo. Minha missão, afinal, está cumprida com ela e tenho orgulho do resultado que ela obteve, até agora, e sei que terá muito mais sucesso pela frente. Ela venceu, e ainda está a vencer, e a seu próprio modo.

O problema não estava nela, nem naqueles que a hostilizavam. Nem está nos jovens todos, nem nos adultos, nem em ninguém em especial, pois está mesmo no mundo que não está preparado para nenhum deles, nenhum de nós, afinal. Pois o mundo também tem lá seu espírito obsessor, que a esmagadora maioria ignora. O problema reside aí, neste espírito, que logo saberemos o que é. É preciso tirar a culpa da individualidade e jogar fora o que nos leva todos abaixo, ainda que alguns neguem e consigam disfarçar muito bem que são “felizes”, que estão bem – não estão, nem poderiam – e a culpa não é deles, repito. Por isso, a minha atenção agora está voltada para esta realidade inóspita e selvagem, pelo teatro e pela descoberta das regras ocultas do jogo da vida, enquanto por aqui ainda estiver ainda a jogar, no tempo que me couber, e que me restar.

A Filosofia, afinal, foi uma das maiores porradas que levei da vida. Não aquela porrada leve, morna, pudica ou certinha, como se fosse uma palmadinha de “amor” convencional dada nos momentos mais tórridos, não foi assim, nem deveria ser. Mas sim foi aquela bofetada forte, sonora, capaz de tirar instantaneamente a alma do corpo, despudorada, lasciva e profundamente visceral, na cara, e por todo o corpo, a deixar hematomas respeitáveis a qualquer sessão de tortura sadomasoquista dentro de uma prática de sexo ultra selvagem. Foi assim, sintetizada como se escreve nos mais lascivos contos eróticos: um misto de dor e prazer.

E, não, durante o curso não teve maconha, nem nunca a vi no campus, nem mesmo senti o odor característico dela por lá, em resposta às recomendações da minha mãe. Mas, em contrapartida, havia muitas outras drogas, pesadíssimas, oferecidas sem pudor nas aulas, tais como a premissa das predicações universais, a presunção de deus[2], o estoicismo e a maior parcela dos medievais.

O que busquei, academicamente, foi estar nas mais loucas situações de me chocar contra mundos em movimento, sempre a desejar sair da paralisia dos textos filosóficos, como se eu fosse um asteroide a vagar pela imensidão escura do Cosmos, em busca da coisa em si ortolaniana. Bati, em muitos planetas, mas sempre saia deles, a mudar o rumo, com algumas sequelas e a deixar alguns pedaços meus para trás, mas ainda a seguir adiante.

O sair, depois de um choque, e o continuar, significam que ainda estou a buscar um planeta que me absorva adequadamente, que me deixe desintegrado por completo. Pois, o pior de tudo é atacar tudo e nada surtir de resultado para além do silêncio. E logo se passa a lutar contra si mesmo sem perceber que o inimigo verdadeiro é mesmo você, e sempre foi, em uma luta que por vezes há a necessidade de ser uma outra personagem diferenciada, em um mundo em que parece que ninguém compreende você, nem mesmo percebe-se a si mesmo, pois não há uma compreensão mínima do que se é, ou de onde se está, nem para onde está a ir.

As pessoas, em geral, parecem ausentes de si mesmas, e tudo o que você emite não ecoa em mais ninguém, não encontra anteparos que estejam a acolher o que você possui – o vazio é real. Falta acolhimento em um mundo que sobram regras e normas. Um abraço afetuoso vale sempre mais do que um sermão. Mas, quem entende isto? O vazio ainda está em mim, mas não apenas em mim. Talvez, finalmente, a Filosofia possa ter uma utilidade intelectual mais pragmática sobre nós e o mundo, é o que penso.

Este livro, talvez o primeiro de alguns outros, ou talvez o único, ou talvez nem mesmo um livro filosófico possa vir a ser considerado, pois é uma tentativa de abordar tudo o que se conectou na minha mente, desde sempre, ainda mais nestes últimos anos, e buscar uma concatenação catártica de conceitos, dentre tudo o que há de mais relevante, para se perceber melhor como se pode atacar, selvagemente, o que existe de mais estranho em nossos tempos atuais.

Este livro é uma emissão minha, sem pretensões ou esperanças de encontrar anteparos, mas feliz se existir algum que retribua o que emiti, que se disponha a voltar ao passado em que ainda existia o diálogo. E isto é valioso demais, quando todos param, hesitam e percebem o precioso momento em que a vida está a ocorrer. Pois será por esta mesma estranheza, que surge em todos em alguns momentos da vida, que iniciaremos nossa jornada aqui, já na selva, a filosofar sobre tudo o que aparecer, sem nenhuma restrição ou zelo, e sem quase nenhum pudor.

Por isso, precisaremos conceituar tudo, mas de forma integrada, percebida claramente, com exemplos cotidianos e fatos recentes. O mundo, afinal, na impossibilidade de ter algo universal que defina e explique tudo com regras triviais, precisa ser compreendido a partir das estruturas em que estamos inseridos, sem esquecer a amplitude que conhecemos, nem a unidade mínima que somos, como indivíduo. Neste intervalo, os jogos da vida se dão. E precisamos perceber como jogá-los, pois, até agora não nos foram ditas todas as regras deles. Estamos a jogar na escuridão, e a perder, individualmente, ainda que a coletividade esteja supostamente a “evoluir”.

Iremos progredir para várias dimensões de utopias e outras tantas de distopias. Precisamos perceber que já não há mais lugares para todos nesta escassez neoliberal que estamos a conhecer mais intimamente. Que a forma que vermos o mundo não nos leva ao grande sonho, mesmo que este ainda esteja a ser constantemente propagado pelos praticantes da positividade extrema, dos média e de tudo o mais que deixa a todos muito anestesiados, quase catatónicos. Mas a verdade é que estamos mesmo rumo a um pesadelo nonsense. E será preciso lidar com isto o mais breve possível, antes de a conta chegar. Não há mais arremedos, é preciso uma rutura completa com muitas das formas arcaicas de pensamentos.

E como sobreviver nestes tempos sombrios? Quais as soluções para uma vida menos superficial? Há formas de se viver melhor? Talvez, e por isso veremos como lidar com este cenário aterrador com o que definiremos como o Neocinismo. Chegaremos lá, aos poucos. Pois o Neocinismo não é o estágio dos atacantes, mas sim daqueles que sabem que lutar contra algo tão incomensurável é quase uma luta perdida. Mas, ainda assim, pode ser bem divertido[3], enquanto o jogo estiver a rolar. É o despertar da libido filosófica, adormecida desde a extinção dos neoplatónicos pelo Cristianismo.

Se a própria vida é uma luta perdida, um jogo que o final é um só para todos, então que seja mesmo divertida, proveitosa e, claro, com muita Filosofia Selvagem, que dizem as estatísticas, sempre acaba por levar seus praticantes às melhores experiências, não apenas filosóficas, se é que me faço entender, depois que se passa sempre a tirar as meias, a se desnudar por completo. Quando a Filosofia faz os olhos revirarem, afinal, poderá ser ela própria uma coisa mais do que boa.

Se não por um certo motivo que lhe faça ter interesse, talvez por outro, mas sempre há uma boa razão para seguir adiante, a filosofar. E isto já é o nosso Cinismo a ser construído, a nos colocar em um ponto em que abrir os olhos é sempre melhor do que mantê-los fechados, principalmente se há predadores a lhe desejar, já com fome. Há predadores e predadores, há leões e há gatinhos, afinal, em todos os lugares e tempos. Resta-nos saber qual é um e qual é outro, nem sempre tão óbvios assim na selva.

E, por isso, dou-lhe as boas-vindas e realmente desejo bons momentos de leitura, de reflexão e muita selvageria, em todas as dimensões.

Esse livro não levará você muito a sério. Portanto, faça o mesmo, e não leia com a seriedade que esperamos não retribuir. Divirta-se muito, se puder, pois a diversão para escrever foi imensa – e uma catarse libertadora, a revirar-me os olhos, em muitas das passagens.

Espero logo nos encontrarmos, na próxima seção, já na selva e em intenso movimento que faremos neste aprendizado comum.

Vamos a isto!

Leandro Ortolan



[1] A maiêutica de Sócrates é um “parto da verdade”, em que ele começa a demover do interlocutor toda a certeza que este possui sobre as suas “próprias” verdades, suas afirmações. E, assim, ao deixar o interlocutor sem nenhuma certeza sobre nada, Sócrates pode apresentar a sua visão sobre o tema, como o fez na maioria das vezes, a concluir dentro da lógica que esteve a construir, desde o início do processo.

[2] Sempre usaremos minúsculas para designar deus, propositalmente. E isto não se dá com o objetivo de agredir a fé de ninguém, ou desrespeitar qualquer crença pessoal, mas apenas para não evocarmos nenhum conceito de um deus específico, mas sim um genérico, funcional e que se correlacionará com o nosso esquema conceitual do possível. Por isso, mesmo que existam referências mais específicas com algumas das religiões mais conhecidas e adotadas, o mesmo valerá para as demais religiões, na maioria das vezes. Buscamos mesmo a fundamentação funcional de deus e, por consequência, das religiões.

[3] “Divertido”, para nós, sempre será no sentido de menos angustiante. Não estamos a lidar com situações fáceis, nem superficiais, e por isso há que se ter em conta que a diversão é essencial para que possamos suportar o que há de muito podre em nossas estruturas existenciais. Há quem queira florear o que existe no mundo, há quem queira ver apenas o que seja o belo e perfeito, mas tal posição não será adotada aqui, mas sim a visceralidade existencial, razão pela qual sempre buscaremos nos descontrair, para que a leitura seja mesmo suportável e, por que não, agradável.

X