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Antropologia Filosóficos

O transumanismo como transcendência

Da transcendência como livre ação do homem, podemos considerar os componentes das crenças, desejos e vontades. A volição ou o uso da razão para fazê-lo é a capacidade de transcendência que explorarei neste trabalho, a considerar que minha hipótese é sobre a inevitabilidade do TH[1].

Crer na capacidade da superação da atual condição humana através do uso das tecnologias é totalmente possível. É possível pois sempre o foi. O homem, desde os tempos imemoriais, ao buscar do fogo e das ferramentas para superar sua condição de fragilidade, permitir sua sobrevivência e dominar o meio tem em suas crenças a necessidade de minguar, quiçá eliminar, sua própria finitude.

Desejar superar a atual condição humana faz parte da imaginação ativa, a buscar algo que não está em si, mas que se imagina existir: uma vida mais longa, com melhor qualidade, com mais realizações, com menos dores ou restrições, sem aborrecimentos de trabalhos indesejados e tudo o que a mente humana pode conceber. O desejo de perfeição, da realização do mundo ideal. Os desejos movem, também desde sempre, o homem à ação. Tão forte para alguns é o desejo que neles depositam todas as suas ações, na maximização da fruição pelo exercício do prazer, ou mesmo dos vícios.

Sobre a Vontade, nutrida pelas crenças e desejos, já nos revela algo mais. Não seria a vontade a primeira manifestação da transcendência? A vontade leva ao conhecimento (episteme) e separa-se das sugestões (doxa) das crenças e desejos. Não que o homem seja dividido, cindido, mas sua vontade sempre se direcionou à transcendência como também exercício de poder sobre o meio. No passado, os alquimistas já tentavam transmutar os metais a buscar a imortalidade.

Mesmo uma abordagem aristotélica da natureza humana nos embasa igualmente tais dimensões: o animal que nutre crenças e condicionamentos, o social que leva aos desejos e sensações e, por fim, o espiritual que leva à razão e à transcendência de sua própria natureza. Mas nada disto ocorre em separado, pois o homem não é dividido, ao contrário, reforça sua unicidade e assim intervém[2].

Portanto, transcender é algo inerente ao homem, que se percebe limitado pela sua própria condição dimensional, seja em corpo, mente ou espírito. O que virá depois do homem? Seria Deus[3] o objetivo implícito nestas aspirações humanas? O TH não preconiza nada além das capacidades humanas. O homem não só domina a tecnologia, mas a cria, revela as possibilidades que esta faz surgir, e sonha. Ao sonhar apenas vive sua própria condição evolutiva, e acredita que a própria evolução pode ser dominada, seja para acelerar as próprias capacidades, seja para retardar a própria finitude.

Não é possível, portanto, fugir ao TH. Pois percebo o TH como a própria natureza e condição humanas. Uma mescla em que o todo é vislumbrado como o alvo a se alcançar. Eis que perceber o TH é também perceber o homem, de sua origem ao seu destino. E isto abre inúmeras questões que afetam, ou afetarão, em maior ou menor grau, positiva ou negativamente, o status da humanidade.

A questão central, então, para o TH é de que a criação humana passa a se integrar a ele. A tecnologia deixa de ser uma ferramenta e passa a ser humana, funde-se ao homem, ao ponto que poderão ser indivisíveis, em uma utopia ou mesmo distopia, conforme seja o observador.

O homem, na impossibilidade de se recriar, reconstrói-se através da fusão com a tecnologia. E este aspecto é tanto o mais fascinante como o mais aterrorizante. A possibilidade tecnológica existe e até já pode estar a acontecer, mas o que realmente impacta a discussão é sobre quais os limites para esta fusão. Não há meios práticos para frear o TH, mas é possível dirimir sobre suas aplicações, ainda que seja um esforço hercúleo, mas que ainda deve ocorrer dentro da alçada humana.

Questões vitais como a robótica[4] com a inteligência artificial já mostram seu lado positivo e negativo, como todos os campos possíveis. Seria ruim o desenvolvimento de um robô dotado de sensibilidade e leitura das emoções humanas para perceber algum potencial estado depressivo ou suicida, por exemplo, e prevenir uma má ação? Mas e se este mesmo robô tivesse o uso para ampliar a propensão ao vício de seu usuário e o levasse a gastar todo o seu dinheiro em um cassino, por exemplo, a provocar uma má ação? O que é bom ou ruim? Até onde se pode definir o ético?

Enquanto tais discussões éticas ocorrem, a tecnologia que permitirá isto está a ser desenvolvida, a passos largos, em todos os cantos do mundo. Uma questão de tempo para que isto se concretize.

Retornando a Heidegger, sobre a questão do construir, não seria também equivocado deduzir que a construção de tais tecnologias incorpora a aplicação de um desejo de habitá-las. A intenção, ou razão, de fazê-las, que gera a motivação ou desejo, e incorpora crenças, já embute algo definido, ou um destino. O risco pode ser duplo. O projeto ser ambíguo desde o início ou mesmo desvirtuado após sua finalização. O uso da tecnologia acaba por sempre ser universal, e assim imprevisível.

Há que se prever que as direções da transcendência sejam oriundas da mente humana, e não da transumana. O homem tecnológico fundido com a tecnologia não é o mesmo do homem que possui apenas suas próprias capacidades orgânicas, mentais e espirituais. Poderia o homem fundido com a tecnologia decidir em prol desta, preterindo a sua própria humanidade, ou a buscar minimizá-la? Exercícios de futurologia, ficcionais, se realizados nos levariam a tais cenários. Quem, afinal, decide? Homem, máquina, ou o resultante da fusão? Quais os riscos da extinção da essência da humanidade, que nos define como homens? Talvez seja cedo para tais questões, mas um dia serão essenciais.

O maior dos desafios são os limites. Portanto, as questões éticas, que precisam originar questões legislativas universais, carecem de estar no centro da discussão. “O que o homem é” deixa de ser a questão principal quando se apresenta sobre o entendimento da natureza humana e passa à questão “o que o homem ainda é”, a assumir a transcendência como inevitável e presente.


Bibliografia

MARCOS, A. (2018). Bases filosóficas para una crítica al transhumanismo. ArtefaCToS. Revista De Estudios Sobre La Ciencia Y La TecnologíA, 7(2), 107-125. doi:10.14201/art201872107125

Lopes, W. (2020). O transhumanismo e a questão antropológica. Revista de Filosofia Aurora, 32(55). doi:http://dx.doi.org/10.7213/1980-5934.32.055.DS03

Cruz, Eduardo R. (2017). Criatividade, Transhumanismo e a metáfora Co-criador Criado. Quaerentibus_ 5 (9):42-64


Notas


[1] Transumanismo.

[2] “… em alguns casos a arte aperfeiçoa aquilo que a natureza não pode perfazer, em outros simula a natureza”.  (Aristóteles, Física, II.8).

[3] Em atendimento aos interesses do trabalho, as questões da transcendência divina não serão abordadas, embora percebo que mereçam ser citadas. O próprio Humanismo baseia-se no papel principal do homem, e assim percebo que deveria ser tratado, em prol da objetividade e alcance das possibilidades reais e práticas.

[4] Robótica com um dos exemplos a considerar o campo do TH bem mais amplo: nanociência, nanotecnologia, biotecnologia da informação e da comunicação, ciências cognitivas e neurotecnologias, inteligência artificial.

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